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António Lobo Antunes

Recordo-me que chovia o tempo inteiro, uma chuva mansa 
e tristíssima, e eu me sentia idêntico 
a uma personagem 
de Simenon, prestes a um suicídio discreto não sei bem com quê, talvez martelando um prego dos escaravelhos 
no coração

Susa Monteiro

Há uns anos fui para Paris na esperança de desencravar um livro que não atava nem desatava e eu a escrever à roda, à roda, sem sair do mesmo sítio. A editora francesa que tinha na altura arranjou-me um apartamento pequeno perto do Quai des Grands Augustins, na margem direita do Sena

(não sou grande fã da margem direita do Sena)

isto é um apartamento minúsculo com uma sala, um quarto e um polibã. Pertencia a um desenhador, acho eu, que nessa época andava pela Birmânia ou coisa parecida, tinha as paredes forradas de caixas de madeira com tampas de vidro, cheias de escaravelhos espetados em pregos, uma mesa pequena para eu dar largas ao meu génio, um polibã miniatural onde me acocorava como uma múmia inca, um cubículo de cama Império, que me parecia igual àquela onde Napoleão morreu

(a cama, pelo aspecto, devia ser mesmo a do Imperador e eu agonizava ali todas as noites a pensar em Santa Helena)

também cheio de escaravelhos terríveis, isto para além de um polibã nominal onde me lavava de cócoras e de uma cozinha microscópica com alguns pratos, alguns canecos, alguns tachos e um bistrot perto, bastante ranhoso, onde oficiava a patroa velha e antipática e eu comia numa mesa solitária de tampo de mármore quebrado, nos intervalos do romance. 
A editora visitava-me de tempos a tempos, curiosa de saber se eu permanecia vivo ou me tornara escaravelho também, tentava calcular a olho o número de páginas feitas e desaparecia nas escadas com o som dos saltos a furarem-me o crânio.

(Existem sons de saltos agradáveis mas aqueles eram cavilhas horríveis que se me cravavam no frontal.)

Recordo-me que chovia o tempo inteiro, uma chuva mansa e tristíssima, e eu me sentia idêntico a uma personagem de Simenon, prestes a um suicídio discreto não sei bem com quê, talvez martelando um prego dos escaravelhos no coração. Lá ia lutando com as palavras, sem vontade nenhuma de me passear à chuva

(era fevereiro ou março)

até que conheci uma rapariga gorda, de cabelo escorrido, que às vezes comia também no mesmo sítio que eu, se chamava Nadine e trabalhava no escritório de uma loja de ferragens. Apesar de feia continuava a respirar e, a partir de certa altura, iniciámos uns diálogos com batatas na boca que se foram tornando palavras a pouco e pouco, sob o olho suspeitoso da patroa antipática. Depois do almoço era difícil porque a loja de ferragens lhe dava meia hora para encher o bucho, mas a seguir ao jantar começou a acompanhar-
-me até aos escaravelhos que lhe metiam um medo horrível

(– Bon Dieu)

e o pavor de exibir a sua nudez a tanta pinça e antena para além da ideia de agonizar no colchão de Napoleão, uma falta de respeito imperdoável para uma francesa. De modo que procedíamos às nossas manobras no soalho, que me esfolava as rótulas e os braços para além de os deixar castanhos de sujidade do soalho em que ela se derramava numa vasta mancha de gordura, a sussurrar

– Bon Dieux

que, embora curtos, foram os únicos sons articulados que alguma vez lhe escutei. Depois auxiliava a mancha a recuperar a posição vertical

(os meus bíceps desenvolveram-
-se imenso)

acompanhava-a à porta e regressava ao livro e aos insectos antes de me estender ao lado de Napoleão, sempre com medo de incomodar Sua Majestade com uma cotovelada sacrílega, enquanto a chuva insistia, tocando minuetes húmidos num algeroz próximo. Paris, entre muitas outras coisas, é para mim isso também. A margem direita, o frio cinzento, comida horrível do bistrot e os êxtases religiosos da pequena da loja de ferragens, que se tornou numa espécie de Imperatriz Josefina esférica. Consigo perto de mim ganhei vários Waterloos de solidão e acabei o livro. E palavra de honra que por vezes, ao pé dela, os escaravelhos das caixas, prontos a pegarem-me ao colo numa inesperada ternura de pinças gigantescas, mais suaves que as mãos etéreas dos anjos e capazes das mais doces e desajeitadas carícias. Garanto que não há joelhos esfolados que um creme gordo não cure. Nem é preciso muito: basta uma gotinha no indicador que é para poupar.

(Crónica publicada na VISÃO1257, de 6 de abril de 2017)