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José Eduardo Martins

Opinião

José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

O barco encalhado

Os parceiros da maioria não se entendem sobre a Concertação Social e o salário mínimo, a titularidade da política de saúde, as leis laborais, a evolução de salários e carreiras na Administração Pública, a descentralização administrativa

Em julho de 2015, antes das últimas eleições, Cavaco Silva dava sinais de preocupação com a possibilidade do resultado das legislativas levar a um governo de minoria, que o Presidente considerava perigoso face à dimensão dos desafios de Portugal.

O PS, por essa altura já convencido de que ia ganhar as eleições sem maioria, reagiu de imediato. António Costa respondeu que o Presidente tinha introduzido um “critério não constitucional” para a formação do novo governo, concluindo, com a educação do costume, que a melhor maneira de o Presidente “terminar o seu mandato com dignidade” era os portugueses darem uma “maioria” ao PS.
Os portugueses, esses malandros, fizeram orelhas moucas e o PS não só não teve maioria como ficou em segundo, atrás da direita da austeridade.

Seguiu-se o que se sabe. E, depois daquelas bizarras semanas, Cavaco acabou por dar posse a uma novidade: um governo minoritário da segunda força política parlamentar estribado no respaldo de toda a esquerda.

E assim se fez magia. Em três dias, a nossa esquerda casou-se para sempre. Tinham, afinal, os partidos que nunca se entenderam no essencial uma solução de governo “sólida, duradoura, estável”. Pelos vistos, bastava para isso a não aprovação de moções de rejeição do PSD/CDS e a apreciação conjunta dos orçamentos do Estado e umas quantas reversões.

Enfim, como se percebeu, diriam o que fosse preciso para evitar que Passos Coelho fosse primeiro-ministro. Conseguiram. Durou um ano.

Sucede que o novo paradigma não era paradigma nenhum. O PS continua a ser um partido de governo e, na designação do próprio Costa, o Bloco e o PC continuam a ser partidos de protesto sem vontade de partilhar nenhuma das responsabilidades com que a realidade lá vai impondo linhas vermelhas à governação do PS.

A esquerda uniu-se para fazer o fácil: redistribuir alguma da pouca folga gerada pelo sacrifício da austeridade mais depressa do que a prudência recomendava. Só.

Quando chega o tempo das opções difíceis, o PS fica sozinho ou, ao contrário do que diz, a precisar da direita. Só pelo já anunciado, os parceiros da maioria não se entendem sobre a Concertação Social e o salário mínimo, a titularidade da política de saúde, as leis laborais, a evolução de salários e carreiras na Administração Pública, a descentralização administrativa. Ou até, pasme-se, o que fazer dos transportes públicos depois da reversão.

Já para não falar dos temas maiores. Um governo que bate o recorde negativo no investimento público para cumprir o défice do tratado orçamental e vive apoiado por partidos que querem sair do euro, só não é mais ridículo porque nos queremos mesmo distrair das nossas misérias.

Não há nenhum problema com a legitimidade do governo. Mas ela só tem o dito estribo na união dos partidos de esquerda. Tomaram posse há um ano com esse pressuposto, não foi? Ora, se em nada do que falta estão de acordo, como podem ser uma maioria?

Não são, nunca foram e, de resto, ainda bem. Mas vão continuar a fazer de conta que sim e, em nome da “estabilidade”, haverá muito quem lhes tolere a bruma.

Se a memória não me atraiçoa, em tempos escreveu Nuno Brederode Santos a propósito de um governo de maioria, que dois terços da Terra são mar e todo o barco à deriva acaba sempre por encalhar… agora temos coisa nova: um barco já encalhado que faz que navega.

A única coisa nova neste início de ano é a atitude do PSD. Até que enfim alguém deixou de fazer de conta. De ora em diante, ou há maioria ou há mudança. Valha-nos isso.

(Artigo publicado na VISÃO 1248, de 2 de fevereiro de 2017)