Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Lourizela

Opinião

Miguel Araújo

No Porto fala-se de tudo menos de Lourizela, mas em Lourizela também não se fala sobre Porto coisa nenhuma

DR

Há dias em que não se passa grande coisa. Noutro, vai uma pessoa pela autoestrada afora (uma das não-sei-quantas que existem por cá) a caminho de casa e passa por uma placa que indica uma saída que diz: “Lourizela”. E a pessoa pergunta-se como é que serão as coisas por lá. Eu nunca fui a Lourizela. Não conheço ninguém de Lourizela. Nunca ouvi falar de alguém que alguma vez tenha sequer ido a Lourizela. Até ao avistamento de uma placa de autoestrada daquelas que em princípio nem são para se reparar nelas (a não ser que se pretenda efetivamente sair nessa saída) eu nunca tinha ouvido falar em Lourizela. Nem sei se se diz em Lourizela ou na Lourizela. No Porto fala-
-se de muitas coisas. Fala-se que hoje em dia com isto das redes sociais não-sei-quê, que determinada operadora está a oferecer um tarifário simpático se uma pessoa meter em nome da empresa, fala-se da Europa, de gravidezes. Fala-se dos Estados Unidos. Discute-se moral em sentido lato e os melhores preços de gasolina. Há quem discuta futebol e uma vez ouvi debater sobre quais as marcas de pneus que melhor agarram nas curvas. Mas não se fala em (na?) Lourizela. Fala-se de tudo menos de (da?) Lourizela. E a pessoa pensa em largar tudo e ir para lá. Comprar um moinho velho que de certeza que fica perto de um sítio onde passa um riacho de água limpa. Em dias de calor uma pessoa enfiava os pés no riacho e molhava a parte de trás do pescoço com uma mãozada dessa água que de certeza que era limpa como o princípio do mundo. E no Porto iam-se metendo outros assuntos e ia-se deixando de falar de nós. As pessoas iam-se esquecendo. De noite via-se a lua ao ponto de se lhe perceber os buraquinhos. No Porto fartam-se de acontecer coisas todos os dias mas isso não interessava porque as notícias não chegavam a Lourizela. No Porto fala-se de tudo menos de Lourizela, mas em Lourizela também não se fala sobre Porto coisa nenhuma. O carteiro não passa no moinho. Se passasse, iria montado numa mula e haveria de ter o bom senso de poupar uma pessoa com as minudências da cidade. As pessoas de Lourizela de certeza que sabem fazer broa e contar histórias da guerra civil espanhola. Em caso de frio, acendem-
-se as lareiras e as casas e as chaminés, vistas de longe, hão de parecer um daqueles quadros idílicos da sala de espera da parte antiga da Casa de Saúde da Boavista. E pela janela via-se o luar através dos altos ramos que, como em Caeiro, o que tinham de especial era não serem nada mais do que o luar através dos altos ramos. E de manhã as crianças corriam atrás de galinhas. E era isso.

Uma pessoa largava tudo e ia morar para um moinho em Lourizela.

Ou será que, chegando lá, se dava o caso de que em Lourizela não havia nada a não ser Lourizela? Uma rotunda com um café e pessoas (algumas) sentadas em cadeiras amarelas a dizer Lipton, debaixo de toldos amarelos a dizer Lipton, a verem a telenovela da Tvi sem som e mais pessoas (as outras todas) na fila do Euromilhões, na esperança de ir embora de lá.

Como em Jafafe de Cima, Lameiro, Mataduços, Sepins, Caturela, Contriz, Codicheira, Espinhal, Felgares, Perrães, Gasparões, Pomarão, Arriconha, Malhapão e Isna de são Carlos. Como no Café Moreira aqui ao lado de minha casa, na rua da Senhora da Luz, na parte velha da Foz do rio Douro, no Porto.

(Crónica publicada na VISÃO1257, de 6 de abril de 2017)