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José Eduardo Martins

Opinião

José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

A caixa redonda

A mesma esquerda que concentra esforços para despedir o governador do Banco de Portugal – ou quem quer que ouse discordar da paz socialista – é quem impede que se conheçam auditorias internas do banco público

Nestes tempos de informação multiplicada por mil e opiniões demasiado baratas, é fácil viver de impressões, deixar de pensar, ir atrás do primeiro reflexo pavloviano. É por isso cada vez mais importante o jornalismo. Sem truques. Só o Jornalismo.

Foi o que fizeram as jornalistas Anabela Campos e Isabel Vicente, no Expresso da semana passada: uma síntese, mais uma, de como certos artistas – sempre os mesmos – nos enganam com tanta ou ainda mais facilidade desde que a crise financeira de 2008 inaugurou o mundo em que vivemos.

É a estória de como a história do crédito 
“malparado” – eufemismo de perdido – da situação da banca é, no fundo, sobretudo uma pequena história das nossas “elites”, da sua incompetência, cupidez e o mais que às vezes, muito poucas infelizmente, o Ministério Público classifica de outra maneira…

Este fim de semana para lá da qualidade da investigação, o texto destas jornalistas obriga a juntar os pontos de muitos factos que nos foram sendo servidos em catadupa ao longo do tempo nem sempre se intuindo que, como na música do Sérgio Godinho, isto anda tudo ligado. E se isso ajuda a pensar.
E o que se liga no texto “lucros privados, prejuízos públicos”? A banca portuguesa tem 40 mil milhões de crédito malparado às costas. Mais de metade dos quais registado a partir de 2013. As consequências foram, à cabeça, duas: alguns bancos pediram dinheiro emprestado para tapar o buraco de capital face às novas obrigações prudenciais, outros acabaram a ser resgatados com o dinheiro dos contribuintes.

E a quem foi concedido este crédito que fez o dinheiro desaparecer? Ao vasto universo das PME que compõe a maioria da estrutura de produtividade e emprego do País? Não, a maioria do crédito está concentrada em 50 industriosos grandes devedores, bem conhecidos, em particular, uns dos outros.

Partilham o pequeno-almoço no Ritz, cadastros de centenas de milhões de dívidas e um azar aos negócios sem paralelo no hemisfério norte. Ou então partilham com a banca uma incompetência – vamos pelo lado melhor da coisa – para a qual a maioria parlamentar tem a maior das tolerâncias apesar de berrar muito o contrário.

É que, quando se acaba de juntar os pontos, 
sobressai e muito o farisaísmo, para dizer pouco, com que a nossa esquerda, tão moralista, se diz ocupar dos assuntos do nosso sistema financeiro.

Um dos emprestadores sem eira nem beira, a quem vamos pagar a incúria, é a Caixa Geral de Depósitos. 
A recapitalização que pagamos são milhares de milhões de euros de crédito perdido em negócios ruinosos. Irrecuperável. Numa lista curta. Demasiado curta para que o seu conhecimento não suscite muita pedagogia e nos proteja de repetições, como diriam os açorianos.

Pois que fazem PS, PC e Bloco? Bloqueiam, com a sua maioria, o acesso ao conhecimento dos deputados sobre as misérias e desvarios que não podem voltar a acontecer na Caixa. Desobedecem até ao Tribunal da Relação para evitar que se fique mesmo a saber o que fez a Caixa no tempo de Sócrates.
O deputado do PCP que queria tirar o salário à dr. Teodora Cardoso (e a quem o PS já esta semana fez o favor de propor legislação para acabar com a independência do Conselho das Finanças Públicas) acha que conhecer no Parlamento a lista dos grandes devedores que obrigaram a esta recapitalização “vai certamente fragilizar a Caixa”…

A mesma esquerda que concentra esforços para despedir o governador do Banco de Portugal – ou quem quer que ouse discordar da paz socialista – é quem impede que se conheçam auditorias internas do banco público, a situação dos 50 maiores devedores do banco, a lista dos créditos superiores a um milhão de euros e os 50 acima deste valor que deixaram de pagar. Que se possa evitar que pelo menos no banco público não se repita a pouca-vergonha que nos põe esta canga às costas.

Os malandros agradecem que as atenções se virem para o Carlos Costa. E o leitor?

(Artigo publicado na VISÃO 1253, de 9 de março, de 2017)