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“Quem perde a vergonha, não tem mais que perder”*

Opinião

Adolfo Mesquita Nunes

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Mesmo que a intenção seja só ir aos ricos, acaba sempre por ir-se à classe média, porque não há riqueza que aguente políticas do género “poupanças dos ricos têm de ser distribuídas”

Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”, disse Mariana Mortágua ao PS. De acordo com as notícias, a sala socialista rompeu num aplauso, como quem perdeu a vergonha.
Ora, quem acumula dinheiro é quem poupa. É esse o significado de poupança, parcela que não é gasta quando recebida e é guardada para ser usada no futuro: para comprar casa, acautelar a reforma, estudar, deixar aos filhos, o que cada um entender.

Quem acumula é quem, satisfeitas as necessidades, pagos os impostos, cumpridas as obrigações, consegue pôr algum de lado, privando-se ou não de muito, trabalhando ou não a dobrar.

Muitos, infelizmente, não têm que chegue para poupar. E aquilo que a Mariana nos diz é que não é justo que haja quem consiga poupar quando muitos não conseguem. E essa injustiça deve ser combatida indo tributar aqueles que poupam.

O problema é a mensagem que passa: se tens o que poupar, se tens o que investir, é porque tens demais. Não seria inédito ouvir o Bloco dizer que a riqueza acumulada é um roubo.

Ora, este género de filosofia nunca conseguiu combater a pobreza; pelo contrário, multiplica-a. A riqueza numa sociedade é tanto maior quanto maiores forem os incentivos ao risco, ao investimento, ao negócio, à iniciativa – só se cria riqueza quando ela não é vista com preconceito, algo injusto. E aquilo que a Mariana propõe é exatamente isso, uma espécie de ameaça a quem quer mais, ambiciona mais.

É para isso que a Mariana diz ser necessário perder a vergonha.

Como pode haver investimento se a poupança não chega a formar-se, levada pelo Estado? Como pode subir-se na vida se essa subida é vista como um ataque à igualdade? Tudo isso acaba numa sociedade pobre, adormecida, pronta a entregar-se aos discursos da extrema-esquerda, onde não cabe a vontade nem a ambição. Talvez seja esse o objetivo.

Bem sei que a ideia é para aplicar só aos ricos, conceito que fica sempre por concretizar. Postas assim as coisas, os ricos que paguem mais, como discordar? Olhamos para cima e há sempre alguém a viver melhor do que nós e que tem de sobra para pagar.

Mas se numa sociedade cheia de milionários a coisa talvez fizesse algum sentido (não faz, isso seria outro artigo), numa sociedade como a nossa essas ideias acabam sempre por afetar a classe média. Porquê?

O 1% mais rico são os agregados que declaram mais de 8000 euros brutos/mês e que pagam 18% do IRS. Os 20% mais ricos são os agregados que declaram mais de 2700 euros brutos/mês e que pagam quase 70% do IRS. Se tem dinheiro para comprar esta revista, talvez seja um dos 20% mais ricos.
Não há riqueza suficiente em Portugal, esse é um dos nossos problemas. Se só confiscássemos os ricos portugueses, ficávamos sem riqueza e nem isso chegava. E não havendo riqueza, a classe média é chamada a contribuir para os esforços. É assim há muitos anos. Mesmo que a intenção seja só ir aos ricos, acaba sempre por ir-se à classe média, porque não há riqueza que aguente políticas do género “poupanças dos ricos têm de ser distribuídas” ou agendas com despesas superiores às receitas.
Três exemplos: o aumento do imposto sobre combustíveis, a proposta de acesso do fisco a contas superiores a 50 000 euros e a anunciada tributação de património imobiliário superior a 500 000 euros (por ora…).

Nesses casos ouvimos que as medidas não afetam a classe média: quem menos tem, não tem carro nem contas nem património desses valores. Como é evidente, os mais pobres não têm. E a classe média?

Só quem não conhece o País acha que a classe média não tem carro. Nem todo o País tem transportes de casa para o trabalho. Só quem não conhece as famílias portuguesas acha que um casal que com esforço poupa 2500 euros/ano é rico ao fim de 20 anos. Só quem não conhece a realidade desconhece que famílias de classe média, comprando e herdando, se veem com património imobiliário daquele valor, muitas vezes sem o conseguirem manter.

É por isso que a classe média está a contribuir para pagar a agenda das esquerdas, das 35h às reversões. Os custos dessa agenda superam a riqueza existente. Como é por isso que este governo gasta menos em ação social do que o anterior, faz menos investimento público do que o anterior, faz mais cativações nos serviços do que o anterior. Para pagar essa agenda corta-se no Estado social.
Sim, a classe média está a pagar a agenda das esquerdas. Sim, estamos em 2016 a discutir ideias que nunca resultaram em parte alguma do Mundo. Mas o mais incrível de tudo isto não é que um partido trotskista diga coisas destas. É que o diga arrancando aplausos aos socialistas, é que o diga condicionando o nosso governo, é que o diga porque António Costa escolheu depender do Bloco para governar.

* provérbio popular