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Sou obrigado a reconhecer que sou superior ao universo que me criou. E isto sim, já me parece algo digno de prova

Um amigo meu faz furor no Facebook com publicações que levantam grandes questões filosóficas. Depois o pessoal vai e opina em massa. Desata tudo à bordoada. Esta semana tinha a ver com ateísmo. Como sempre, abstive-me de contribuir para o debate, mas aproveito este bocadinho enquanto ninguém nos ouve para partilhar um pensamento. Ninguém me perguntou nada, mas afinal de contas isto é um artigo de opinião.

Não partilho propriamente uma opinião, mas partilho algo que para mim trata-se, acima de tudo, de uma perspetiva. Tem a ver com a questão de eu poder desenhar um gato. Eu não sou grande desenhador, nem trago grandes coisas ao mundo da arte ao desenhar um gato, mas consigo desenhar um. E aqui está ele, desenhado a caneta bic. Não se pode dizer que seja um bom desenho. Mas quem é que se atreve a dizer que é um mau desenho? Trata-se de um bocado de pigmento líquido fixado sobre pasta de celulose, sob forma de rabisco displicente. Mas que, de certa forma e sob determinado ponto de vista, é efetivamente um gato. Fruto da minha consciência e da minha criatividade. Eu quis um gato e, como se diz na minha terra, peguei e desenhei-o. Foi um ato deliberado, consciente. Eu quis. Então peguei numa caneta bic que aqui tinha e numa folha de rascunho da minha mulher e ei-lo, garboso e imponente, o meu gato. Fruto da minha criatividade. Pode ser uma criatividade limitada, mas foi o que eu consegui. Quis e pude desenhar o meu gato, que não existia antes e agora existe. É feio, tosco, mal desenhado, mas é. Não era, e agora é. Quem sou eu para explanar o conceito de “existência”, mas este gato agora existe, mesmo sem existir de facto. Fui eu que o inventei. E isto sou eu e um reles gato desenhado a caneta bic.

O meu desenho não traz grandes coisas ao mundo mas há outras criações humanas um bocadinho mais relevantes que trazem. Pontes, vacinas, pinturas, escadas rolantes, temakis, meias de lã, post-its, aspiradores, anestésicos locais para se removerem dentes do siso, canções dos beatles, etc. Tudo coisas que melhoram muito este mundo. Podemos até nem saber discernir a pertinência de tais criações no longuíssimo prazo, mas são criações humanas, frutos da consciência e da criatividade do homem, que tornam a nossa passagem por este terceiro calhau a contar dum sol uma viagem bem mais agradável. E depois há a Lei de Lavoisier, que se aprende em Físico-Química no 8º ano, que diz que “nada se cria, nada se perde tudo se transforma”. Não sei se esta Vida se gerou a ela própria. Não sei, nem ninguém sabe, se foi um senhor de barbas brancas com uma varinha mágica que assim mandou acontecer. Mas sei que, de certa maneira cujo rebobinar não me é difícil de intuir, fui gerado por este universo. E houve quem tivesse inventado a tinta. E houve quem tivesse inventado a esferográfica. E houve quem tivesse inventado o papel. Através da Vida, essa força que contém tudo o que a natureza contém, existem rosas e girafas e pores do Sol, porque essa Vida contém o potencial necessário para que se faça gerar rosas, girafas, e pores do Sol.

Se existem quadros do Van Gogh, sinfonias de Beethoven e latas de coca-cola, é porque essa vida carrega em si o essencial para gerar quem seja capaz de gerar tal. E eu, consciente e criativamente, pego na tal caneta e no tal papel e invento um gato. Se o universo que me criou não vem dotado de consciência e criatividade – se não existe intenção e vontade, as mesmas que deram origem ao meu gato – então, de certa maneira, num xeque-mate de lógica de mim contra mim, a dedução apresenta-se-me bastante lógica e a constatação suficientemente razoável: Sou obrigado a reconhecer que sou superior ao universo que me criou. E isto sim, já me parece algo digno de prova.

(Artigo publicado na VISÃO 1255, de 16 de março, de 2017)