Dantes morríamos mais. Mais cedo. Não íamos tanto ao médico. Fazíamos menos análises ou exames de rotina. Tínhamos a vida menos prolongada por remédios ou intervenções cirúrgicas. Hoje vivemos mais os números não mentem, mas, com tanta medicalização, viveremos melhor? "Indiscutivelmente, com menos sofrimento. Sobretudo mudou muito a mentalidade", nota João Lobo Antunes, 68 anos, o neurologista que recentemente escreveu o ensaio A Nova Medicina. Ser velho equivalia a um estado de sofrimento, a aceitar a incapacidade com resignação. "Hoje, as pessoas percebem que vale a pena viver mais tempo, se for com qualidade", conclui. Numa sala de cuidados intensivos essa qualidade não existe. A morte anda sempre por perto. E a vida, monitorizada ao milímetro, é uma conquista a que se chega com pinças. Contudo, os avanços da ciência permitiram que 70% dos doentes que, há 30 anos, estariam aqui internados, estejam hoje numa enfermaria. E 70% dos que estão agora nos cuidados intensivos, há 30 anos estariam mortos. Esta é uma das maiores conquistas da medicina dos finais do século XX, que tem ajudado a esticar os anos que por cá andamos.

Existem quase meio milhão de portugueses com mais de 80 anos e o número de centenários triplicou na última década.

Se até agora a Medicina apostou em prolongar-nos a vida, no futuro passará a centrar-se no bem-estar dos velhos, que veem hoje as suas rotinas invadidas por diversas patologias e uma mão-cheia de medicamentos.

UMA FAMÍLIA, UM MÉDICO

Adelina Batista tem 90 anos aos 20 foi mãe, aos 40 avó, aos 83 bisavó. Já não sai de casa, porque as pernas a impedem, mas sente-se bem na sua pacata existência nota-se pelo sorriso constante e sereno. Passa os dias sentada na sala da casa do filho, onde vive, umas vezes mais alheada do que outras. Não tem dores, nem nunca se queixa. No entanto, como a maioria das pessoas da sua idade, e até mesmo mais novas, Adelina começa o dia a engolir sete comprimidos: por causa da diabetes, da hipertensão, do ácido úrico, da insuficiência cardíaca provocada por problemas numa válvula e de um tumor na mama de que foi vítima.

Toda o clã Batista, composto por quatro gerações, é seguido há mais de duas décadas por António Sousa Alvim, 56 anos, da Unidade de Saúde Familiar de Benfica. Ele sabe que um médico de centro de saúde deve conhecer todos os membros da família, acompanhá-los ao longo da vida. Estar disponível. Há que ser um maestro atento a quem desafina ou falta aos ensaios. E só medicar quando é preciso.

Para se chegar como novo a velho, há que adotar um estilo de vida saudável livre de obesidade, tabaco e sedentarismo.

As idas regulares ao médico são, por isso, fundamentais, mas sem exageros.

No caso da Marta, a mais nova dos Batista, os pais até dispensaram um pediatra, tal a confiança que depositam em António Sousa Alvim. Até agora, e a Marta já tem 7 anos, continuam a considerar que a opção foi acertada.

O número de consultas dadas e de profissionais desta área não tem parado de aumentar nas últimas décadas.

Todos querem ter, e por norma têm, um fácil acesso aos cuidados de saúde. Dantes não era bem assim. "Recorria-se ao médico apenas em ocasião de doença, sobretudo aguda.

Com maior capacidade de tecnologia de diagnóstico, o paradigma mudou completamente.

Insisto sempre que não é para cá virem só quando estão doentes", considera João Sequeira Carlos, 37 anos, coordenador do serviço de Medicina Familiar do Hospital da Luz, em Lisboa.

Às vezes, o percurso que se esperava saudável e longo ameaça ser encurtado. Numa consulta de rotina, podem descobrir-se más notícias. Noutros casos, uma história familiar de doença faz disparar o alarme. É na prevenção que reside a diferença entre a vida e a morte.

Margarida Rito, 65 anos, sabe que não se pode distrair com consultas e exames. Foi num rastreio ao cancro do cólon, através de um procedimento de imagiologia vulgarmente conhecido por clister opaco, que descobriu pólipos no intestino. Só mais tarde lhe foram retirados durante uma colonoscopia.

Desde então, tem sido seguida com bastante assiduidade, mas não voltou a ter problemas. "A probabilidade de haver um desfecho fatal numa pessoa que entra num programa de rastreio de cancro do cólon retal é muito baixa. A incidência e há estudos internacionais que nos mostram claramente isso diminui exponencialmente quando se inicia este tipo de vigilância", afirma David Serra, 39 anos, coordenador do centro de Gastroenterologia do Hospital da Luz.

Se Margarida não tivesse feito a colonoscopia, esses pólipos adenomas teriam evoluído, no prazo máximo de uma década, para uma neoplasia do cólon. Em Portugal, morrem 10 pessoas por dia vítimas desta doença.

'CHECK UPS' PERSONALIZADOS

Há três partes do corpo de Margarida Rito que são vigiadas atentamente: cólon (por causa dos pólipos), útero (descobriu uma ferida há anos) e mama (tem um nódulo que a obriga a um controlo mais apertado). Nestes casos, os benefícios da prevenção e deteção precoce estão cientificamente comprovados.

