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Mão Verde

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Lengalengas, cantilenas, rimas e jogos de palavras, sempre me divertiram mais do que puzzles ou caixas de legos

Ainda sei de cor a lengalenga do macaco, repetida pela voz da minha mãe na hora da história antes de dormir. Também sei que dois braços servem p’ra dar um abraço, desde que Sérgio Godinho o cantou com os Amigos de Gaspar. E sei, por ouvir o meu pai contar muitas vezes, que a minha primeira rima foi à porta do infantário.

Lengalengas, cantilenas, rimas e jogos de palavras, sempre me divertiram mais do que puzzles ou caixas de legos. E até hoje conservo o mesmo entusiasmo pueril, ao encaixar a palavra certa no sítio certo.

Por isso mesmo, não hesitei quando em 2015 recebi o convite do Teatro Municipal São Luiz para fazer uma temporada de concertos para crianças. Não tinha repertório, mas como sempre quis fazer um livro de lengalengas, ali estava a oportunidade e a desculpa para escrevê-las, ainda por cima com música! Convidei o Pedro Geraldes (guitarrista da banda Linda Martini) para compor uma dúzia de canções e dediquei-me às letras.

Foi um processo intenso, daqueles de passar dias fechada em casa de pijama, a trabalhar descabelada, sem ter noção das horas ou das refeições. Mas foi um processo muito divertido, que me obrigou a simplificar e a escrever de uma forma mais livre e intuitiva.

Falei sobre agricultura, alimentação, ervas aromáticas, ecologia e tudo o que tem a ver com a natureza. Temas que me interessam há muito e de muita importância no meu dia a dia, mas que ainda não tinham tido o devido protagonismo no meu trabalho “normal”, que é como quem diz “para adultos”.
O concerto ganhou o nome de Mão Verde, inspirado na expressão francesa “avoir la main verte”, que significa ter jeito para as plantas e talento para a jardinagem. E para celebrar esse cuidado, quisemos partilhá-lo com aqueles que, intuitivamente, sabem quão precioso é o manto verde que cobre o planeta e como é excitante ter as mãos sujas de terra.

Correu tudo bem! Sobrevivemos ao palco e à espontaneidade da plateia, de dedo no ar para perguntas e comentários, sempre surpreendentes. E gostámos tanto, que decidimos gravar um disco.

Com o disco feito, achamos que seria importante fechar o ciclo, fazendo do Mão Verde um livro de lengalengas. E se o disco é um trabalho a dois (com a minha voz e a música do Pedro), o livro é um trabalho coletivo, belissimamente ilustrado por Maria Herreros, com design e paginação de Dário Cannatà e cheio de notas informativas, escritas com a ajuda do Luís Alves (um grande amigo agricultor), para explicar e aprofundar os temas das canções e dar uma dimensão didática ao trabalho artístico.

Ficou precioso!

Um concerto que se transforma em disco, que se transforma em livro. Um disco e um livro que, de tão indissociáveis, passam a disco-livro ou, melhor ainda, a lisco-divro. E eu, orgulhosa como estou, a dizer a toda a gente que o Mão Verde, sendo para crianças, não se quer infantil!

Afinal, falamos de coisas sérias. Do aquecimento global, à teoria da evolução das espécies, passando pela contagem de bigos (um bigo, dois bigos, etc.). Sem esquecer as grandes questões do nosso tempo, como por exemplo, porque é que só o cor-de-rosa se chama cor de rosa, se há rosas vermelhas, amarelas e até cor de laranja?!

É que mesmo tendo passado da idade dos porquês, nunca se acabam as perguntas e nunca nos chegam as respostas. Sobretudo num tempo desafiante, cheio de grandes dúvidas e em que cor-de-rosa se escreve com hífenes e cor de laranja não.

O Mão Verde é o nosso contributo. Para os mais novos, mas também para todos os adultos que se sentem as principais vítimas da música infantil. Para os mais verdes, mas também para todos os maduros sem mão verde que, mesmo quando se esforçam, até os catos deixam morrer.