Nós não somos o outro. De certa maneira, o outro está nos antípodas daqui. Lá, no outro lado do planeta, o outro faz o contrário do que fazemos. Cada gesto aqui é acompanhado, lá, por um gesto absolutamente oposto. Cada palavra que dizemos aqui é simultânea a uma palavra contrária dita pelo outro lá. A língua do outro é incompreensível. Nem parece uma língua. Até estas palavras, até esta frase incompleta. Lá, neste momento, o outro está a dizer exatamente o contrário disto, com a mesma convicção.

Se nos dermos ao trabalho de atravessar continentes e nos deslocarmos até lá, o outro terá vindo até aqui por estradas contrárias, dando um passo a afastar-se por cada passo nosso a aproximar-se. Nunca estamos sozinhos. Aquilo que fazemos determina aquilo que o outro faz. Lá, rodeado por um cenário inverso a este, o outro está convencido do mesmo, mas ao contrário: acredita que o que faz determina o que fazemos.

A sincronia absoluta não permite saber quem tem razão. Mas é garantido: aquilo que fizeres agora está a ser feito ao contrário pelo outro, o mesmo acontece com o que disseres, o mesmo acontece com o que pensares.

Cada um está no seu mundo: tu, eu e ele. Com mais ou menos facilidade, podemos estender o olhar até às fronteiras do nosso mundo. O que conhecemos termina numa espécie de horizonte. Tudo a que deres atenção fará parte do teu mundo, fará parte de ti. Depois de lhe teres dado atenção, não poderás decidir se aceitas ou rejeitas que faça parte do teu mundo, já faz, mesmo que discordes.

Por isso, é muito importante que escolhas com critério aquilo a que dás atenção. A pessoa que és depende dessa escolha. Por exemplo: aqui e agora. Estas ideias estão, palavra após palavra, a entrar no teu mundo. O que já foi dito, se entendido, não pode ser extraído com uma seringa. Talvez o tempo o possa apagar mas, nessa ocasião, já provocou uma sequência de decisões que não seriam iguais sem estes minutos de palavras. É difícil avaliar a extensão de um gesto tão ténue. Os seus resultados planam invisíveis no ar, são indistintos do vento.

Não são poucas as decisões tomadas sob a influência de instantes mais breves. Casamentos e doenças tiveram origem em detalhes insignificantes. Crianças e dinastias nasceram devido a metade de uma palavra. Por isso, neste momento, gostava que considerasses a quantidade de coisas que poderias estar a fazer ou a ler em vez de estares a prestar atenção a estas palavras. Pensa nisso. Se preferires, podes parar de ler aqui. Nenhum problema. Finge que o texto terminou.

Agora estamos mais leves mas, para nós, não houve alterações. O nosso mundo foi pouco afetado pela ausência dos que desistiram de ler quando se lembraram de tudo o resto. Repito: cada um está no seu mundo. Mesmo aqui, a acreditarmos que partilhamos, estamos no nosso terreno, em nós.

Às vezes, caímos na vertigem de, num determinado momento, imaginarmos todos os mundos que existem simultâneos ao nosso. Então, podemos estar numa sala e pensamos nas pessoas que naquele preciso instante, neste preciso instante, estão a morrer, ou estão a ter um filho, ou a fazer qualquer coisa que pode ser o absoluto oposto daquilo que estivermos a fazer nesse/neste preciso instante. Esse pensamento tem o tamanho de deus. É, por natureza, maior do que nós. À partida, temos os meios para saber que a consciência de tudo é impossível. Ainda assim, como todas as tarefas impossíveis, o amor ou a liberdade, só essa entrega vale a pena.

Os assuntos a que dediquei estes trinta e oito anos de vida, a minha atenção, levam-me a ensinar aos meus filhos que riqueza é variedade. Uma dieta composta apenas por lagosta, caviar e faisão não é rica, como uma existência rica não é composta por símbolos de statu social. Devemos a nós próprios a ambição de acreditarmos que crescemos, que evoluímos, que estamos vivos.

Vale a pena atravessar meio mundo para ir procurar o outro, mesmo que seja para perceber que o outro não está lá porque atravessou meio mundo para nos vir procurar aqui.