"Quando tento encontrar uma fórmula prática que descreva a época na qual cresci (...) penso ter encontrado a mais precisa se disser: foi o período áureo da segurança. Tudo na nossa democracia (...) parecia construído para durar para sempre, sendo o próprio Estado o garante dessa estabilidade. Os direitos que ele assegurava aos seus cidadãos eram ratificados pelo Parlamento, representação livremente eleita do povo, e cada obrigação estava definida com precisão. (...) Tudo se fazia com conta, peso e medida. Quem fosse dono de uma fortuna, podia calcular exactamente quanto lhe cabia anualmente de juros; por seu lado, o funcionário e o oficial podiam, com toda a confiança, encontrar no calendário o ano em que seriam promovidos e aquele em que passariam à reforma. Cada família tinha o seu orçamento certo e sabia quanto precisava de gastar em habitação, na viagem de verão e em despesas de representação (...). Quem possuísse uma casa, considerava-a o lar seguro para filhos e netos, quintas e negócios passavam de geração em geração. (...) Ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões. Todo o radicalismo, toda a violência pareciam já não ser possíveis numa época de razão."

Ao contrário do que possa parecer, esta simpática burguesia, confortada na segurança de um futuro ordeiro e linear não é a mesma que, em Portugal, nasceu do 25 de Abril e viveu posta em sossego até há bem pouco tempo. Não é mas bem podia ser. Também nós acreditámos nos empregos para a vida, na promessa de uma reforma para a velhice, no milagre da segurança eterna, num futuro para os nossos filhos onde "todo o radicalismo, toda a violência pareciam já não ser possíveis". Também nós nos habituámos a olhar para a Democracia como uma conquista civilizacional que não precisa de ser quotidianamente alimentada, todos nós nos habituámos a arrumar os medos das guerras na poeira espessa dos livros de história. E que bom é, convenhamos, acreditar num mundo assim.

Acontece que o mais significativo de tudo isto é saber que quem escrevia com esta imensa nostalgia era Stefan Zweig a quem Max Ophuls pediria mais tarde emprestado um dos filmes da minha vida (mas essa é uma história que para aqui não é chamada). O mais significativo de tudo isto é saber que a sociedade pacata, ordeira, pacífica, segura, que olhava esperançosamente o futuro com esta certeza geométrica das grandes narrativas lineares, iria durar pouco mais. O mundo de Zweig, o mundo confortável da burguesia austríaca, começou a desabar no dia 14 de junho de 1914 e, para todos os efeitos práticos, já não existia quatro anos passados. O mundo eternamente tranquilo de que fala Zweig, caiu com o atentado de Sarajevo, foi desmembrado em 1918, viu a chegada de ajuda financeira externa para evitar a bancarrota em 1922, viveu a instabilidade política e a guerra civil para acabar oficialmente no anschluss de 1938. Sendo que os horrores da Segunda Guerra eram ainda um impensável futuro que haveria de fazer-se.

Dir-me-ão que ando com humores de Cassandra. Mas eu estou-me nas tintas. Continuo a achar que a melhor forma de cuidar do futuro é desconfiar das certezas imutáveis do presente e aprender com as desventuras do passado.