Novas pesquisas sugerem que o temperamento reservado tem virtudes que devem ser valorizadas e reconhecidas na educação e nos modelos de gestão. A VISÃO analisou os estudos, falou com investigadores e foi ao encontro de cinco portugueses discretos, com carreiras de notoriedade pública, para descobrir os segredos das lideranças silenciosa

  • Vídeo com as entrevistas com o psicanalista Mário Horta e as psicólogas Isabel Andrade e Sofia Calheiros

No best seller da norte-americana Susan Cain, Silêncio: O Poder dos Introvertidos num Mundo Que Não Para de Falar (Ed. Temas & Debates, 439 pág.,€17,91), a autora defende que a personalidade nos molda tanto como o género ou a raça e que a introversão não deve ser vista com preconceito.

  • Veja a conferencia TED de Susan Cain 

O segredo dos introvertidos

Entrevista com o Psicanalista Mário Horta:"As pessoas querem ver reconhecida a sua individualidade"

Crítico em relação à utilidade das pesquisas centradas nos comportamentos humanos, o clínico explicou à VISÃO porque são tão populares a receitas de conduta, que sugerem "como fazer". A falta de referências identitárias leva as pessoas a agarrar-se às respostas da ciência, na ilusão de encontrar um sentido de si.

Por por Clara Soares

Como explica a introversão?

É um modo de relação com o mundo e um mecanismo de defesa. A pessoa introvertida "age para dentro" e cultiva a distância emocional. A sua defesa é pensar. A que "age para fora" liberta a tensão psíquica através da atividade frenética. Num jogo de futebol, por exemplo, o número 10 pensa e faz a equipa jogar. Já o número 9 será mais hábil a marcar golos ou a destruir o jogo dos adversários.

Numa sociedade que valoriza a extroversão, mostrar reserva pode ser um problema?

Há quem não seja protagonista porque assim o deseja, ou para não ter de lidar com a ansiedade. Em qualquer dos casos, existe uma escolha. Se eu me calar porque assim o decidi, terei de assumir as implicações desse ato. É também isso que acontece numa psicoterapia: é-se, por vezes, confrontado com algum grau de recusa em fazer escolhas.

Investigadores e gestores começam a ver talentos nas lideranças silenciosas. O que pensa disso?

Introvertidos, sempre houve. Suspeito que haja um intuito comercial ou empresarial, do tipo "em nome do render melhor, vamos aproveitar os introvertidos". Vejo este este interesse como um sintoma da cultura pós moderna.

Dar visibilidade às competências de personalidades mais contidas parece-lhe descabido?

Como clínico e pessimista, entendo que se corre o risco de uma euforia para exteriorizar os introvertidos. "Afinal tens qualidades, agora dá", o que me parece um abuso. Os estudos e terapias que propõem condutas podem silenciar o sujeito, torná-lo híper adaptado, sem espaço para o que lhe é próprio e exclusivo, o que viola a sua identidade.

Como explica o crescente interesse pelos tipos de personalidade, no momento atual?

O paradigma "conhece-te a ti mesmo" deu lugar ao "conhece o que está fora de ti". Nos últimos cem anos, perdeu-se o fio da tradição, da autoridade e das práticas que enquadravam o ser humano na cultura. Na sociedade de massas, o ser humano tem vindo a perder o contacto consigo mesmo e pede à ciência que resolva. Que lhe dê receitas acerca de como fazer, como comportar-se. E isso é assustador.

Porquê?

Porque a ciência observa, funcionaliza e tende a dar respostas exteriores ao indivíduo, reduzindo-o à condição de fabricador. Fabricam-se pais, fabricam-se filhos, fabrica-se tudo: a clonagem, a reprodução medicamente assistida... É o drama da pós modernidade: não há lugar para o subjetivo.

Refere-se à pressão social para seguir normas e tendências, apoiadas em estudos?

As receitas de "como fazer", limitadas ao comportamento e não ao sujeito, podem gerar a polarização da introversão ou da extroversão: uns retraem-se, outros passam ao ato e fazem coisas irresponsáveis. Dou-lhe um exemplo. Um grupo de amigos sabe calar quem fala mais, ou puxar por aquele que fala menos. Não é preciso ciência para isso, bastam boas relações entre as pessoas.

Em suma, os modelos de comportamento aplicados na família, na escola ou nas empresas, são questionáveis?

Sim, na medida em que se perde o respeito pelo individuo ao encará-lo como átomo de uma estrutura. As pessoas querem ver reconhecida a sua individualidade e recusam ser tratadas como massas. Ou meros contribuintes, para pagar a dívida. Tratar todos por igual em nome da justiça leva a muitas injustiças.

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