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Mas afinal o que é uma gastrenterite?

Opinião

Hugo Rodrigues

Conheça as manifestações clássicas deste tipo de situação e saiba como trata-las

A gastrenterite é uma inflamação do estômago e dos intestinos, geralmente causada por uma infecção. Nas crianças, a maior parte das vezes é provocada por vírus, embora nalguns casos possa também ser provocada por bactérias.

As manifestações clássicas deste tipo de situação são as seguintes:

- Vómitos

Muitas vezes são o primeiro sintoma a surgir e duram, em média, cerca de 2-3 dias. Apesar de serem uma tentativa natural do organismo para poder “limpar” o estômago, são extremamente desconfortáveis. O principal problema é o risco que acarretam de provocar uma desidratação, porque a criança perde líquidos e não consegue compensar essa perda.

- Diarreia

É o sintoma-chave para este diagnóstico. Significa que a infecção atingiu os intestinos e serve para que o organismo tente expulsar os agentes nocivos, sendo também um mecanismo de defesa. Ao contrário dos vómitos, o risco de desidratação de uma diarreia isolada é muito mais baixo, desde que a criança vá ingerindo líquidos em quantidade suficiente. No entanto, se for muito intensa, com múltiplas dejecções por dia, é algo que se deve considerar também. A sua duração média é de cerca de 4-5 dias.

- Dor de barriga

É muito frequente e, geralmente, tem sempre as mesmas características. É uma dor intermitente, que vai aumentando e diminuindo de intensidade, mas que pode ser bastante forte. Trata-se de uma dor difusa, que a criança tem dificuldade em localizar de forma exacta e que, habitualmente, alivia com a ida à casa de banho. Mantém-se enquanto houver diarreia, podendo ainda prolongar-se por mais uns dias.

- Falta de apetite

Quase todas as infecções perturbam o normal apetite das crianças, mas a gastrenterite fá-lo particularmente, por atingir o aparelho gastrintestinal. Apesar de ser uma queixa que preocupa muito os pais, geralmente não causa grandes problemas, pois trata-se de uma resposta normal do organismo, que resolve com a resolução do quadro. No entanto, pode aumentar o risco de desidratação e de hipoglicemias (“quedas” de açúcar), pelo que deve ser sempre avaliada adequadamente. Dura, em média, cerca de 1 semana.

- Febre

De todos, é o sintoma mais variável. Não é obrigatório que esteja presente, embora possa surgir nalguns casos. Geralmente não é muito elevada e a criança mantém um bom estado geral quando não se encontra num pico febril. A sua duração é de cerca de 3-4 dias.

Como se trata?

Apesar de poder causar alguma estranheza, na maior parte das vezes não se trata. É uma infecção auto-limitada, ou seja, que resolve naturalmente com o tempo e que não precisa de nenhum tratamento específico (há, no entanto, algumas excepções, nomeadamente as gastrenterites bacterianas graves, com um atingimento também grave do estado geral da criança, mas que são uma clara minoria).

A prioridade nesses casos é apenas tentar compensar os líquidos que a criança perde com os vómitos e a diarreia e, para isso, deve-se tentar que ela beba de forma fraccionada um soro de hidratação oral, que se compra nas farmácias. Para além disso, pode fazer sentido administrar também um probiótico, particularmente nos primeiros 2 dias de doença. O recurso a outros medicamentos depende sempre de uma prescrição médica, pelo que deve ser decidido caso a caso.

Por fim, uma palavra para a alimentação nestas situações. Actualmente não se recomenda nenhum tipo de restrição alimentar ou dieta específica, porque muitas vezes isso faz com que as crianças comam ainda menos. As excepções são os açúcares e as gorduras, que devem ser claramente evitados, mas de resto a criança pode comer tudo, incluindo produtos lácteos. Só vale a pena retirar o leite se houver suspeita de uma intolerância à lactose, mas são situações particulares e não é uma prática a recomendar por rotina.

Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues

PEDIATRIA

Hugo Rodrigues é pediatra no hospital de Viana do Castelo e docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto e na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Pai (muito) orgulhoso de 2 filhos, é também autor do blogue "Pediatria para Todos" e do livro "Pediatra para todos"