Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Este não é o tempo 
do pós-verdade, é o tempo 
da falta de sindicância

Dizer que a política desafia a verdade, que vive em tensão com esta, não significa que a política seja, tenha de ser, ou deva ser, mentira

A manipulação, a mentira, o boato ou a descontextualização foram sempre armas utilizadas no debate político, com mais ou menos vigor, por líderes e regimes mais ou menos respeitáveis, como aliás a História facilmente comprova.

Houve sempre, ao longo dos tempos, a necessidade de preservar o público de determinadas estratégias, de descontextualizar afirmações e factos, de imputar aos adversários intenções não propriamente reais, de empolar certos dados e desvalorizar certos números, de descobrir no adversário o ponto fraco ou a história mal explicada. E sim, houve sempre muitas mentiras, muitos mitos, muitas lendas.

A política fez-se sempre assim e, deixando agora superioridades morais de lado, sempre desafiou a verdade: por um lado, porque a política, para chegar aos eleitores, para convencer, precisa de uma narrativa, de uma emoção, de uma energia, que a verdade, só por si, na sua imensa força, nem sempre oferece; por outro lado, porque a política confronta várias verdades, várias interpretações da realidade, colocando-as em debate, precisamente porque não existe uma noção unívoca do que seja verdade a não ser em regimes totalitários.

Dizer que a política desafia a verdade, que vive em tensão com esta, não significa que a política seja, tenha de ser, ou deva ser, mentira. Significa, isso sim, que ela cria sempre, gera sempre, uma necessidade permanente de sindicância, mesmo quando o seu exercício não tem a mentira como vontade ou aspiração.

Nessa medida, o desafio do nosso tempo, a novidade com que nos confrontamos, não é tanto o do pós-verdade, que esteve sempre associado à política, mas antes o desafio gerado pelo quase abandono, nas nossas sociedades, da função e vocação de sindicância, de confrontação, de verificação. É esse abandono, que será mais uma consequência do que uma opção, que deixa a descoberto a sempre existente tensão entre política e verdade.

Hoje noticiam-se citações, afirmações, proclamações, como se estas não carecessem de sindicância no momento em que são noticiadas. Noticia-se e pronto. E depois noticiam-se as reações e as contrarreações, como se só o debate interessasse, como se não fosse relevante saber quem fala a verdade, se é que alguém o faz.

Hoje quase não há fact checks. Aparece um ou outro, em assuntos de maior relevância, normalmente quando o facto já se cristalizou, e sem qualquer consequência, como se o fact check não tivesse de ter seguimento, como se não houvesse que confrontar os autores com as suas afirmações falsas ou enganosas, como não se interessasse retirar consequências políticas dessa atitude.

Hoje permite-se que se façam anúncios ou apresentações de políticas sem perguntas, sem que haja o propósito, sequer, de confrontar, esmiuçar, aclarar, como se bastasse o anúncio, como se se autorizasse o agente público, o político, a exercer o seu cargo sem contraditório.

Hoje espera-se que seja a oposição a fazer o papel de sindicância do que é dito ou anunciado pelo governo, acusa-se mesmo a oposição de o não fazer, como se esta pudesse ter, na opinião pública, a credibilidade ou a vocação de reposição da verdade dos factos, como se a sindicância fosse uma mera questão de confronto entre oposição e governo, como se não coubesse à comunicação social, precisamente, esse papel mediador insubstituível.

Tudo isto que aqui descrevo, e que penso retratar o que hoje vivemos, é independente de cores ou partidos, quero deixar isso bem claro e realçá-lo com vigor. Não há aqui, eu pelo menos não o vislumbro, um abandono seletivo da função de sindicância, mas algo de mais estrutural, mais profundo.

O tempo que vivemos não é, pois, o da pós-verdade, é o do abandono da sindicância, e deveria ser isso a merecer maior reflexão.

É verdade que o mundo digital amplifica e agiganta essa tal tensão entre política e verdade, e desse ponto de vista temos uma relevância nova para um velho desafio. Mas nada impede o mundo digital de amplificar e agigantar a função de sindicância. Pelo contrário, nunca foi tão possível exercer essa função e fazê-la chegar às pessoas.

Sim, uma mentira espalha-se com facilidade pela internet. Mas desmascarar um mentiroso também é algo que se espalha com facilidade pela internet, assim se saiba fazê-lo. Se os políticos, alguns ou todos, atualizaram as suas práticas através do digital, nada impede que aqueles que os sindicam façam o mesmo. Dá trabalho, implica mudar de técnicas e de rotinas e de foco, obriga a colocar em causa muita coisa, mas é possível: o digital é de quem o souber usar.

(Artigo publicado na VISÃO 1246, de 19 de janeiro)