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Pedro Magalhães

Opinião

Pedro Magalhães

Diretor Científico da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Ouriços, raposas e previsões

A quem quiser igualar o desempenho médio de alguns dos maiores especialistas mundiais em matérias políticas e económicas basta-lhe dar palpites à sorte

Em 1988, Philip Tetlock, um jovem psicólogo canadiano de 34 anos, lembrou-se de contactar mais de 200 pessoas em todo o mundo, todas elas especialistas de grande reputação em temas políticos e económicos. Ao longo de 15 anos, colocou-lhes perguntas sobre esses temas, pedindo-lhes que atribuíssem probabilidades a diferentes cenários sobre o futuro próximo. Quem iria ganhar as próximas eleições nos seus países? Que evoluções antecipavam para uma série de indicadores económicos? Que conflitos militares deveríamos esperar? Em 2005, Tetlock apresentou os resultados desta singular experiência no multipremiado livro Expert Political Judgment. A principal conclusão? Em média, a capacidade destes especialistas para preverem o futuro próximo nas matérias que dominam é semelhante à de um chimpanzé a atirar dardos a um alvo. A quem quiser igualar o desempenho médio de alguns dos maiores especialistas mundiais em matérias políticas e económicas basta-lhe dar palpites à sorte.

O estudo identificou também alguns que tinham um desempenho sistematicamente diferente do dos restantes. Eram os que tinham “Grandes Ideias”. Uns eram socialistas, outros fundamentalistas do mercado livre. Uns catastrofistas, outros otimistas ambientais. “Pombas” ou “falcões” nos temas de defesa e segurança. Chamados a justificar as suas previsões, elencavam longas listas de argumentos. Eram os que mais vezes descreviam determinados desfechos como “impossíveis” ou “garantidos”. Confrontados com os casos em que as suas previsões não se tinham realizado, tendiam a responder que tudo não passava de “uma questão de tempo”. Eram também os mais famosos e bem sucedidos nos meios de comunicação social. São os “ouriços” a que aludia Isaiah Berlin num famoso ensaio: os que “relacionam tudo com uma única visão central, um sistema, mais ou menos coerente e articulado, na base do qual compreendem, pensam e sentem”. E aquilo que mais os distinguiu nesta experiência foi o facto de as suas previsões terem uma precisão inferior às dos restantes. Aliás, sempre que construíam cenários sobre as matérias específicas das quais eram supostamente especialistas, a sua precisão tendia a diminuir ainda mais.

Superprevisões, um livro de Philip Tetlock e Dan Gardner editado agora em Portugal pela Gradiva com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, conta o que se passou neste e num segundo projeto elaborado por Tetlock e pela sua colega e companheira Barbara Mellers para o governo americano, o Good Judgment Project. Descreve especialmente os participantes nesta experiência que produziram as mais prescientes previsões, pessoas como Bill Flack, ex-funcionário do Departamento de Agricultura, ou Joshua Frankel, um artista. Alguma vez ouviu falar neles? É provável que não. Mas eles e outros anónimos inscreveram-se nas equipas do projeto de Tetlock e Mellers e fizeram sistematicamente, ao longo dos anos, previsões muito mais exatas do que as contidas em inúmeros relatórios oficiais ou nos artigos de opinião no New York Times e no Wall Street Journal. Na base de vários testes, estas pessoas são, é certo, mais inteligentes que a média da população em geral, mas estão longe de serem génios. Têm uma especial propensão para usarem expressões como “por outro lado” e “todavia” nas anotações que fazem às suas previsões. São consumidores vorazes de notícias, fazendo um esforço especial para estarem expostos a informação diversa e contraditória. São ecléticos, autocríticos, politicamente moderados, amantes do detalhe e muito céticos em relação ao uso de analogias históricas para explicar o presente ou prever o futuro. São as “raposas”, por oposição aos “ouriços” de que falava Berlin.

À primeira vista, Superprevisões pode quase parecer um livro de “autoajuda”: como devemos fazer para prever o futuro? Mas é muito mais do que isso. Por um lado, é um livro de popularização – no melhor sentido – de uma das agendas de investigação mais fascinantes da psicologia atual. Por outro lado, é difícil não olhar para ele como uma denúncia – calma e bem humorada – do espaço comunicacional em países como os Estados Unidos ou, por exemplo, Portugal: um espaço onde pululam “especialistas” e “profetas” que nos comunicam convictamente todo o tipo de certezas, sendo depois recompensados mais pelo seu “valor de entretenimento” do que pela precisão das suas afirmações. Um espaço onde, para utilizar outra analogia zoológica, nos dão sistematicamente gato por lebre. Afinal, Artur Baptista da Silva não aconteceu por acaso.

Philip Tetlock e Barbara Mellers estarão em Lisboa para uma conferência no próximo dia 23, pelas 14.30, na Sala de Atos da Reitoria da Universidade de Lisboa.