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Discutir a Europa ao centro

Opinião

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Gosto da Europa. Ou, melhor dizendo, gosto do sonho Europeu que foi capaz de proporcionar-nos 60 anos de paz. Que aproximou países, nações, culturas que viveram séculos de costas voltadas, quando não, sanguinariamente à pancada

Escreve-vos um euro entusiasta. Um eurofílo, palavra que o meu dicionário jura não existir, mas que eu, teimoso, insisto em usar. Gosto da Europa. Ou, melhor dizendo, gosto do sonho Europeu que foi capaz de proporcionar-nos 60 anos de paz. Que aproximou países, nações, culturas que viveram séculos de costas voltadas, quando não, sanguinariamente à pancada. Gosto da ideia de livre circulação de pessoas e de bens, gosto da promoção dos valores que nos unem, gosto, é claro, de um mercado unificado. Se gostava de mais união? Ainda bem que pergunta. Sou, sempre fui, um federalista. Bem sei que essa é hoje uma quimera política, mas eu vou continuando convencido de que é a solução para as deficiências de uma Europa com uma política monetária comum e incapaz de se defender a si mesma sem o guarda-chuva da NATO que, volta não volta, o sr.

Trump esburaca. Enfim. Terá de conceder-me o direito de ter os sonhos que quiser. Pelo meu lado prometo já, já, voltar à Terra.

Interrompamos o sonho e falemos então de coisas menos idealistas e mais prosaicas. A Europa está a viver um tempo absolutamente crítico. Está falha de projeto e falha de liderança. E lida, neste contexto, com problemas gigantescos (a emigração, o terrorismo, as tensões provocadas pela arquitetura falhada do Euro, os deserdados da globalização, e, em breve, os deserdados da revolução digital). Todo este caldo (mas a Euro crise, o terrorismo e os migrantes em particular) têm vindo a alimentar receios vários e um descontentamento crescente que partidos populistas (de esquerda e de direita) aproveitam para alimentar em seu próprio proveito.

Generalizando, o discurso resume--se a "nós" (o povo) contra a "casta", a "elite". E a Europa é, vá-se lá imaginar maior estupidez, um instrumento que só serve as elites. Os resultados de tudo isto já os conhecemos.

Pululam partidos de base populista que, com este sofisticado discurso, vão ganhando adeptos demonizando o sonho europeu. Têm nomes: Syriza, Podemos, Partido Popular Dinamarquês, Partido da Liberdade da Áustria, UKIP, Front National, Partido para a Liberdade (nos Países Baixos), Alternativa para a Alemanha, Movimento 5 Estrelas.

Sucede, ainda por cima, que, depois do trauma do Brexit, depois do espanto de Trump, a Europa tem um ano particularmente desafiante pela frente: eleições na Holanda, em França, na Alemanha e, talvez na Itália. Em todos estes países o populismo eurocético tem fortes probabilidades de ver aumentada a sua base eleitoral. O sonho europeu ficará mais longe.

Paradoxalmente, acredito que uma das respostas para este drama civilizacional é questionar, abertamente, a própria Europa. A verdade é que fomos nós, euro entusiastas, que amassámos o pão de que se alimenta o euroceticismo populista.

Criámos, bem-intencionados, um amplo consenso político central, fizemos das críticas à Europa um verdadeiro tabu e deixámos esse debate para as franjas. Para os radicais.

Ora, parece-me, é altura de reposicionar esse debate ao centro.

Porque a Europa está de facto numa encruzilhada, tem uma arquitetura deficiente e está a transformar-se numa soma de peças sem sentido (rimará a Hungria com o coração dos valores Europeus?). É altura de este debate ser resgatado pelo moderados.

É a altura de acabar com tabus (federalismo, saída da União, etc.). Por uma simples razão. Discutida ao centro, com moderação, sem truques retóricos, a Europa é (ainda) reformável. Deixada para pasto dos radicais a equação tornar-se-á dicotómica. Tudo ou Nada. E eu tenho medo que, com o que aí vem, o Nada acabe por impor-se.

(Texto publicado na edição 1252 de 2 de março da revista VISÃO)