Maria caminha de mão dada com a mãe numa praceta de uma urbanização em Portalegre. "Lembras-te quando vinha para aqui brincar com o triciclo?" A pergunta da criança de sete anos provoca desconforto em Elsa Geadas, 38 anos, que acena com a cabeça e deixa escapar um sorriso triste. Maria apercebe-se do desconforto da mãe, segura-lhe no braço. "Não faz mal, agora estamos melhor", diz.

Em janeiro de 2007, a ex-promotora imobiliária concretizou o sonho de ter habitação própria, ao mudar-se com o marido e os três filhos para um apartamento novo. "Tinha lareira, era muito confortável. Nunca imaginei que a casa se transformasse no maior problema da minha vida", diz, enquanto olha para a janela do primeiro andar onde viveu com a família.

Hoje, Elsa está divorciada, desempregada, e vive num modesto apartamento arrendado, no centro da cidade. A história desta mulher tornou-se numa referência para os cerca de 800 mil portugueses que têm a prestação da casa em atraso - no primeiro trimestre deste ano, foram devolvidos 25 imóveis por dia aos bancos.

O sonho desta alentejana desvaneceu-se depois da mensalidade do seu crédito à habitação ter subido de 486€ para 693€ em apenas um ano. Quando já estava desempregada, informou o banco que não conseguia assegurar as prestações. "Vivia num apartamento maravilhoso e tinha o frigorífico vazio."

Em agosto de 2008, decide entregar a casa e, três meses depois, o imóvel foi leiloado em hasta pública. Não surgiram compradores. "O banco ofereceu apenas 82 mil euros, quando em 2007 a casa tinha sido avaliada em 138 mil euros!" Ou seja, o valor do apartamento não era suficiente para liquidar o empréstimo.

O caso acabou por ser resolvido pelo tribunal de Portalegre. Em maio, o juiz deu razão à mãe de três menores, numa sentença que teve consequências no setor bancário e político - vários partidos apresentaram propostas com o objetivo de aliviar a situação das famílias que ficam reféns das próprias casas.

"Hoje tenho noção de que cometi um erro", confessa Elsa. "Na altura pensei que se toda gente pedia dinheiro para comprar eu também o podia fazer. Enganei-me."

O sonho de Elsa era partilhado por milhões de portugueses. Na última década, a construção de novos alojamentos continuou a crescer e atualmente existem quase 6 milhões de casas para 10,5 milhões de habitantes. Se recuarmos e analisarmos o período entre 1991 e 2011, o fenómeno assume proporções mais expressivas: nessa década foram construídos 1,5 milhões de alojamentos. Ter casa própria tornou-se numa obsessão, num cliché social: 73 por cento das casas são habitadas pelos proprietários, valor em linha com a média da União Europeia.

A influência americana

Sandra Marques Pereira tem dedicado grande parte do seu tempo a estudar o fenómeno da habitação. A sua tese de doutoramento avalia o comportamento das "novas classes médias" e dos portugueses enquanto proprietários. "Há dois fatores que influenciam muito a relação das pessoas com a casa: a época em que nasceram e o grupo social a que pertencem", refere a socióloga do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. "Todas as gerações, que durante anos migraram do meio rural para as áreas metropolitanas, viviam em condições de habitabilidade muito más. As casas não tinham água, eletricidade, casa de banho..." Isso afetou, segundo a especialista, a forma como a habitação passou a ser valorizada. "Essas pessoas hoje vivem em alojamentos com mais qualidade, e dão importância a esses detalhes."

O mesmo não acontece com quem comprou casa durante o boom da construção. "Nesse período, que começa depois de 1985, o acesso à propriedade banaliza-se. As novas gerações têm uma noção mais pragmática da habitação."

Só a partir dos anos 50 é que se tornou possível ser proprietário de um apartamento, pois só nessa altura é que foi criado o regime de propriedade horizontal - até então só se podia ser dono de um prédio ou de uma moradia. "Nos anos 60 surge o acesso muito condicionado ao crédito à habitação, na década seguinte nota-se o impacto do crédito bonificado com o apoio do Estado, mas o ponto de viragem acontece com a entrada na União Europeia e o aumento da competitividade entre os bancos", explica Sandra Marques Pereira.

O psicólogo social José Palma acrescenta outro detalhe: "Nos últimos 20 anos passámos a ter uma ideia identitária da casa, algo que se via muito nos filmes americanos", explica o especialista em urbanismo. "A habitação contribuiu, tal como o carro, para a definição do estatuto social das famílias. Ser dono de uma casa tornou-se numa espécie de bilhete de ingresso no grupo da classe média."

