O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa (AC), tinha, perante si, o maior dilema da sua carreira política. Ou avançava agora para a corrida à liderança ou arriscava-se a ficar na História como o segundo António Vitorino do PS: o eterno candidato que diz sempre que não. Mas o problema de António Costa não é a sua boa estrela, mas o modo de funcionamento dos partidos. Francisco Assis, quando concorreu contra António José Seguro (AJS), teve exatamente a mesma dificuldade: sabendo da sua notoriedade cá fora, mas da sua fragilidade lá dentro, propôs a abertura a um sistema participado por simpatizantes, que libertasse o partido da lógica clientelar egocêntrica. Seguro, pelo contrário, fez toda a campanha afagando o ego dos socialistas, falando para eles e só para eles, por saber que eles, e só eles, tinham o direito de votar e o poder de o eleger. Um dirigente medíocre (falando no plano genérico, sem juízos de valor sobre AJS...) pode facilmente impor-se ao aparelho de um partido e ser eleito, sem que a sua força interna corresponda a qualquer popularidade junto do eleitorado ou, pelo menos, corresponda à do seu adversário. Basta-lhe, para isso, conhecer os miltantes pelo nome próprio, apelar para as ressonâncias clubísticas que arregimentam os filiados, e, sobretudo, impor uma lógica clientelar, potencialmente distribuidora de lugares ­ como os das listas autárquicas, agora ali tão perto... 

Além de conhecer muito bem o PS, desde adolescente, AJS aprendeu com Guterres a dominar a máquina. O sistema é difícil de furar, para mais quando o chalenger, António Costa, é um político frio, racional, pouco dado aos abraços de ocasião e com pouco jeito para lidar com a pequena política. Não suja as mãos na massa. O problema é que, sem conceder alguma coisa, não vai lá. Sem tropas dignas desse nome, apenas com alguns apoiantes no grupo parlamentar e outros dispersos pelo que restou do socratismo ­ sim, o aparelho também abandona os derrotados... ­ só lá vai com uma vaga de fundo que convença os militantes de que ele cheira muito mais a poder. A sua visibilidade, a sua credibilidade, a sua experiência governativa, o seu palco em Lisboa fazem dele um político mais sólido do que AJS. Mas o atual líder também sabe que, se aguentar esta pressão, o poder acaba por cair-lhe nos braços. Por isso, entalou Costa: teremos diretas e Congresso, antes das autárquicas. E agora?

Agora, Costa tinha alternativas difíceis: Hipótese 1: ganha a liderança e candidata-se, na mesma, à CML. Neste caso, a campanha do seu adversário, Fernando Seara, centrar-se-á no ponto indesmentível de que AC seria um presidente a prazo, à espera de uma oportunidade para candidatar-se a primeiro-ministro. Um argumento fatal, que pode impedir a vitória em Lisboa.

E quem perde em Lisboa fica em muito mau estado para ganhar no País.

Hipótese 2: ganhava o PS, mas não se candidatava a Lisboa. E deixava o partido descalço, podendo  ter, logo a abrir, a sua primeira grande derrota como líder do PS, ao perder a principal Câmara do País. Hipótese 3: perde no PS e apresenta-se como um derrotado perante o eleitorado de Lisboa. "Pois se nem os socialistas o quiseram, porque o quererão os lisboetas?", dirá Seara.

Todas as opções são de alto risco. A primeira, a mais arriscada, é a única em que pode ser bem sucedido. Uma vitória interna no partido, uma vitória geral nas autárquicas e uma vitória pessoal em Lisboa lançaria Costa numa corrida imparável à liderança do País. Se, se e se...