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Ai a falta que a direita lhes faz

Opinião

João Semedo

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Não, não é do “velho” Bloco nem do “velho” PC que têm saudades e muito menos da sua oposição. O que os amargura e contraria são as saudades que sentem da velha política

Andam amargurados os comentadores, os que opinam sobre a política e a economia. Falo de comentadores e não de analistas, embora alguns se julguem como tal. Não falo de jornalistas, embora alguns acumulem ou confundam comentário e jornalismo. Falo dos que se multiplicam – e desmultiplicam – nas rádios, nas televisões, nos diários, nos semanários, nas redes sociais, sempre os mesmos, opinando todos os dias ou todas as semanas, não falham um telejornal, um debate, uma mesa-redonda, uma coluna ou página de opinião, não há acontecimento ou situação que lhes escape, em Portugal ou lá fora. Salvo raras exceções, todos inspiram estas linhas.

E qual é a amargura, o que os entristece e inquieta, o que lhes tira o sono? Coisa simples: queixam-se de saudades do BE e do PC. Sejamos rigorosos, usemos as suas próprias palavras: saudades do “velho” Bloco e do “velho“ PC, saudades de uma oposição a sério, sem papas na língua, dizem. Sim, leram bem, saudades daqueles que até há muito pouco tempo eram por esses mesmos comentadores considerados e tratados como gente irresponsável, extremista, radical, sem sentido de Estado, antipatriotas, agentes da instabilidade política, inimigos das instituições, agitadores ultrarrevolucionários e antieuropeus, forças do quanto pior melhor, partidos sem vocação de governo, enfim, gente da qual nada de bom havia a esperar mas de quem, hoje, dizem morrer de saudades.

Deambulam entre o caricato e o hipócrita. Não, não é do “velho” Bloco nem do “velho” PC que têm saudades e muito menos da sua oposição. O que os amargura e contraria são as saudades que sentem da velha política. Sim, estão saudosos, saudosos dos tempos em que Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, Paulo Portas e Assunção Cristas condenavam os portugueses e o País ao empobrecimento, em nome de uma elite endinheirada que não parou de enriquecer e cujos negócios lhes garantem agora bons empregos. Saudosos desse tempo, suspiram pelo regresso dessa elite, cada vez mais contrariados com o rumo da política portuguesa.

Contrariados com o aumento do salário mínimo nacional – os trabalhadores não merecem, não produzem para tanto salário.

Contrariados com a tarifa social de eletricidade, a nova renda apoiada ou o congelamento das rendas – quem não tem dinheiro não tem vícios.

Contrariados com a reposição dos salários e das 35 horas de trabalho – é um prémio à preguiça dos funcionários públicos.

Contrariados com o fim dos exames do 4º e 6º anos – é um incentivo à balda no ensino.

Contrariados com a dispensa de apresentação quinzenal dos desempregados – se querem emprego que se esforcem.

Contrariados com o aumento das pensões e do CSI – para estarem nos jardins a gastar no dominó e na batota não lhes falta o dinheiro.

Contrariados porque o Estado não desperdiça milhões com os colégios privados – já não se respeita a liberdade de escolha dos pais.

Contrariados porque as crianças do 1º ano vão receber gratuitamente os seus manuais escolares – ao que é grátis ninguém dá valor.

Contrariados com a recapitalização pública da CGD – com tanto banco privado a precisar de dinheiro e o Estado vai gastar dinheiro num banco público.

Contrariados com o fim das privatizações – não faltam angolanos e chineses prontos a ajudar o País e nós a desperdiçarmos essa ajuda.

BE e PC não são oposição a esta política e nem se perceberia que o fossem. Os comentadores sabem muito bem disso. Sem ilusões a esse respeito, apostam na trica, na intriga e no conflito, na esperança de assim conseguirem deslaçar a maioria.

A esquerda não confunde as dificuldades de um banco público com as falências fraudulentas de bancos privados. Nem compara o lento crescimento da economia, em plena crise mundial, com o colapso provocado pelas políticas da troika e do governo PSD/CDS. E sabe que é diferente discutir as exigências de Bruxelas ou cumpri-las cegamente como um bom aluno.

Falemos sem máscaras, sem disfarces, sem retórica. Estão desiludidos porque o PS desta vez entendeu-se com a esquerda. Estão inconsoláveis porque BE e PC não deixam a direita regressar ao governo. Estão desanimados porque a oposição da direita não pega, a oposição são eles e mais nada. Estão danados porque a geringonça funciona.

João Semedo

João Semedo

Dirigente do Bloco de Esquerda