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José Eduardo Martins

Opinião

José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

Um ano perdido

Quando a desvergonha se transforma em programa de Governo todos sofremos, os sem vergonha, os desavergonhados, os envergonhados e os que, como eu, têm vergonha em nome da desvergonha alheia

Passou um ano de engodo e as sondagens não podiam alegrar mais a geringonça e os seus gaiteiros. Todos os governos passam pelas diversas fases da Graça. Há o estado da dita que muitos insistem em limitar aos primeiros 100 dias de governação, há a fase em que os governos se consideram engraçados (e que com o atual primeiro-ministro sabemos ser um estado permanente) e, sem forçar a nota hegeliana, há o estado de desgraça, quando o amor ao próximo faz cair o Governo...

Adiante, fruto da herança judaico-cristã, tendo a preferir avaliar os governos pela sua relação com a vergonha. E a fase que mais me assusta em qualquer governo é a fase em que o de turno perde a vergonha, acha que tudo é possível, que não só no princípio mas também no quotidiano vale o verbo e que o verbo se substitui à realidade.

O momento de transição ficou marcado, numa escala de exemplo moral da pequena desvergonha, pela novela da Caixa Geral de Depósitos em que manifestamente o Governo foi apanhado a mentir por mais do que uma vez. O senhor Secretário de Estado do Tesouro e Finanças, que parece que também é Adjunto do Ministro das ditas, estará por estes dias a estudar aquilo que se chama um concurso de vontades resultante de uma sucessão de comunicações entre as partes e que os juristas tendem a chamar um contrato. Ao senhor Secretário de Estado estará a ser explicado que sabia que sabia... Uma disfunção cognitiva temporária? Feito o anúncio do início da desvergonha passou--se à escala industrial da coisa. E o Governo anunciou que todos os precários em funções nos vários níveis da Administração Pública passariam a funcionários públicos. Parece que, a fazer fé nos interessados, serão pelo menos cem mil. Ao transformá-los em funcionários públicos o Governo vai ao encontro da ambição de muitos portugueses. Quando o País não tiver mais do que funcionários públicos, reformados e estudantes estará cumprida a Constituição e aberto "o caminho para uma sociedade socialista".

A sério que ninguém reparou? Andou a Dr. Maria de Lurdes Rodrigues na única loa que se lhe pode dedicar a conter a FENPROF anos a fio, explicando que cada vez menos crianças não podem precisar de cada vez mais professores e chega o Governo das coisas simples e aí vai disto. Não hão de as sondagens refletir "paz social"...

O Estado de desgraça do Governo chegará com a apresentação da conta. Mas como explicava, ex--cathedra televisiva, um socialista entretanto caído em desgraça, as contas do Estado não são para ser pagas.

E quando a monumental dívida que vamos acumulando nos cair em cima, lá vamos todos no dilúvio outra vez mas com a certeza que foi injusto, que nos foi imposto um jugo que não podíamos ter evitado.

A deputada do Bloco queria que o PS perdesse a vergonha. O PS bateu-lhe palmas. E foi à luta.

Quando a desvergonha se transforma em programa de Governo todos sofremos, os sem vergonha, os desavergonhados, os envergonhados e os que, como eu, têm vergonha em nome da desvergonha alheia.

Escreve Rentes de Carvalho que o toma a perplexidade "ao constatar o modo dócil como o animal humano recebe o prato de lentilhas, fecha os olhos e a aceita a sua condição". Por estes dias em que venda de sucata a uns mais pobres e uma refinaria a exportar chegam para nos iludir a mim só isso me ocorre. Como nos alegramos desde que haja quem, como o Dr. Costa, possa decretar a nossa tranquilidade.

Que eles não tenham vergonha não é novo, que nós não tenhamos memória, também não. Acabará como de costume. Quando não nos pudermos esconder no biombo da ilusão.