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GALERIA DE FOTOS: UMA FAMÍLIA XL


INFOGRAFIA: FAMÍLIAS RECOMPOSTAS

À mesa do pequeno-almoço, um casal, cinco filhos e conversas cruzadas. "Sonharam muito?", "Eu vou ganhar-te a comer!" É uma casa portuguesa, com certeza. Porém, qualquer semelhança entre uma família tradicional numerosa e a realidade dos protagonistas é pura coincidência. Os adultos são divorciados e vivem em união de facto há ano e meio, nas Laranjeiras, em Lisboa. Marília Afonso tem 40 anos e é mãe de Leonor e Tiago. Pedro Maranhas, dois anos mais novo, é pai de Mariana, Miguel e João. Ambos partilham responsabilidades parentais com os seus ex. Quanto aos "irmãos emprestados", com idades entre os 4 e os 11 anos, vivem em casa das mães e passam fins de semana alternados na dos pais. Para o casal, este é o fim de semana "com" (os filhos), o próximo será "sem".

As famílias recompostas, como a de Marília e Pedro, vieram para ficar. O número de casamentos em que pelo menos um dos cônjuges tem filhos de uniões anteriores aumentou 10% em 14 anos. A par desta tendência, a conjugalidade informalizou-se e, segundo sugerem as estatísticas demográficas, a coabitação instituiu-se, sobretudo após primeiros e segundos divórcios e nos grupos mais qualificados da população.

A recomposição familiar envolve um maior grau de complexidade e muitos acertos. O relacionamento entre os parceiros e os ex, a educação dos "meus" e dos "teus" e a gestão do papel de madrasta e padrasto são apenas alguns deles.

Afinar o tom

"Tu ficas ali a estudar e vocês vão lavar os dentes e vestir-se." Ele lava a loiça e ajuda na arrumação dos quartos. Ela orienta os cinco na divisão de tarefas e junta-se a ele nas lides domésticas da manhã. O caos organizado acontece também durante a semana, com os empregos, as aulas e as atividades extracurriculares (a ginástica mista de Leonor e Tiago e a equitação de Mariana, Miguel e João, acompanhadas de perto pelos ex do casal).

Quando a designer e o informático decidiram viver a dois, a residência de Pedro foi totalmente remodelada. Na hora de arrancarem as obras, chamou os filhos e fez, ali mesmo, o corte com o passado: "É a última vez que estão a ver esta casa; quando voltarmos e a porta for aberta, será outra." Das cinco assoalhadas, duas são para os quartos dos rapazes e das meninas, respetivamente. Durante a semana, ficam por conta dos filhos dela. Quando os anteriores residentes chegam, o espaço é dividido com eles, cada um com a sua cama. Marília adaptou-se a cozinhar e a tratar da roupa em doses XL, mas não só: "Eles aprenderam as nossas regras. O Tiago e a Leonor tiveram de abrir o coração para os outros três e de aceitar serem tratados sem exclusividade."

A sintonia dos "famosos cinco" está sujeita a oscilações, mas funciona. "Alguém chateia-se e quer fazer as coisas à sua maneira", atira Tiago. "Nós zangamo-nos e depois falamos", acrescenta Miguel. Com Leonor e Mariana, o registo é parecido: "Discutimos mas fartamo-nos de estar sozinhas e acabamos por fazer as pazes." Caso contrário, resta sempre o plano B, adianta Pedro: "Não tenho qualquer problema em chamar a atenção, às vezes há uma conversa, um castigo, como em qualquer família." Nesta, como noutras questões, a máxima "uns são filhos e outros são enteados" não se aplica.

Pais 'tiranos'

A ginástica familiar, praticada no quotidiano dos sete está longe de representar a realidade portuguesa. "A forma como o padrasto se posiciona tem muito a ver com o grau de liberdade dado pela mulher para ele se comportar de determinada maneira", avança a socióloga Susana Atalaia Ferreira. Num estudo sobre a parentalidade em sistemas recompostos, com base em 30 entrevistas a padrastos, a doutoranda do Instituto de Ciências Socais constatou que "a autoridade é uma questão a negociar, logo no início da relação". Quando assim não é, a competitividade, a usurpação de papéis e o conflito entre adultos são o desfecho mais comum, em vez da desejada integração e proximidade: "O convívio entre os ex restringe-se às festas da escola e, com frequência, são os miúdos a dividir-se entre espaços."

