Parece ser a solução de mais fácil execução. Basta replicar a sobretaxa extraordinária de IRS aplicada a metade do subsídio de Natal no final de 2011 - a todas as pensões e ordenados acima do salário mínimo de 485 euros, tanto no setor público como no privado -, mas desta vez sobre a totalidade do valor remanescente, de forma a alcançar 2 mil milhões de euros (ou 1,2% do PIB). No ano passado, a sobretaxa calculada sobre metade do 13.º mês rendeu aos cofres públicos 1 025 milhões de euros. O economista Silva Lopes considerou esta solução como "a mais conveniente, embora do ponto de vista político possa ser a mais difícil". Lançar novos impostos não vai agradar aos contribuintes nem, provavelmente, à troika, que tem defendido medidas de caráter estrutural para reduzir a despesa pública. E nem à oposição.
"Uma decisão destas é política e da responsabilidade de quem a toma. Não é da responsabilidade do Tribunal Constitucional (TC) nem dos deputados que pediram a fiscalização da constitucionalidade do corte dos subsídios na Função Pública", realça Vitalino Canas, um dos 17 deputados do PS que, juntamente com oito do Bloco de Esquerda, assinaram o pedido ao TC. No auge da irritação com o TC, Pedro Passos Coelho admitiu uma medida que "seja alargada a outros portugueses", assustando os trabalhadores do privado. "O primeiro-ministro reagiu como um menino a quem tiraram o brinquedo", conclui Vitalino Canas.
Corte dos 13.º e 14.º meses para todosPor enquanto, nada indica que o cenário mais radical venha a ser necessário, mas a derrapagem orçamental deste ano, estimada em 2 mil milhões de euros, pode obrigar o Governo a estudar essa hipótese, solucionando dois problemas de uma assentada. Com o confisco integral dos subsídios de férias e de Natal, dos trabalhadores do público e do privado e dos pensionistas, o Estado arrecadaria um total de 4 mil milhões de euros (equivalente a 2,4% do PIB). Mas o descontentamento social subiria de tom e o consumo abrandaria ainda mais, numa economia em recessão. João Ferreira do Amaral, economista, alertou já para a previsível desaceleração das exportações e aumento do desemprego neste segundo semestre do ano. E o corte dos 13.º e 14.º meses para todos - público, privado e pensionistas -, é daquelas decisões que podem fazer perder eleições.
Extensão do prazo de redução do déficePedir mais um ou dois anos para cumprir as metas do défice orçamental (4,5% do PIB neste ano e 3% no próximo) é, desde há muito tempo, defendido por setores alargados da sociedade portuguesa. Permitiria aliviar o esforço de ajustamento orçamental e daria novo fôlego à recuperação económica. Mas, para Silva Lopes, "alargar prazos sem receber mais dinheiro da troika não é solução". "As exportações estão a crescer menos que o previsto e a confiança dos mercados ainda não foi restaurada", diz o economista, para quem "a austeridade não pode ser aliviada sem mais dinheiro". Impõe-se, por isso, uma renegociação do programa de ajustamento com Bruxelas - como a Grécia está a fazer - e um eventual reforço do empréstimo de 78 mil milhões de euros.
O líder da oposição, António José Seguro, há muito que vem pedindo uma nova negociação com a troika, de forma a que Portugal possa atingir os objetivos do défice apenas em 2014 e não em 2013, como previsto. Mas, assim, dificilmente Portugal poderia regressar aos mercados já no próximo ano, ou seja, continuaria a precisar do dinheiro do FMI e da União Europeia para se financiar. Ora, "mais tempo e mais dinheiro seria desastroso", considera o economista José Maria Castro Caldas, acenando com o fantasma da Grécia. Francisco Louçã, do BE, concorda. "Se pedirmos mais dois anos vamos precisar de mais 50 mil milhões de euros. Prolongamos a austeridade e a agonia, em vez de romper com ela", considera.
Reestruturação da dívidaA solução, para o líder do BE, passa pela reestruturação da dívida. "Anulando a parte da dívida que corresponde a juros excessivos e que diz respeito aos credores privados e à troika e protegendo os fundos de pensões dos trabalhadores, como o fundo de capitalização da Segurança Social, que detém uma parte da dívida portuguesa", explica.
