Reconhecer o mérito a quem realmente o tem não é prática comum entre os portugueses. O normal é sermos pródigos em elogios e prebendas quando as pessoas já cá não estão ou, então, atribuí-los quando quem os merece atingiu aquela idade que os inibe de rivalizar com a mesquinhez dos invejosos. Às vezes, somos apanhados em contramão, quando portugueses talentosos, injustamente ignorados dentro de portas, recebem lá fora os prémios e homenagens que a sua própria pátria lhes negou. Mas, como em tudo, também neste campo há exceções a confirmar a regra: os ministros das Finanças. É estranho, mas é assim, pelo que se aconselha aturada investigação a uma realidade que, eventualmente, só os mais tortuosos e recônditos domínios freudianos conseguirão explicar.  

Talvez dominado pelo sentimento inconsciente que lhe ficou do Estado Novo, o Portugal democrático nutre uma profunda admiração pelos seus ministros das Finanças. Quando sobem a escadaria do velho edifício da Avenida Infante D. Henrique, levam, não raro, um carimbo que vai da mais ou menos adjetivada competência, até ao Olimpo da genialidade. Lembram-se de Braga de Macedo? Só dois, por razões diversas, escaparam à prévia admiração geral. Miguel Cadilhe, à época um desconhecido quadro de um banco; e Joaquim Pina Moura, olhado de soslaio pela falta de currículo na área financeira e um passado recente nas altas esferas do PCP.  

Pois bem, aqui chegados, três décadas e meia depois de crescimento anémico, endividados até ao pescoço e com o terceiro pedido de resgate pendurado nas nossas vidas, voltamos a receber um ministro das Finanças com a mesma ilusão das crianças face aos pozinhos de perlimpimpim do prestidigitador que tira coelhos da cartola. Desde a sua chegada ao poder, que a propaganda oficial e oficiosa tudo fez para apresentar Vítor Gaspar não só como uma espécie de mago do orçamento, mas também como alguém que tem a vantagem acrescida de acumular prestígio e amigos nas chancelarias da política e da finança europeias. Afável, carismático e com essa aura de estrangeirado ungido pela bênção de Bruxelas, Gaspar impôs-se no Parlamento (o que não é difícil, convenhamos) e, sobretudo, transformou-se no verdadeiro patrão do Governo. Toda a gente sabe que Passos Coelho fala pela boca do seu ministro das Finanças e que qualquer tentativa dos seus pares de pôr a cabecinha de fora em termos de despesa não passa sem o aval do poderoso Gaspar. Ou seja, apesar das condições adversas, bancarrota e troika incluídas, a verdade é que nenhum outro detentor desta pasta dispôs de tanto poder e de tanta hegemonia não só face aos seus pares como também face ao próprio chefe do Governo. Nem Ernâni Lopes conseguiu essa proeza, apesar da assumida fragilidade de Mário Soares em matéria de finanças. 

Um ano volvido, percebe-se, mais uma vez, como é ridícula esta fixação sem bases na competência providencial dos ministros das Finanças. Infelizmente para todos nós, Gaspar já falhou e continua a falhar - no défice, nas receitas, nas despesas, no desemprego colossal. Preso a um plano que ameaça abrir buracos por todos os lados, Gaspar está sem iniciativa, sem plano B e reza para que o estatuto de bom aluno comova os seus "amigos" lá de fora. É muito preocupante.