A profunda falta de liderança política que varre o mundo, e cuja face mais visível é a crise económica e financeira, para cujo vórtice Portugal e outros países se deixaram arrastar, não nos deve fazer esquecer que o Sistema Terra continua a sofrer, com completa indiferença pelos nossos interesses e preocupações humanos, a sua acelerada mudança, que vai do clima à biosfera. Informalmente, os estudos e informações preparatórios para o 5.º relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, comprovam que as notícias e tendências de fundo não são boas. Antes pelo contrário.
Para as políticas públicas voltadas para uma conceção alargada e compreensiva de segurança, o primeiro desafio representado pelas alterações climáticas é o da complexidade. Mais do que nunca estadistas, estrategistas e cientistas têm de estar lado a lado na monitorização da evolução do estado ambiental e climático do planeta. Complexidade, ainda, na medida em que as alterações climáticas se ligam a outros problemas da habitação comum da Terra que aguardam por solução obrigatória, como é o caso da urgência de uma nova política energética que nos liberte da dependência de combustíveis fósseis, que além de poluentes, trazem consigo o risco da multiplicação de disputas violentas dada a sua crescente escassez.
O segundo desafio prende-se com a escala e a natureza da ameaça. As alterações climáticas constituem o melhor exemplo da globalização da ameaça. Uma ameaça cuja natureza é de um novo tipo, a saber, ontológico. Não se prende com a projeção espacial e territorial do poder, mas com a metamorfose intrínseca desse espaço e desse território pela ação desmesurada e colateral do poder humano (incluindo aqui a violenta capacidade de transformação plástica dos ecossistemas por parte da tecnociência).
O terceiro desafio implica a aceitação dos limites dos meios militares para fazer face a esta nova ameaça. Curiosamente, o pensamento estratégico já enfrentou no passado uma situação semelhante, quando a possibilidade de autodestruição da humanidade, num quadro de Mutual Assured Destruction, acabou por fazer do não uso das armas nucleares a melhor doutrina do seu planeamento e desenvolvimento.
O quarto desafio aportado pelas alterações climáticas é o da cooperação compulsiva entre os Estados e outros atores da política internacional. Hoje, as ameaças que pairam sobre o clima e o ambiente mundiais têm no uso de um património comum, a atmosfera, o centro nevrálgico do problema e da sua eventual solução. A atmosfera planetária é hoje um tema político de segurança nacional e mundial. Nenhum país pode decretar uma soberania exclusiva sobre a "sua" atmosfera, sem com isso incorrer num ato de hostilidade para com o resto dos parceiros da comunidade internacional.
Não temos meios para expandir fisicamente a atmosfera, mas temos meios para uma sua gestão mais sustentável. A multiplicação de vagas de refugiados ambientais, de conflitos entre Estados (cada vez mais débeis, ou mesmo falhados) e dentro de Estados pela disputa de recursos naturais cada vez mais escassos, poderá ser uma realidade ainda mais violenta se não compreendermos todas as dimensões de segurança envolvidas na ameaça ambiental e climática em rápida aceleração.
         Estes desafios de segurança são o nosso futuro. Quer queiramos, quer não, esses desafios não irão desaparecer por milagre. Resta saber se os europeus querem enfrentar essas ameaças à sua segurança comum em ordem unida e com uma forte cadeia de comando. Ou se, pelo contrário, preferem continuar a regredir em direção à fragmentação e à insignificância.