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Crónica que, para variar, me divertiu escrever

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Peço-te que comas também o olho, os dentinhos, a cauda, a coluna, não deixes ficar nada meu no prato, nada de nada meu no prato, nada do que me rodeia no prato, batata, cenoura, feijão verde, tomate, a batata do emprego, a cenoura das prestações do carro, o feijão verde da conta no banco que diminui, diminui

Susa Monteiro

Ergue-me da travessa com a colher e o garfo, poisa-me no teu prato, afasta a pele, tira-me devagarinho todas as espinhas

(Há dias em que são tantas, não é?)

poisa-as, uma a uma, no rebordo, depois empurra-as para um prato pequeno, pede ao empregado que o leve, deita-me em cima umas gotas do galheteiro e, por favor, começa a comer-me, de mistura com um pedacito de batata, um pedacito de cenoura, um pedacito de feijão verde, mastiga-me sem pressa, engole-me sem me empurrares com água, sente-me descer dentro de ti, ir aumentando no teu estômago, começar a fazer parte do teu sangue, veres apenas de mim a cabeça encostada a uma rodela de tomate, um olho branco, cego, dentinhos inúteis na boca entreaberta e a cauda submersa num lagozinho de vinagre, unida à cabeça por uma coluna vertebral translúcida, peço-te que comas também o olho, os dentinhos, a cauda, a coluna, não deixes ficar nada meu no prato, nada de nada meu no prato, nada do que me rodeia no prato, batata, cenoura, feijão verde, tomate, a batata do emprego, a cenoura das prestações do carro, o feijão verde da conta no banco que diminui, diminui, o tomate daquilo que podia ter sido e não consegui ser, todas as minhas insónias, toda esta dor nas costas, não bem dor, um incómodo que previne

– Daqui a dias torno-me dor a sério

não mencionando um dente a moer aqui atrás, não mencionado qualquer coisa no pé, não sei o quê e por favor não comentes

– Tens sempre qualquer coisa, tu

não mencionando a miúda que não há maneira de ter juízo com os rapazes, não mencionando o cabelo a rarear-me aqui em cima, peço-te que não deixes ficar nada meu, o que existe de mim digno de ficar, aliás, talvez o bigode atrás do qual me escondo, convencido que lá caibo por inteiro, convencido que apenas sobejam os sapatos, um bigode com camurça por baixo, toc toc da sala à marquise e da marquise à sala, toc toc, toc toc, o dr Aires, no emprego

– Muito anda você, Montalvã

e eu

– É verdade dr Aires, a minha mãe deve ter-me tido enquanto passeava

e se calhar foi, sei lá, enquanto passeava ou corria atrás do meu pai que mesmo assim acabou por fugir-lhe para ir viver com a irmã dela, acontece, nunca imaginei que fosses capaz de me fazer isso, Manuela, os meus avós nunca mais falaram ao meu pai nem eu tornei a pôr-lhe a vista em cima, quer dizer pus muito mais tarde, quando já estava doente com o cancro por todo o lado, até na cabeça, tanto que me tratou por

– Fernando

em lugar de

– João

porque não sou Fernando, sou João, João Augusto como meu padrinho, que jamais vi fardado de major a não ser nos retratos, com uma medalha ao peito, uma única, se calhar não recebeu mais nenhuma e o meu pai, taralhoco

– Obrigado por teres vindo, Fernando

já a minha tia havia falecido um ano antes, a minha mãe viu a participação no jornal, apontou-me a cruz na página

– Lá acabou por rebentar, aquela vaca

acrescentando, sempre a bater com o dedo na cruz do jornal

– Se o teu pai pensa que lhe torno a passar a roupa a ferro está muito enganado

a seguir, mais baixinho

– Sempre disse que ninguém engomava colarinhos como eu

e era verdade, ninguém engomava colarinhos como ela e não merece a pena estender-me acerca da importância dos colarinhos engomados, salta à vista, quanto mais bem engomados por senhoras com queda para isso, quanto mais muito bem engomados, que são raríssimos de encontrar, de ferro em punho ninguém batia a minha mãe, ainda com ganas de bater com ele

(ele, ferro)

no cocoruto do meu pai, provocando-lhe uma concussão cerebral, há anos que tinha ímpetos de usar a palavra concussão até que agora o fiz, ainda bem que não levo essa mágoa para o túmulo, concussão, concussão, concussão, comecei esta conversa por te pedir que me poisasses no teu prato e acabo-a com concussão, também de alguma maneira tinha que acabar, não é, quem deve estar a contente é o António que está quase a calar-me, espero que satisfeito por se ver livre desta crónica ele que acha que uma

(que acha que uma, se bem o conheço vai corrigir esta linha)

que acha que uma

(olha, não corrigiu)

que acha que uma crónica por semana é um frete e, não tarda muito, é caramelo para mandar a VISÃO à fava, tira-lhe tempo do livro, duas por mês vá que não vá agora quatro é um frete e além disso com o manuscrito à espera a gritar-lhe

– Vens ou não vens?

aborrecido, ameaçando

– Olha que eu seco

e ele com medo que seque, sempre o aterrou a possibilidade de secar antes de escrever os três livros que lhe faltam e, depois de os escrever, já estou a vê-lo num banco de jardim, com uma pantufa num pé e uma bota no outro, a tirar da gabardine, em agosto, a tirar da gabardine, em agosto, e enrolado num cachecol, em agosto, a tirar da gabardine umas côdeas para os pombos enquanto faz sorrisinhos idiotas para um casal de senhoras de bengala na esperança de principiar a construir um harém, lembrando-se de um colega dele, o Naipaul, que conheceu há muitos anos em Londres com as suas duas inglesas e tornou a encontrar em Itália durante as cerimónias de um prémio que o António foi lá receber e de que o tal Naipaul era presidente do júri e o Naipaul, apesar de então estar já de cadeira de rodas, continuava com duas inglesas, só que uma delas tinha morrido e ele substituíra a defunta por outra que o Naipaul não perdoa. Ele e um segundo membro do júri, um escritor de que ele gosta chamado Claudio Magris, ficaram ambos de boca aberta. Julgo que ainda estão.