Mas nem todos os exames que fazemos na ânsia de evitar doenças que matam têm essa evidência. Há zonas cinzentas, onde os ganhos são mínimos quando comparados com as desvantagens. Sabe-se hoje, por exemplo, que a mamografia ou a análise ao PSA (antígeno prostático específico), para detetar alterações malignas na próstata, acarretam mais danos que benefícios.

"Os check-ups estão desatualizados. Não faz sentido as pessoas fazerem todas as mesmas análises", considera Luís Pisco, 56 anos, vice-presidente do conselho executivo da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

Carlos Martins, 42 anos, médico e professor da Faculdade de Medicina do Porto, coordenou, para a sua tese de doutoramento, um inquérito sobre o que os portugueses pensam das atividades preventivas. "Durante gerações, só passou o lado positivo associado aos rastreios e às consultas de rotina. Raramente se falou do dano, sobretudo quando as atividades médicas são indiscriminadas, sem considerarem os grupos de risco ou as idades apropriadas." Siga-se então o seu raciocínio, baseado num estudo europeu de larga escala, no que toca à análise de deteção de tumor na próstata, que todos são aconselhados a fazer a partir dos 50 anos. "Chegou-se à conclusão que, convidando 1410 homens para efetuarem esse teste, um deles beneficia, salvando-lhe a vida. Mas o estudo também demonstra claramente que dessas 1410 pessoas, 47 vão ser vítimas de um diagnóstico desnecessário."

METADE SOBREVIVE AO CANCRO

Desnecessário? É que nem sempre os tumores detetados se desenvolvem ou dão sinais. Mas a partir do momento em que se descobre a sua existência, conduzem a cirurgias e tratamentos agressivos, que podem provocar incontinência e impotência. A medicina atual não consegue distinguir quais os cancros que acabam por se manifestar e, por isso, atua sempre.

Radicalmente. Por precaução. Na opinião de Carlos Martins, o exame ao PSA não deve ser prescrito a toda a gente, mas apenas a quem tem queixas ou a grupos de risco.

Jorge Andrade nunca saberá qual era o seu caso. Numas análises feitas no seguimento de uma consulta de medicina do trabalho, o técnico do município de Santa Comba Dão, de 57 anos, detetou um cancro na próstata. Soube, na biópsia, que o tecido estava contaminado a 90% e que o tumor era inoperável. Um prognóstico pouco animador. Quase dois anos depois, com 40 sessões de radioterapia no currículo, os números voltaram a descer para os níveis normais. Jorge acredita que o seu otimismo ajudou tanto como os progressos da ciência.

O médico pondera, até, livrá-lo de toda a medicação e deixá-lo em paz com a reconstrução da sua casa numa aldeia do concelho de Proença-a-Nova. "O cancro desapareceu por completo", afirma, animado.

Hoje, graças ao diagnóstico precoce e aos avanços da técnica, a palavra cancro já não significa obrigatoriamente sentença de morte. Em Portugal, a taxa de bons resultados ronda os 55%. Estima-se que existam 250 mil sobreviventes, a quem foi dada alta ao final de cinco anos. Os números parecem mais otimistas que a nossa perceção da realidade.

Carlos Oliveira, 68 anos, Presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, explica: "Os cancros da próstata, do cólon retal e da mama correspondem a 75 a 80% dos casos.

Qualquer progresso nestas áreas leva a um aumento considerável da sobrevivência." E para esta equação de resultado positivo tanto contam a evolução dos tratamentos como o diagnóstico precoce.

NOVA CAUSA DE MORTE

Maria Teresa Carvalho, 61 anos, também deu a volta à doença. Na sua história, os médicos atuaram mais por precaução do que por necessidade. Esta técnica de anatomia patológica descobriu que tinha um carcinoma in situ, uma forma pré-maligna, na mama. Há três anos foi aconselhada a fazer mastectomia parcial, mesmo sendo ínfima a probabilidade do tumor alguma vez se espalhar. Depois da cirurgia, não precisou de mais tratamentos.

Considera-se uma sortuda, porque das suas companheiras de quarto, quando foi operada nos Hospitais de Coimbra, já só ela e uma doente de quem se tornou amiga estão vivas.

Apesar do aumento de histórias de sobrevivência de pacientes com certos tumores, com o expectável envelhecimento dos portugueses, o número de casos de cancro vai aumentar nos próximos tempos.

Em 2030, prevê-se que haja mais 30% de doentes, tornando-se esta a principal causa de morte em Portugal, deixando para segundo lugar as doenças cardiovasculares.

A culpa é do envelhecimento progressivo da população. Como passaremos a viver mais a esperança média de vida na Europa crescerá de 75 para 82 anos até 2050, os cuidados com a saúde deverão ser ainda mais cruciais. No entanto, há que direcioná-los. "O melhor médico é o que sabe gerir incertezas e comunicá-las, com eficácia, aos seus pacientes", nota Carlos Martins. Porque, já se sabe, em teoria ou na prática, não somos todos iguais.