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A resposta que não pode enunciar-se

O dilema dos políticos moderados é que em matéria de terrorismo não podem dizer o óbvio. E o óbvio é que o terrorismo veio para ficar

O dilema dos políticos moderados, por essa Europa fora, é que em matéria de terrorismo não podem dizer o óbvio. Porque o óbvio é politicamente inaceitável, e o que para aí não falta são propostas de falsos milagres para resolver o problema, como todos bem sabemos.

Mas recuemos um pouco. Não sou especialista em segurança, mas parece-me pacífico dizer que o terrorismo está a mudar de natureza. Desde logo porque assistimos aquilo a que se tem vindo a chamar ataques “low tech”. Que não pressupõem grande planeamento ou sofisticação e serão (digo eu que, repito, de segurança pouco sei) mais difíceis de prevenir e evitar. Depois porque começa a perceber-se que vários do terroristas implicados em ataques recentes têm passados ligados à violência, mas não necessariamente à militância islâmica. São muitas vezes doutrinados na prisão onde cumprem penas por crimes que não estão, de forma alguma, associados ao terrorismo. Terá sido este o caso do atacante de Londres, por exemplo. Finalmente porque este é um terrorismo do aleatório, do acaso e do absurdo. Não aponta a políticos, a protagonistas públicos, a símbolos. O alvo somos você e eu. Em Londres, em Nice e em Berlim.

Ora, é porque é tão absurdo que é tão assustador e eficaz nos seus sinistros propósitos. O mecanismo é aliás simples. A partir do momento em que todos nos sentimos vítimas, todos somos mais facilmente mobilizáveis para o “combate”, para a exaltação, para o isolacionismo e para a miragem securitária.

E a ideia é essa, como veremos. Mas já lá chego.

Sucede, deixem-me que vos diga antes, que estas são as respostas tentadoras, mas são as respostas erradas. Por três ordens de razões. Porque o isolacionismo e as derivas securitárias são particularmente ineficazes num contexto em que o planeamento é escasso, as armas são carros ou são camiões, e os terroristas estão entre nós. Depois, porque num contexto em que todos nós deixamos, todos os dias, sem disso ter consciência, uma ampla pegada digital, a tentação securitária deixa-nos perigosamente à margem da tentação totalitária. Mais do que nunca, a segurança paga-se com liberdade e paga-se com privacidade. Precisamente dois dos valores constitutivos da nossa civilização ocidental. Finalmente porque no dia em que abdicarmos da nossa liberdade e da nossa privacidade teremos entregue, de mão beijada, a vitória a organizações como o Daesh. O seu objetivo não é outro senão o de destruir, minando-o por dentro, tornando-nos armas inconscientes contra nós mesmos, uma civilização que faz da liberdade um dos seus valores maiores.

Regresso, pois, ao início. O dilema dos políticos moderados, por essa Europa fora, é que em matéria de terrorismo não podem dizer o óbvio. E o óbvio é que o terrorismo veio para ficar. Faz parte, fará parte, durante alguns anos, de um dilacerante “novo normal”. Paradoxalmente, o terrorismo “low tech” e do absurdo só se combate aceitando, com tenacidade e coragem, esta terrível evidência.

E é porque esta é uma verdade invendável em termos políticos que foi admirável assistir à determinação da esmagadora parte dos políticos, do governo e dos cidadãos britânicos em fazer o país regressar à normalidade. Vinte e quatro horas depois do atentado de Westminster, o Parlamento regressava ao trabalho. É essa a resposta certa. Mesmo que não possa ser enunciada.

(Crónica publicada na VISÃO 1256, de 30 de março de 2017)