Uma vez o filósofo alemão Nietsche assistiu a uma cena terrível de um cavalo a ser barbaramente espancado por um cocheiro enraivecido por ele se recusar a andar. Não há nada mais pungente em cinema do que um cavalo a ser vergado. A cena, apenas descrita remeto-nos para o célebre e dilacerante episódio do Crime e Castigo de Dóstoieski, mas a "voz" diz que quem lá estava não era Raskolnikov, mas Nietsche que a partir daí terá emudecido e perdido o juízo. Este prólogo desgarrado, que aparece numa narração em off , esfuma-se do resto do filme O Cavalo de Turim (estreia-se hoje, quinta, dia 7), é varrido pelo vento. Ou talvez não. Talvez lá esteja sempre, uma espécie de understatement que se infiltra como a insurreição eólica que cerca um casebre num cenário inóspito. E o desconforto do episódio do cavalo, e talvez alguma da inquietação pessimista nietschiana esteja também por ali insinuada, enquanto a ventania endomoinha as telhas, as saias e os cabelos da rapariga que vai buscar água ao poço.

O filme começa com um homem a chegar de carroça a um casebre, por entre brumas, poeiras e uma ventania infernal. Um deslumbramento a preto e branco. Sempre uma banda sonora rodopiante, que se mistura com as sibilâncias do vento. Um rapariga acode a desaparelhar o cavalo, retirar-lhe os freios metodicamente, reconduzi-lo ao estábulo. Perde-se a conta da quantidade de vezes que hão-de de ser corridos e trancados os fechos deste estábulo. Não há palavras. Apenas olhares. Por incrível que posso parecer o único olhar que transporta alguma emoção é o do cavalo. O resto é tão emocionalmente estéril como as terras fustigadas por um vento infinito que não pára. Nunca pára. Como se fosse uma tempestade só feita de vento e mais nada. Lá dentro a filha há-de ajudar a despir e voltar a vestir o pai de braço inerte, com o mesmo método com que desaparelha o cavalo. As camadas de roupa acumulam-se umas em cima das outras, como as rotinas sempre iguais, ao longo dos seis dias. Vestir-se, buscar água, beber um trago de álcool, pôr lenha no fogão, colocar duas batatas a cozer, limpar o estábulo, comer, pai e filha, dois turbéculos cozidos, ferventes, como no quadro de Van Gogh Os Comedores de Batata, só que aqui fazem-no à mão, esmurram a batata na malga, ingerem-na levando os dedos à boca, o que acentua o despojamento da penúria. A desolação.

Os planos são compostos, fixos, desafiantes, pacientes, dão tempo para analisar cada detalhe, cada canto. Às vezes, as personagens deslocam-se, saem de campo, mas a câmara não se incomoda com isso, permanece na sua placidez obstinada a fixar uma garrafa, ou uma janela, ou um pedaço da porta. A construção da atmosfera é meticulosa, e densa, e inquebrantável, e soturna, e inquietante. Quase exasperante, não fora o fascínio que aquelas imagens transmitem. Admiráveis. E a sonoplastia compete com ela. O verbo ali é a música conjugada com o vento. Todos os dias a mesma rotinas, os mesmos gestos, as mesmas não-palavras, as mesma batatas, os mesmo silvos lá fora, o mesmo vento. As personagens estão presas, reféns do seu próprio quotidiano circular do qual não podem escapar, sequestradas por aquela tempestade. Não há fuga possível.

E no entanto, acontecem coisas, o carruncho deixa de corroer, ao fim de 58 anos. Aparece um vizinho na única cena verborreica do filme, num monólogo algo incoerente. Surge uma carroça carregada de ciganos, hippies do século XIX, que vão para a América e entregam um livro, as lamparinas já não se acendem, a escuridão instala-se, o poço seca, o cavalo deixa de comer, de beber e de andar - e permanece numa espécie de suicídio passivo.         

  Tal como passivos estão os protagonistas, ensaiam a evasão sem abalo, nem alvoroço. Apenas resignação e espera. Não há um sorriso, mas também não há um gemido de aflição. Só as usanças que se praticam no quotidiano. E as coisas que vão acontecendo até podem parecer um bocado místicas, apocalípticas, até, mas Nietsche anda definitivamente por aqui. Não há rezas, nem rogos. Apenas se pragueja, casualmente, sem excessiva inquietação. A ignomínia de um cavalo espancado do prólogo oral continuará a contaminar o filme até ao fim. E o ateísmo feroz do filósofo alemão também: "Deus está morto mas o seu cadáver continua insupulto".