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Até que me transferiram para o Chiúme, o mais horrível buraco onde estive na vida. Só de lá saí para a Baixa do Cassanje, quase no outro extremo de Angola, onde não havia guerra, apenas ameaças de minas, um lugar de beleza imensa com um rio, o Cambo, cheio de crocodilos

Susa Monteiro

E uma, duas vezes por mês é isto. Aconteceu a noite passada, por exemplo, em que estava no Ninda, nas Terras do Fim do Mundo, sentado numa cadeira de tábuas de barrica, ao lado do Ernesto Melo Antunes, ambos a olharmos a chana ao longe enquanto um pelotão chegava da mata, desfeito de cansaço, com o alferes à frente, quase a arrastar espingarda. Pegada à antiga casa do chefe de posto, agora em ruínas, onde eu dormia, um milheiral seco a restolhar até ao arame farpado. Se o MPLA quisesse podia apanhar-me à mão. Dormia sozinho, nessa casa, e uma ocasião pedi ao Ernesto que me deixasse ter lá comigo o meu furriel enfermeiro. Duas espingardas defendem-se melhor que uma. Disse-me que um oficial não podia estar na companhia de um sargento. Limitei-me a responder-lhe que, se me caçassem, ele iria aguentar-se com essa culpabilidade para toda a vida. Ficou calado, a lutar consigo mesmo, mas não me respondeu, e eu meti-me sozinho na casa do chefe de posto. Colocou-me uma sentinela mais perto, mandou abater parte do milho, de tempos a tempos dava com ele a rondar a casa. Os caniços murmuravam a noite inteira e eu de arma destravada ao lado. Sabia que o MPLA vigiava de muito perto o Ninda e mais tarde o escritor Pepetela, também Prémio Camões, também meu amigo, ganho depois da guerra, contou-me mais de ocasião que pensaram várias vezes caçar--me ali mas que aparecia sempre um problema logístico qualquer a impedir a manobra, até que me transferiram para o Chiúme, o mais horrível buraco onde estive na vida. Só de lá saí para a Baixa do Cassanje, quase no outro extremo de Angola, onde não havia guerra, apenas ameaças de minas, um lugar de beleza imensa com um rio, o Cambo, cheio de crocodilos. De regresso a Portugal, em 73, durante a preparação do 25 de Abril, a minha amizade com o Ernesto estreitou-se ainda mais, tornando-se uma relação de irmãos. Nunca me zanguei com a sua resposta de que um oficial não dorme com um sargento. A companhia do Ernesto foi a que sofreu menos baixas porque a disciplina era férrea. Quando perdemos o primeiro rapaz foi o único momento em que os seus olhos mudaram. Disse-me uma só frase

– Tinha jurado que os levava a todos

e de facto quase levaste, Ernesto, quase levaste. E da mesma forma que aceitei que um oficial não dorme com um sargento tenho a certeza que entenderias se te despejasse uma rajada no pêlo. A guerra é realmente uma coisa muito estranha. Depois morreste com a mesma serena coragem com que viveste sempre. Um ou dois dias antes disseste-me:

– Esta manhã acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade

quando a única coisa que eu podia fazer era estar ao teu lado: como éramos ambos oficiais era permitido. 
E, enquanto agonizavas, pensava no milho do Ninda. Claro que se fosses sargento seria impossível estarmos ao pé um do outro. Mas eras um tenente-coronel e não cessavas de olhar-me, não pedindo nada, ambos à paisana, os dois quase civis, os dois separando--nos para sempre um do outro, com uma parte de nós em Ninda, nas Terras do Fim do Mundo. A guerra acabara há anos. Nenhum de nós se achava de camuflado, nenhum de nós viu chegar um pelotão da mata, com o alferes à frente, esbodegado de cansaço. Agora temo-nos encontrado nos meus sonhos, onde o milho restolha e onde, de vez em quando, umas explosões. Mas não faz mal. Daqui a pouco colocamos um tabuleiro numa mesita, dispomos as peças de xadrez por ordem e, como em cada dez vezes, tu ganhas nove, enquanto o milho da antiga casa do chefe de posto vai cantando, cantando. Afinal foi a ti que o MPLA levou. Daqui a nada é a minha vez e se tiver tempo construo uma defesa indiana do rei que te vais ver grego para dar cabo dela. A seguir, vamos espreitar os crocodilos ao rio e falar de poesia. Lembras-te do Victor Hugo que me deste quando te despacharam para São Salvador do Congo? Há por ali umas passagens que te queria ler alto.

(Crónica publicada na VISÃO 1256, de 30 de março de 2017)