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Olhar para nós através do buraco da fechadura

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Acredito em Deus no sentido em que tenho de acreditar num Criador, a exemplo dos grandes físicos e matemáticos do século vinte, mas não posso aceitar, e regresso ao medo da morte e à nossa incapacidade de encará-la, que as religiões explorem esse medo de forma tenebrosa. Tal como são, aliás, tão primárias, tão ditatoriais, construídas sobre dogmas sem sentido, estão, inevitavelmente, condenadas a acabarem

Susa Monteiro

Ninguém está preparado para morrer, nem sequer um filósofo budista de cem anos, com sífilis, cólica renal, a unha do dedo grande do pé encravada e dor de dentes. Quando, no internato de Psiquiatria, comecei a trabalhar com pessoas que haviam falhado tentativas de suicídio, o que mais me surpreendeu foi a sua sensação de imortalidade. O suicídio é sempre o assassínio de um outro. Quando o meu bisavô deu um tiro na cabeça não era a ele que estava a matar: era o cancro do pulmão de que sofria. Se eu enfiar uma bala no doente do cancro que me habita, a pessoa saudável que sou, debaixo desta, torna a aparecer e continua viva. Ou, se tomar remédio das baratas, é a depressão que eu destruo. Ou, se acabar com a criatura abandonada pelo cônjuge, a criatura não abandonada, a que esta se sobrepôs, regressará. Explicado assim, de uma maneira muito esquemática, julgo que se torna relativamente claro. É óbvio que as coisas se passam de uma forma mais complexa e florida porém a base é esta. Porquê? Porque ninguém está preparado para morrer de facto. Os doentes com males incuráveis, orgânicos, acreditam sempre na cura, mesmo que afirmem o contrário. As religiões, tal como são praticadas, nascem do medo da morte, já o disseram tantos, de nos ser insuportável encarar o nosso fim. Isto nada tem a ver com a existência ou não de Deus, que é uma questão de outra ordem e muito mais complexa. Einstein costumava insinuar que Deus não era um vertebrado gasoso, ou seja aquilo que, em geral, as religiões nos querem fazer acreditar. Um provérbio húngaro, bastante antigo, afirma que na cova do lobo não há ateus. As religiões vivem da promessa da vida eterna, da garantia de milagres, da venda de bem aventuranças. Porquê? Porque sem isso a existência se tornaria insuportável, com o espectro da finitude à nossa espera. Atente-se, por exemplo, nos números de Lourdes há vinte ou trinta anos: curas aceites pela Igreja Católica: setenta e quatro; curas aceites pelos médicos: doze; número de acidentes a caminho do santuário: dois mil cento e quinze, e isto dá que pensar. Fátima, com a Virgem a pedir aos pastorinhos que rezem pela conversão da Rússia, é uma coisa completamente idiota excepto para Salazar e para a Igreja, em relação à qual constitui um soberbo negócio à custa do pavor e do sofrimento das pessoas

(e é isso que me indigna)

sem que uma única voz crítica, na hierarquia do Catolicismo, se oiça contra isto, o que não me espanta muito. Porque carga de água até hoje, por exemplo, a Igreja do nosso País nunca pediu desculpa, aos portugueses, pela sua activa colaboração com a ditadura, mantendo-se num silêncio que se me afigura criminoso? Porque carga de água só trezentos e muitos anos depois, com João Paulo II, foi retirada a condenação a Galileu, o canalha que afirmou ser a Terra a girar em torno do Sol? Porque carga de água a subalternização das mulheres prossegue tranquilamente com aceitação quase geral? Se Cristo regressasse aceitaria isto? Mas a Igreja, infelizmente, não foi fundada por ele, começou mais ou menos a ser estruturada por São Paulo, e a Fé não pode ser uma Graça concedida, tem que ser uma Graça conquistada. Como seremos capazes de odiar os fundamentalismos se somos horrivelmente fundamentalistas, agarrados a crenças ridículas, como a crença no Inferno, no Purgatório, no Céu, por exemplo, compreensíveis há mil e tal anos e, agora, caricatas? Acredito em Deus no sentido em que tenho de acreditar num Criador, a exemplo dos grandes físicos e matemáticos do século vinte, mas não posso aceitar, e regresso ao medo da morte e à nossa incapacidade de encará-la, que as religiões explorem esse medo de forma tenebrosa. Tal como são, aliás, tão primárias, tão ditatoriais, construídas sobre dogmas sem sentido, estão, inevitavelmente, condenadas a acabarem, é apenas uma questão de tempo que, aqui se medirá, por força, em séculos. Por baixo de tudo isto está, obviamente, a não aceitação da morte e as variadíssimas estratégias que tentamos construir para conjurá-la. Camões, por exemplo, falava daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Vão-se libertando da lei da morte uma ova. As obras podem ficar: eles não. De mim, por exemplo, talvez durem papéis. Eu desapareço. E, mesmo assim, obras e papéis desaparecerão também. Aristóteles falava de dez grandes dramaturgos gregos. Não resta nada de nenhum deles. Sobram três, que não constavam da sua lista: Sófocles, Ésquilo e Eurípides. De Sófocles vários dramas, dos outros um ou dois ou nem tanto: fragmentos soltos. E, inevitavelmente, esses dramas e esses fragmentos sumir-se-ão também. O problema é que não suportamos esta evidência. Se existe um Criador, e eu acredito que exista, não conhecemos as suas leis nem os seus desígnios e não fomos, certamente, feitos à sua imagem e semelhança. E, chegados aqui, entramos num vazio angustiante porque ficamos privados de esperança, e a privação da esperança é intolerável. A mãe de Blondin afirmava: não tenho Fé, mas tenho muita Esperança. Eu tenho Fé e tenho Esperança. Quando me atrevi, já perto do seu fim, a perguntar ao meu pai se acreditava em Deus, ele, que trabalhava com cérebros, respondeu apenas, após um longo silêncio

– O nada não existe na Biologia

o que é verdade. O nada não existe na Biologia. E isso chega para me impedir o suicídio e de olhar para mim, como tu escreveste, Alexandre, através do buraco da fechadura.