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José Eduardo Martins

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José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

Lisboa, muito para desejar

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Quando o Governo faz dos senhorios mecenas à força não se pode levar a mal que haja quem já só se dedique a fazer concorrência aos hotéis e seja, assim, praticamente impossível morar no centro da cidade

A necessidade e o gosto fazem com que ultimamente me entretenha a fazer perguntas sobre Lisboa. Sobre o que se pensa desta cidade e do que se cá passa, sobre o que irrita, o que complica a vida, o que devia ser diferente.

Curiosamente todos os que suspeitam que procuro “teoria geral” e se sentem, com ou sem razão, mais preparados só lhes ocorrem os problemas que acham que a cidade ainda não pode resolver. Melhor explicado, imaginam que Lisboa é toda a área metropolitana. E concluem fatalidades. A maior parte dos serviços públicos são geridos pelo Estado, a zona ribeirinha é do Porto de Lisboa… Tudo muito difícil sem a regionalização, explicam-me. Ou nem isso.

Os que preparam menos a pose, ocorre-lhes mais cidade e problemas e possibilidades bem mais perto dos olhos. Reparam que, de repente, pagam uma brutalidade de taxas – um aumento para o dobro em menos de um ano, sabem que já era um inferno andar de um lado para o outro antes da catástrofe das obras nos passeios, que a recolha de lixo lembra tempos que julgávamos ultrapassados e que convém rezar para que não chova.

Mas todos admitem que não se vê em Lisboa, um objectivo, um desígnio, uma ambição.

E no entanto temos a capital à beira-mar com mais potencial deste lado do mundo. Como explicava Orlando Ribeiro, o mar é o mais poderoso fator de relações remotas. E Lisboa é a capital mais esperançosa deste lado do atlântico globalizado.

É também o espelho da mudança nos últimos 50 anos. A urbanização – que é sempre condição do desenvolvimento duradouro de todas as sociedades – concentrou quase um terço da população neste círculo à volta do Tejo. Lisboa tinha 800 mil almas em 1960 e Sintra, por exemplo, nem 80 mil. Hoje Lisboa perdeu um terço e Sintra multiplicou por seis. São quase equivalentes.

Os que chegaram vieram da província, de África, mas também são os que na “requalificação” perderam o lugar em Lisboa. Tiveram de procurar solução mais barata na periferia.

O resultado é uma cidade bem menos coesa e inclusiva. Ilhas cada vez menos ligadas e a modernidade do centro a um custo que a reserva a imigrantes, sobretudo agora que o arrendamento desaparece. Quando o Governo, para se furtar a obrigações de lei e lógica, faz dos senhorios mecenas à força não se pode levar a mal que haja quem já só se dedique a fazer concorrência aos hotéis e seja, assim, praticamente impossível morar no centro da cidade.

E daí vem muito do inferno da mobilidade ou dito de outra maneira desta desgraça de já tomar por inevitável que com duas deslocações perdemos meio-dia no trânsito ou no transporte público. A rede social muito maior da área metropolitana contribui para fazer de Lisboa uma cidade de emprego que torna a vida mais e mais difícil para quem tem de circular durante o dia.

Infelizmente, a municipalização da gestão do Metro e da Carris são um desafio que a Câmara tem mostrado saber assumir mais ou menos com a competência com que tem resolvido o estacionamento em segunda linha…

Ainda há muito para fazer diferente com impacto na região a partir do centro, da autoridade da liderança. Mesmo que haja administração de porto a mais numa cidade cujo principal activo físico é a linha de água, isso não impede Lisboa de escolher se quer ter um porto de contentores ou náutica de recreio. Num país onde a solução óbvia da carga – Setúbal – está tão perto, diria que a resposta é fácil, mas não a vejo assim na ponta da língua. Caso contrário, quem decidiria contra a cidade?

E se é verdade que não há turistas a mais isso não nos impede de constatar que há gestão a menos. Das atrações turísticas, da higiene, dos horários e, em geral, da regulação existente. Sem debate do que falta para proteger e regular a acessibilidade ao património. Os viajantes, como dizia Herculano, não vêm cá para “correr nas nossas cómodas diligências” e não há razão para a rentabilidade ser em média metade da das cidades comparáveis.

Lisboa precisa de um novo projeto de vida. O atabalhoamento desta gestão sem norte suscita a um ano das eleições que se discuta a cidade. Ainda bem. Podemos ter uma cidade habitada e visitável, fluida e verde, que faça da sua modernidade o motor de desenvolvimento do País inteiro. Aparentemente, não falta dinheiro, só cabeça.