No entanto, a reestruturação da dívida é um cenário que não passará pela cabeça do chefe do Governo. Mas pode haver uma aproximação à posição do PS. Esta semana, em Bruxelas, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, admitiu, pela primeira vez, que, na próxima visita da troika, no final de agosto, se irá falar em "melhorar e favorecer o processo de ajustamento". Quer isto dizer que o Executivo está disposto a pedir mais tempo? Esta seria também uma forma de evitar mais crispação dentro da coligação que suporta o Governo, uma vez que ao CDS/PP de Paulo Portas não agrada a ideia de se aumentarem mais os impostos nem de se cortarem, de forma generalizada, os subsídios de férias e de Natal dos portugueses. "O nível de impostos já atingiu o seu limite", escreveu Portas aos militantes do seu partido.
Aumento generalizado de impostos (IVA, IRS...)A quebra na receita fiscal desaconselha este caminho. A receita do IVA está abaixo das previsões, o consumo em queda livre, a poupança em retração e a fuga aos impostos e a evasão fiscal ameaçam disparar. Taxando-se ainda mais os rendimentos das famílias, o consumo iria retrair-se e a recessão agravar-se. Voltar a aumentar o IVA ou o IRS seria, além de impopular, contraproducente. Para o economista João Cantiga Esteves, a execução orçamental de janeiro a maio de 2012 mostra que Portugal já ultrapassou o limite da curva de Laffer, segundo a qual um aumento das taxas a partir de certo ponto faz com que a receita dos impostos diminua, em vez de crescer. "Mais impostos é sinónimo de mais desemprego", garante Silva Lopes, embora sublinhando que "há ainda espaço para mexer nas pensões de reforma mais altas".
Lançamento de um imposto sobre os ricosA criação de um imposto único, com caráter excecional, de 4% sobre a riqueza líquida dos portugueses foi recentemente proposta pelo ex-ministro Miguel Cadilhe, como medida destinada a reduzir a dívida pública. Mas a ideia ganhou adeptos, inclusive entre os partidos de esquerda, que defendem agora a sua aplicação para fins de equilíbrio orçamental. O aumento da taxa liberatória (21,5%) sobre os rendimentos de capital (dividendos, juros, etc.) é outra das medidas em cima da mesa, embora acentue os riscos de fuga de capitais para o exterior.
Despedimentos no EstadoO próprio ministro das Finanças, Vítor Gaspar, garantiu já que o despedimento de 50 mil a 100 mil funcionários públicos é uma hipótese "inexequível", recordando que as rescisões amigáveis de contratos pressupõem "compensações". Assim, "o efeito imediato", conseguido através da redução da despesa pública, "não existiria", como referiu na altura o governante. Para além disso, a medida acentua os desequilíbrios sociais. O setor privado já mostrou que não tem capacidade para absorver estes trabalhadores e a taxa de desemprego subiria ainda mais. Um drama social e um novo peso para a Segurança Social no que diz respeito à despesa com o subsídio de desemprego. Mas reduzir o número de funcionários públicos é uma medida de caráter estrutural que, aos olhos da troika, tem o mérito de cortar despesa.
E este ano? Como vai ser?Se, para 2013, são necessários 2 mil milhões de euros devido ao facto de o Tribunal Constitucional ter vetado o corte dos subsídios apenas para a Função Pública e para os pensionistas, já este ano, 2012, precisa-se de outros 2 mil milhões. É este o montante do buraco que resulta da execução orçamental até maio, devido à diminuição das receitas dos impostos, das contribuições sociais e ao aumento da despesa com os juros da dívida pública e com o subsídio de desemprego. Embora os 13.º e 14.º meses dos funcionários públicos e pensionistas sejam cortados este ano, o buraco mantém-se. Para o tapar, o Governo pode valer-se, de novo, da sobretaxa extraordinária sobre o subsídio de Natal dos privados, já em dezembro, mas há outras soluções previstas, aliás, no memorando com a troika, como a renegociação das Parcerias Público Privadas ou um corte mais aprofundado nas rendas excessivas da energia. São medidas que poupam dinheiro ao Estado e em que o Governo tem andado a passo de caracol. "Os interesses são muito fortes", avisa o economista João Cantiga Esteves, para quem ainda há muito que fazer do lado da despesa. "O Estado cresceu tanto, tem tantos institutos e fundações que já ninguém se entende", remata.







