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A minha horta

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Ter uma horta é um pretexto para estar ao ar livre, concentrada em tarefas físicas, durante horas, sem pensar em mais nada. É essencial para a minha higiene mental e ainda me dá saladas de borla!

Eu sei o que é que eu quero. Sei que não vou mais abrir mão da minha horta e do meu galinheiro. E isso não é uma questão de idade, é uma questão de oposição!” Dizia Elis Regina numa entrevista no início da década de 80, já depois de o ter cantado na sua “Casa no Campo”. Ora eu, além de ter assinado em baixo com uma canção-homenagem com o mesmo título no meu primeiro disco, assino em baixo novamente aqui, em jeito de declaração de amor.
Eu não bebo, não tomo drogas, não pratico boxe ou desportos radicais, não tenho compulsão pelo consumo, não tenho o hábito de dançar madrugada fora numa pista de dança, não sou fã de música psicadélica e, portanto, restam-me poucas outras coisas para servir de escape, gatilho para o êxtase ou simples descarga de adrenalina.

Eu gosto de dormir muito, ficar em casa a ver programas de política e de cuidar da minha horta. (Sou uma seca.) A adrenalina fica toda para o palco e o êxtase para os mergulhos no mar, para o momento em que encaixo a palavra certa na rima que estava em aberto e para os gelados italianos. De resto, gosto mesmo é da minha horta.

Tenho toda a noção de que esta associação entre agricultura e lazer pode parecer coisa de dondoca de primeiro mundo ou laivo de romantismo hippie, uma perspectiva totalmente urbano-açucarada, desenraizada da “vida real”, própria de quem nunca teve de encarar o extenuante trabalho no campo. Podemos até considerá-la uma agricultura pós-produtiva, já que a motivação para o trabalho não depende do resultado, na medida em que a subsistência também não. Mas a verdade é que além de ser um prazer, ensina-me muitas coisas importantes e reduz uma boa parte da minha pegada ecológica.

Ter uma horta, permitiu-me ter um compostor, onde deposito toda a matéria orgânica que sobra da cozinha (cascas de fruta, restos de vegetais, borras de café, guardanapos de papel...). Num processo do qual resulta um adubo riquíssimo para a terra e que reduz cerca de 40% do lixo doméstico que iria para incineração ou aterro. Faz diferença.

Ter uma horta, fez com que me reconectasse com as estações do ano, que aprendesse quais os produtos da época e quais as variedades que se dão melhor no nosso clima. Que valorizasse a biodiversidade e o imprescindível papel dos insetos polinizadores (num momento em que as abelhas se aproximam perigosamente da extinção). Que tivesse uma maior noção do esforço depositado nos ciclos produtivos e como dá trabalho produzir comida (num contexto em que estamos cada vez menos conscientes de tudo isso): no supermercado há sempre curgetes, há curgetes o ano inteiro (e até parece estranho que há anos ninguém sabia o que era uma curgete...).

Ter uma horta é um pretexto para estar ao ar livre, concentrada em tarefas físicas, durante horas, sem pensar em mais nada. É essencial para a minha higiene mental e ainda me dá saladas de borla!

E mesmo do ponto de vista coletivo, a agricultura urbana é importante. Ter hortas nas cidades, além de ser providencial para a alimentação de muitas famílias, tem muitas vantagens. Mantém, disponíveis e produtivas, superfícies permeáveis ao escoamento de águas, aproveita muita matéria orgânica que de outra forma era desperdiçada, garante espaços verdes mantidos a custo zero e de forma voluntária, pode ter um aproveitamento pedagógico e contribui para o regresso a um modelo de sustentabilidade que, parecendo novo, não é. As cidades do passado eram rodeadas de hortas. A proximidade entre produtores e consumidores foi sempre uma boa ideia! Além de nos poder salvar a vida.

Como nos EUA durante a Grande Depressão, ou na Alemanha do pós-guerra (com hortas no Central Park, no Tiergarten e onde fosse possível). Como em Havana, nos primeiros anos de embargo ou, mais recentemente, na Detroit pós-industrial.

Decididamente, estou com Elis: não vou abrir mão da minha horta. E não é só por uma questão de prazer, é mesmo uma questão de oposição!