Um milhão de casas secundárias

"Espaço e liberdade" - foram esses os principais argumentos que levaram Ana, 55 anos, e José Marques, 59, a trocar um apartamento por uma casa com jardim a poucos quilómetros do mar, na Charneca de Caparica. Em Portugal existe um número especialmente elevado de moradias - 62 por cento do total de alojamentos. A média europeia é apenas de 57%.

Na altura em que tomaram essa decisão abdicaram dos fins de semana no parque de campismo, rotina que mantinham há mais de 10 anos. "Vendemos a caravana, um pequeno barco, e utilizámos o dinheiro da mensalidade do campismo para pagar a casa nova", explica José Marques, praticante de mergulho subaquático. "Uma casa com estas características foi importante para a adolescência das nossas filhas [Cátia, 33, e Vanessa, 26]. A cave foi transformada num salão de festas onde elas passavam grande parte do tempo com os amigos", recorda Ana Marques. No início da década, o casal seguiu o exemplo de milhares de portugueses e decidiu comprar uma casa de férias no Algarve. O apartamento em Ferragudo foi encarado como um investimento. "Considerámos que estávamos a constituir um mealheiro para as filhas e para os netos", explica Ana Marques. "Fomos também influenciados por alguns amigos que decidiram investir na mesma altura." Refira-se que quase 40 por cento das casas algarvias são utilizadas apenas nas férias.

A última década confirmou a importância que a segunda habitação tem na vida dos portugueses - o número já ultrapassou um milhão, o que representa um crescimento de 22 por cento. A região centro e norte são as zonas do País onde existem mais casas secundárias. O psicólogo José Palma explica porquê. "Por razões emocionais, as pessoas gostam de recuperar e manter a casa de família, normalmente situada numa aldeia", explica o professor universitário. "A casa de férias no Algarve tem um significado mais prático e está relacionado com um fenómeno de massas que se verificou na sociedade portuguesa."

José Marques não hesita quando lhe perguntam sobre a habitação que considera mais importante. "É a dos meus pais, em Ansião", responde. "É aí que conseguimos juntar toda a família. Curiosamente, as minhas filhas dão mais valor a essa casa do que à moradia onde cresceram."

Alimentar o sonho

Maria Emília Borralho, 62 anos, herdou mais de uma dezena de imóveis espalhados por Lisboa e Caparica. Quase todos com rendas antigas. Poder-se-ia pensar que se trata de uma feliz proprietária. Mas não é esse o caso. "Estou a tentar vender tudo! Neste país, é um pesadelo ser senhorio, não aguento mais", diz.

Atualmente, restam-lhe cinco andares num prédio da Amadora, que em tempos já foi seu, e um apartamento de luxo que comprou em 2004, em Cascais, o único que não lhe dá dores de cabeça. "A lei do arrendamento é criminosa, serviu para os partidos políticos ganharem eleições, e prejudicou as pessoas que precisavam de casa", reclama Maria Emília. "Os senhorios foram substituídos pelos bancos, que fazem 'arrendamentos' a 40 anos. Mas nesses casos, quando os inquilinos não pagam, são despejados de imediato." Maria Emília Borralho já instaurou cinco ações de despejo - uma, demorou 11 anos a resolver.

No início de julho foi aprovada no Parlamento a nova lei do arrendamento, apesar do voto contra de toda a oposição. O diploma, entretanto já promulgado por Cavaco Silva, prevê a atualização das rendas celebradas antes de 1990 com base em 6,7% do valor tributário do imóvel e a criação de um Balcão Nacional para acelerar os despejos de inquilinos incumpridores. O diploma pretende agilizar um mercado que está estrangulado há vários anos. Luís Lima confessa-se ansioso por uma mudança no setor. "É preciso devolver a confiança a quem investe neste mercado. As famílias que procuram casa vão ser as primeiras a beneficiar com isso", explica o presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal. "É verdade que durante anos todos incentivámos a compra de casa, mas olhe no que isso deu. Se nessa altura já existissem rendas mais acessíveis, de certeza que as pessoas teriam tomado outras opções", acredita Luís Lima. "Na última década, e para surpresa de muita gente, diminuiu o número de famílias que arrendou casa. Isso tem de mudar." Atualmente, apenas 19,7% das casas são arrendadas. "Na década dos meus pais investia-se com o objetivo de arrendar, hoje isso já não acontece."

Miguel Poisson, diretor-geral da ERA, traça uma imagem nítida do estado em que se encontra o setor imobiliário. "Em 2007, os bancos emprestavam 1 700 milhões de euros por mês em crédito à habitação, atualmente ficam-se pelos 150 milhões". Apesar dos constrangimentos financeiros, e da catadupa de notícias sobre a dificuldade que milhares de famílias sentem em pagar a prestação da casa, os portugueses continuam a alimentar o sonho. "A maioria dos clientes que entra nas nossas lojas ainda tem como primeiro objetivo a compra."