Vi ontem, pela primeira vez em ecrã, numa maravilhosa cópia em Cinemascope projectada na Cinemateca, Pat Garrett & Billy the Kid (1973), de Sam Peckinpah, que considero um dos mais belos filmes jamais feitos. O romantismo e utilização lírica da violência em Peckinpah encontram neste filme um dos seus expoentes máximos. Peckinpah consegue contar-nos, mais uma vez, a conhecida história de Billy The Kid, um dos grandes mitos da América, com uma originalidade surpreendente e com uma grandiosidade poética, dando-nos assim um dos mais interessantes épicos do cinema americano dos anos 70. A história paralela dos percursos entre o xerife Pat Garrett (James Coburn) e o bandido Billy The Kid (Kris Kristofferson), estabelece toda a tensão dramática que culmina na cena final onde Pat Garrett mata finalmente Billy The Kid. O filme começa com uma brilhante sequência de genérico, que inclui os famosos "ralentis" de Peckinpah onde vemos uma montagem de planos de Pat Garrett, a ser ele próprio morto, anos depois, por um grupo de homens armados e de planos dos homens de Billy The Kid a disparar sobre cabeças de galinhas que estão enterradas num monte de terra. Esta questão da "morte" de Pat Garrett está sempre presente no filme até à cena final onde, depois de matar Billy The Kid, Pat Garrett dispara para o espelho onde o seu próprio reflexo é estilhaçado em pedaços. Este acaba por ser sempre o tema presente. Garrett era um velho amigo de Billy The Kid, tendo-se tornado depois em sheriff. Temos a sensação que o filme trata desta questão de morte "moral" onde Pat Garrett representa o conformismo de uma sociedade onde o poder e o dinheiro, representado no filme pelo governador (Jason Robarts) e pelos interesses financeiros dos investidores donos das terras, estabelecem as "novas regras". Garrett, ele próprio um antigo bandido, vende a alma ao sistema e por assim dizer assina a sua própria morte. O personagem de Billy The Kid, brilhantemente representado por Kris Kristofferson, transmite-nos a sensação de liberdade e de "vida". Romantizado, sem dúvida, o aventureiro Billy representa uma ideia de velho mundo, com códigos de honra e coragem e um sentido da vida para o qual o seu oposto, Garrett, contrapõem o negro e a morte. Como em todos os filmes de Peckinpah, a amizade é tratada uma forma poética e com grande humanidade - a cena final em Fort Sumner, quando Garrett espera que Billy The Kid acabe de fazer amor com a sua amante para depois o matar é dos momentos mais emblemáticos deste código de honra masculino, tão amplamente explorado nos Westerns, de John Ford a Howard Hawks. É também interessante analisar o filme do ponto de visto do que se estava a passar na América na altura em que ele foi produzido. O Watergate, a guerra do Vietname, entre outros casos, representam uma América falida moralmente à beira de um colapso total. Peckinpah consegue-nos mostrar um filme onde a figura de Pat Garrett, o alinhado com o sistema, é uma metáfora da própria América e onde Billy The Kid nos parece uma representação da inocência do oeste, e do verdadeiro "pursuit of hapiness". Este filme tem momentos de uma beleza extraordinária, como por exemplo a cena onde o Xerife Baker (Slim Pickens) é alvejado e morre em frente ao rio, na presença da sua mulher. Uma das cenas mais bonitas do cinema moderno. Mais uma vez, uma referência ao dinheiro, ao sistema. Baker apenas quer ir passear de barco, está fora de jogo, mas Garrett convence-o com uma valiosa moeda de ouro. O "vender a alma ao diabo" está sempre presente no filme, como que uma moralidade existencial subjacente nas acções entre o bem e o mal. Billy The Kid, ele mesmo, traça o seu destino fatal ao decidir voltar a Fort Sumner depois de ver o que os emissários dos financeiros fazem a Paco, o seu amigo mexicano, torturado até à morte. Com um elenco extraordinário repleto dos melhores actores dos western Pat Garrett & Billy the Kid é uma das obras-primas de Sam Peckinpah, e, a meu ver, um dos melhores filmes de sempre.

*Bruno de Almeida é realizador de cinema. Dia 18, estreia em sala o seu último filme, o documentário Bobby Cassidy - Counterpuncher