Às vezes, parece-me que a minha irmã Anabela é quem guarda mais daquele tempo que todos vivemos, mas que fomos perdendo.

As fotografias não existem apenas nos álbuns lá de casa, estão gravadas naquilo que nos constitui: uma menina de olhos grandes sempre a sorrir. A minha família e eu, mesmo que espalhados por lugares e idades, temos em nós essa menina de olhos grandes sempre a sorrir. Em muitas coisas importantes, todos somos a minha irmã Anabela.

Somos a minha irmã Anabela sobretudo em silêncio. Estamos, por exemplo, rodeados de pensamentos. Como se estivéssemos a atravessar uma floresta de pensamentos. Lá ao fundo, suspeitamos a existência de uma sombra que nos poderá magoar. Então, somos a minha irmã Anabela na fragilidade e, também, ainda mais, na força imensa com que atravessamos esse caminho. Porque nenhum caminho ficará por fazer, mesmo que seja necessário arrancar a própria pele: fazer um corte, agarrar a própria pele com as duas mãos e arrancá-la.

Somos a minha irmã Anabela quando continuamos a acreditar, apesar de tudo o que se atira à nossa frente. O horizonte é a verdade. Só o horizonte nos salva.

Um dia, o meu pai encontrou um professor de matemática da minha irmã que, quando soube que ela era sua filha, a elogiou de uma forma que o meu pai não esqueceu durante toda a sua vida. O orgulho que sentiu nesse dia justificou todos os sacrifícios. Nós não estávamos lá, apenas escutámos a descrição feita pelos olhos do meu pai ou, mais tarde e mais vezes, escutámos a descrição dos olhos do meu pai feita pela minha mãe. Mas sabemos que é exatamente esse o orgulho que sentimos pela minha irmã Anabela, por tudo o que ela alcançou, por tudo o que ela é. Esse é o orgulho que a minha mãe sente pela sua filha, que as minhas sobrinhas sentem pela sua mãe, que eu e a minha irmã Alzira sentimos por ela.

Talvez haja uma certa natureza de palavras que fique por dizer às irmãs do meio. Aquilo que ficamos à espera que seja adivinhado não é suficiente, não substitui a justiça dessas palavras, a injustiça desse silêncio.

A minha irmã Anabela protege a pureza dentro de si. Essa é a sua missão. Caminha no interior de si própria, descalça, segurando a pureza com as duas mãos, um cálice quase a transbordar. Olhamo-la e sabemos o quanto dependemos da certeza firme dos seus passos. Transporta uma carga tão preciosa que não conseguimos imaginar como seria perder tanto na nossa vida. Mas, às vezes, desviamos o olhar e, por instantes, distraímo-nos, damos o seu coração e a sua inteligência por garantidos.

Hoje, no momento em que escrevo, a minha irmã Anabela faz anos. Mais logo, vamos jantar. Hei de chegar a horas, vestido com roupas mais ou menos novas, passadas a ferro. Em dias como este, tem de haver alguma coisa especial, mesmo que seja apenas um detalhe, mesmo que seja apenas uma intenção, uma toalha de mesa ou um serviço de loiça. Não sei qual será o assunto de que iremos falar, mas sei qual será o seu tom de voz enquanto estiver a abrir gavetas e a pôr a mesa. Sei qual será a sua expressão à espera da salada. A minha irmã Anabela vai querer escolher a música, mas não vai saber muito bem qual a mais adequada, talvez algum dos discos brasileiros que recebeu num Natal dos anos noventa. Aquilo que sabe é a maneira como quer que o jantar corra, como quer que as pessoas se sintam. A minha irmã Anabela ficará contente se toda a gente falar ao mesmo tempo: as vozes das minhas sobrinhas a cruzarem a mesa, a voz do meu filho a pedir qualquer coisa, eu a concordar com o meu cunhado acerca, por exemplo, do trânsito nas segundas-feiras de manhã. A minha irmã Anabela não pede muito.

Ainda não lhe comprei nenhum presente. Não vou ter tempo de comprá-lo e, pior, não sei se saberia escolher algum objeto que ela quisesse, precisasse e lhe demonstrasse aquilo que eu, seu irmão, quero que ela saiba. Por isso, decidi escrever-lhe estas palavras. Será um presente oferecido com atraso porque não lho entrego hoje. Não sou capaz. Há um silêncio em mim que não deixa. Vou esperar que sejam publicadas e que alguém lhas mostre. Esse momento futuro é o presente invisível que tenho para dar à minha irmã Anabela, menina de olhos grandes sempre a sorrir.