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Factos alternativos e o futuro do jornalismo

A Pós Verdade sempre existiu e sempre teve um nome mais prosaico, a Mentira

A seu tempo, com o seu tempo, os historiadores farão a dissecação do que nos trouxe até aqui. Do que nos trouxe até Trump. Por agora queria apenas arriscar uma pista relacionada com a defesa, perturbadora, da pós-
-verdade e dos seus descendentes a que agora batizaram de factos alternativos. Permitam-me, pois, três notas sobre o assunto.

A primeira, na linha do que já vi e ouvi defendido por vários analistas, prende-se com a suposta novidade do fenómeno. A pós-verdade sempre existiu e sempre teve um nome mais prosaico, a mentira. Existiu, descarada, científica, com Goebbels, com Stalin, com Mao. Mas existiu – e existe – também, subliminar, poderosa, em todos os nossos regimes democráticos. É bom que tenhamos consciência disso e da provável inevitabilidade disso.

A segunda nota arrisca-se a ser mal compreendida. A pós-verdade só é um problema se supusermos a existência de uma qualquer verdade. A ideia é perturbadora para muitos de nós e pode naturalmente ser desafiada. Mas não quero nadar para águas filosóficas onde seguramente me afogarei. O meu ponto, agora, não é esse. Para o meu argumento basta-me dizer que no cerne da defesa liberal da ideia de liberdade de expressão está precisamente a noção de que essa verdade existe. Ou, sejamos mais brandos, está subjacente a ideia de que não deve recusar-se a hipótese da sua existência. É porque existe, ou porque pode existir, que deve ser procurada. É porque existe ou pode existir que devemos aspirar a aproximar-nos dela. E é na medida em que nos aproximemos dela que tomaremos decisões democráticas mais esclarecidas. Ora, para nos aproximarmos dela – fecha-se o círculo – é necessária uma ampla liberdade de expressão. 
É necessário um desafio livre de todos os preconceitos, é fundamental que não se aceitem verdades – ideológicas, religiosas, sexuais, culturais – política ou socialmente impostas ou banidas. 
É necessário recusar dogmatismos e tabus. Só assim, num paradoxo que é só aparente, se garante uma busca permanente da verdade.

Acontece que, talvez porque a ideia é confusa e aparentemente paradoxal, temos confundido este conceito liberal de desafiar as verdades como processo fundamental para a aproximação a uma qualquer verdade, com a ideia relativista de que não existe qualquer verdade mas apenas verdades. Com a ideia de que tudo se equivale, que tudo depende das circunstâncias, do quadro mental ou cultural. Acontece também que esta confusão encerra um perigo. Se tudo é relativo, se não há nem pode haver uma qualquer verdade (ainda que incognoscível e ainda que nunca politicamente imposta) então qual é o problema com a pós-verdade? Que é como quem diz, qual é o problema com a mentira?

Terceira e última nota. 
O jornalismo, em Portugal e no mundo, vive tempos perigosos. 
Às mutações tecnológicas, à miopia de muitos, junta-se agora a ideia perigosa de que os factos acabaram, de que entrámos no reino da pós-
-verdade que verdadeiramente o dispensaria. Paradoxalmente este é também o tempo de uma enorme oportunidade para o jornalismo. Para a agarrar precisaria de voltar às origens. De voltar a dar valor aos factos. De os testar, de os documentar, de os investigar, de os desafiar, de os debater. Precisaria de se libertar da canga relativista, de voltar acreditar na relevância do processo sempre inacabado de procura de uma inatingível verdade. É na medida em que o conseguir fazer, que o jornalismo será credível e relevante. Sendo certo que sem relevância não poderá aspirar a ter grande futuro.

(Artigo publicado na VISÃO 1248, de 2 de fevereiro de 2017)