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João Garcia

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João Garcia

Jornalista e ex-diretor da VISÃO

A temperatura não vai baixar

A rentrée não chega auspiciosa para António Costa. Os seus parceiros demarcam-se sempre que podem, mas ele lá se vai contendo, inibindo-se de responder à letra

O agosto está no fim, o Pontal já aconteceu, o primeiro-ministro já regressou de férias, a publicidade só fala do regresso às aulas, os olímpicos terminaram e a bola voltou, os fogos deverão abrandar e vão começar as conversas sobre os engarrafamentos de trânsito, as obras em Lisboa e o começo das aulas.

As referências ao crescimento económico que não se vê retomam lugar nas nossas preocupações, enquanto os autarcas se afadigam com as obras para as autárquicas do próximo ano.

Entre o início da primavera e o fim do verão que se aproxima algo mudou na política caseira. A direita parece ter-se rendido à perenidade da geringonça, a julgar pelas mais recentes declarações, e, curiosamente, passou a ser entre os parceiros que começaram a surgir declarações e dichotes mais agressivos, a prenunciar uma fragilidade na coligação.

Jerónimo de Sousa não mudou o ar sempre ríspido e pouco entusiasmado, mas apesar de tudo contido, com que se demarca da coligação. Mas esteve muito ativo no fim de semana: “Votaremos contra medidas de empobrecimento no orçamento de 2017”, “Não adianta remendar a lei para contornar a recusa do BCE” e denunciou a ilusão do Governo de que promoverá o crescimento apesar das “imposições e ameaças” da Europa.

Catarina Martins foi mais longe e, num ato que mais parece de profunda contrição, disse ao Público que “todos os dias” se “arrepende” de ter contribuído para a construção da geringonça.

A rentrée não chega auspiciosa para António Costa. Às sombras da economia internacional (Brexit, eleições nos EUA, banca alemã e italiana) somam-se os maus resultados da nacional (a nossa banca e os portugueses que teimam em não comprar). Falta o crescimento, os seus parceiros demarcam-se sempre que podem da coligação (ainda que, tudo o indica, seja só discurso para satisfazer a clientela partidária) e tornam-se os principais entraves à imagem de estabilidade que Costa tanto quer construir. Ele lá se vai contendo em declarações, imagina-se com que dificuldade, inibindo-se de responder à letra, como tanto gosta e faz quando os ataques vêm da direita. Aos da esquerda, responde com silêncio. Por enquanto, deixa-os falar…

Para este fim de semana está marcada a rentrée do BE, com o Fórum Socialismo 2016, e setembro começa com a festa do Avante!. Em dezembro há congresso do PCP. Costa vai ter muitos sapos para engolir. Ou seja: uma vez mais, os piores inimigos das coligações são os coligados. Se falta confiança, a culpa é mais dos que a pedem do que daqueles que a combatem.

Não quero discutir o grau de culpabilidade dos filhos do embaixador nas agressões ao jovem de Ponte de Sor. Mas tenho a certeza de que, no mínimo, têm uma assustadora falta de sentimentos. Quem fala, com a frieza que revelaram na SIC, sobre um jovem que espancaram e que esteve em coma, de cara desfeita a pontapé e com a vida em perigo mostra que não sabe viver em sociedade.

Acabaram os Jogos Olímpicos de 2016. É curioso como voltámos a ouvir o que já se tinha dito no final dos de 2012, 2008, 2004… Voltou o discurso da ausência de apoio aos atletas amadores; o País não pode ser só futebol; precisamos de uma política de desporto a sério; agora é preparar, desde já, os próximos.

É como nos incêndios, nas cheias e em tudo o que ciclicamente se repete e corre mal: temos de aprender com os erros e começar a trabalhar para o futuro. Promessas.

Dia 1, quando sair a próxima VISÃO, já não serei diretor. No meu lugar estará Mafalda Anjos, até agora diretora-adjunta. A Mafalda e o Rui Tavares Guedes, diretor-adjunto, são mais do que garantia de que a VISÃO vai seguir em frente, com qualidade e fulgor. Contam com uma redação que sente sua a revista e estão num grupo onde a liberdade, a responsabilidade e a qualidade são a marca. Não preciso de lhes desejar boa sorte – vão conquistá-la, porque a VISÃO é uma equipa de primeira.

E eu? Eu vou ter saudades, mas era altura de mudar. Foram 40 anos de jornalismo, 27 na Impresa. Que sorte tive em viver esta aventura.