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O que nos traz a Le Puy

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Gonçalo Cadilhe

A aparição da Virgem permitira a construção de uma imponente catedral que em 2015 foi votada num concurso da televisão France 2 como um dos monumentos mais amados dos franceses

As auto-estradas passam longe de Le-Puy-en-Velay. Ainda bem. É a sorte de todos nós os que amamos cidades pequenas, antigas, intactas e bonitas. Repartimos menos. Desfrutamos mais.

Chego de carro, várias vezes, e de várias direcções. Cada uma delas é uma forma diferente de gostar de chegar a Le Puy. Espremo todas as direcções, todas as chegadas. Aproveito tudo a que tenho direito – não apenas no aluguer do carro, que é de quilometragem ilimitada; mas nesse leasing de longa duração que é a vida. O carro, terei que o devolver à agência a que pertence daqui a uns dias; a vida, terá que regressar ao pó e à terra de onde provem sabe-se lá quando.

Esgotadas por fim as chegadas panorâmicas, decido entrar no centro histórico e estacionar onde calhar. Calha ao lado de um café de bairro com um aspecto encantador. Entro. Na realidade, a sua decoração não tem nada de extraordinário, apenas o charme do tempo e do uso. E é isso mesmo que me atrai nele. Compreendo porquê: recorda-me os cafés que em Portugal foram extintos nos anos 90 pelo dinheiro fácil das remodelações, pelo mau-gosto dos proprietários, pelo abandono dos clientes que fugiram para as praças de alimentação dos centros comerciais, pelas injunções mesquinhas da ASAE e, de uma forma geral, pela recusa de uma nação em preservar tudo o que lhe recordava o passado triste e falhado do salazarismo.

Que pena que a bica em França seja deplorável. Paciência, peço uma. Afinal, esta é excelente. Como a nossa. Depois, reparo melhor na bica. E no calendário da selecção portuguesa. E no galo de Barcelos. E no aspecto rude e alegre do dono. Ok já percebi: é um café à portuguesa, com certeza.

Na Idade Média quatro grandes estradas cruzavam a França em direcção a Santiago de Compostela. Da Inglaterra os peregrinos seguiam a via Turonensis que passava por Tours; da Alemanha escolhiam a via Lemovicensis cujo nome provinha da região de Limousins; os cristãos do Mediterrâneo tomavam a via Tolosensis; que assim se designava graças à etapa de Toulouse; os europeus do leste dirigiam-se para a via Podiensis que tinha o seu início, precisamente, em Le Puy. Todas se reuniam em Puente la Reyna.

Porquê Le Puy? Hoje, esta cidadezinha arredada das grandes vias de comunicação parece espreguiçar-se ao sol sem ambição de coisa nenhuma. Mas algo lhe deve ter acontecido nos séculos que a tornou uma das grandes etapas religiosas da Idade Média. Porquê Le Puy?

Uma aparição da Virgem por cima de um templo romano no século V dera início à reputação sagrada do lugar. Mas o tempo romano era também sagrado, embora segundo outros critérios, claro. E, por sua vez, o templo erguia-se no lugar de um dólmen pagão, também ele sagrado. Tudo isto em cima de uma colina que, ela própria, tem algo de reverencial e etérea. Porquê Le Puy? Porque existe uma energia, uma vibração, uma beleza, uma síntese.

A aparição da Virgem permitira a construção de uma imponente catedral que em 2015 foi votada num concurso da televisão France 2 como um dos monumentos mais amados dos franceses. No seu interior a misteriosa estátua da Virgem Negra, de origem etiópica ou oriental e que provavelmente fora antes uma imagem da deusa Ísis, atraía peregrinos de todo o país. Hoje, no entanto, essa estátua já não existe: com a Revolução Francesa, foi queimada em praça pública e nada resta dela. A Revolução Francesa foi, também ela, uma espécie de uma nova religião que ficou conhecida como “estado laico”. Le Puy-en-Velay, que os amigos chamam, carinhosamente, com o diminutivo “Le Puy”, é como uma lasanha onde camadas sucessivas de espiritualidade do ser humano se vão sobrepondo de tantos em tantos séculos.