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Um amigo meu brasileiro passou uma temporada no Porto e deixou-se andar por aí à solta. Só no terceiro dia é que compreendeu esta simpatia grosseira que prende os forasteiros a esta cidade. É que nós, os nativos, os indígenas, os autóctones por trás dos balcões, nas ruas e nas esquinas, somos grosseiros como o raio

Eu não nasci propriamente no Porto. Quer dizer, nasci em Águas Santas, Maia, numa altura em que a cidade da Maia ainda estava a 9 anos de se ver elevada a tal. Por isso nasci na cidade do Porto, para todos os efeitos. E a minha família Araújo é portuense há várias gerações. Venho de uma família de comerciantes do largo de São Domingos. O negócio de família, uma papelaria chamada “Araújo e Sobrinho” fundada em 1823, ainda existe. Foi transformada em hotel, mas ainda lá está. Eu venho de uma família bastante portuense, de gente habituada a estar atrás do balcão a atender pessoas. E existe uma cortesia típica dos portuenses que recebem pessoas, seja nas lojas, nos cafés ou nos restaurantes. É uma cortesia austera, aparentemente grosseira até. 
Eu vou tão longe quanto o afirmar que essa grosseria é o que caracteriza a hospitalidade portuense. Um amigo meu brasileiro passou uma temporada no Porto e deixou-se andar por aí à solta. Só no terceiro dia é que compreendeu esta simpatia grosseira que prende os forasteiros a esta cidade. É que nós, os nativos, os indígenas, os autóctones por trás dos balcões, nas ruas e nas esquinas, somos grosseiros como o raio. Temos para com os nossos estimados visitantes aquela rispidez imediata que as pessoas habitualmente reservam a um restrito e íntimo número de pessoas da própria família. Esse meu amigo brasileiro pediu açúcar para acompanhar o café e a senhora de um café na ribeira disse-lhe qualquer coisa como “olha-me este, já me quer lixar… ó criatura, não vês aí os pacotinhos?”.

Foi só no terceiro dia de uma bateria seguida de enxovalhos deste género que realizou, nesse preciso (e precioso) momento, que é nesta grosseria de mãe a mandar o filho tirar os pés do sofá que reside a gentileza suprema. Ele estava a ser verdadeiramente tratado como um filho. Há um restaurante em Irivo chamado Sapo onde os empregados mandam o clientes levantar-se da mesa para ir buscar vinho. “Não vês que eu tenho mais que fazer? Não sabes onde está a garrafeira?” 
As pessoas vão lá por isso, também. Para se sentirem realmente em casa. 
A gentileza portuense tem esse lado absolutamente fraterno. E se é para fazer justiça ao termo “fraterno”, há que reconhecer que os irmãos, na vida real, tratam-se sem cerimónia, sem quaisquer vestígios de hipocrisia social, com alguma grosseria que só a verdadeira intimidade de um parentesco de sangue pode propiciar.

E é por isso que quando o Porto foi recentemente galardoado com a distinção de melhor destino europeu, em que a maioria dos votantes não eram sequer portugueses, não é de espantar que a principal razão diagnosticada pelo americano Huffington Post fosse bastante inequívoca: as pessoas gostam do Porto por causa das… pessoas. E nós, os portuenses, esbarramos com estas distinções vindas do estrangeiro enquanto reclamamos, de olhos vidrados, que os gringos ainda nos vão dar cabo desta porcaria toda, que antes da Ryanair é que era, enquanto olhamos à nossa volta e reparamos no Porto pela primeira vez na vida, assoberbados de comoção e vaidade.

(Artigo publicado na VISÃO 1251, de 23 de fevereiro de 2017)