A regra do exercício conjunto de responsabilidades parentais, consagrada pela lei do divórcio, em 2008, trouxe mais poder ao pai. Mas também novas tensões no casal recém-formado. A afirmação é do terapeuta familiar José Gameiro: "A mãe quer que o companheiro - e padrasto - se mexa, mas se ele o faz, ela tira-lhe o tapete e reprova-o. E ele 'cai' em cima dela." A agravar o cenário, acrescenta o autor de Os Meus, os Teus e os Nossos (1998), os conflitos entre os miúdos e os novos parceiros dos pais: "Não chegam a criar um vínculo com alguém que não escolheram e, principalmente os mais velhos, ameaçam 'vou para o pai', 'vou para a mãe'."

A nova lei também trouxe mais poder aos filhos que, aos 12 anos ou menos, são ouvidos pelo Ministério Público quando há dúvidas sobre a fixação da residência ou se houver problemas com a guarda parental. Gonçalo de Mello Breyner, procurador no Tribunal de Família e Menores de Cascais - um dos municípios com mais população divorciada - confessa-se surpreendido com a conflitualidade entre casais representados por advogados: "Verifico menos disposição para acordos e uma cultura do macho latino, do pai só com direitos e sem deveres, mais visível nos extratos economicamente favorecidos."

Transições

A consolidação do papel da mulher no mercado de trabalho e a crescente dissolução dos casamentos marcaram a última década. Marília e Pedro constam dessa estatística. Comunicar uma separação definitiva aos filhos não é tarefa fácil, mas foi feita sem dramas. "Dissemos-lhes que já não havia a mesma relação e íamos viver separados, mas não deles.

Aceitaram, porque lhes explicámos o porquê", esclarece Marília. As crianças passaram a estar com o pai, na Portela, aos fins de semana, e as de Pedro ficam com a mãe, em Odivelas.

Mudança de vida. Mudança de casa. Mudança de escola. Curiosamente, os miúdos de ambos frequentavam a academia de música de Santa Cecília, em Lisboa. Aí permaneceram até final do ano letivo. Aí se conheceram os seus pais, numa festa feita para os alunos, sem imaginarem que formariam um casal.

Desconhecendo também o que o futuro lhes reservava, as amigas Mariana e Leonor, que se tratavam por irmãs, despediram-se a custo. "Quando chegava à noite eu chorava e tinha saudades, e todos os dias tentava recordar. Foi muito difícil habituar-me às outras amigas", conta Mariana.

Mas a separação foi curta. As "colegas-irmãs" são hoje "irmãs-emprestadas". Agora, patinam aos sábados à tarde em família, nas Docas de Lisboa, com o resto do grupo. E a sonharem alto e em coro: "Nós os cinco pedimos aos pais outra mana e até escolhemos. Tem de ser loira, de olhos azuis e com caracóis!"

Enfim, sós

No conforto do amor doméstico, em regime quinzenal, a música que se toca é outra. O desejo de lugar para mais um numa carrinha para sete, por agora, não passa disso. Gerir carreiras, afetos, e formas de educar está longe de ser um percurso isento de obstáculos. Mas este casal não se fica por aqui. A troca de alianças, pelo civil, está marcada para julho.

O futuro não os assusta, pelo menos para já. Apesar das nuvens negras que ensombram o tal "nós", de que tanto falam os números e os especialistas. "Hoje, há pessoas separadas de facto a residir na mesma casa por terem dívidas comuns", lembra Carlos Poiares, psicólogo e fundador da PsiJus, associação que junta psicólogos e juristas. E prossegue: "Outras divorciam-se juridicamente para fugir a penhoras e outras, ainda, mantêm-se legalmente casadas por motivos fiscais." Os números apurados até agora, pela Direção-Geral da Política de Justiça, indicam uma quebra de 6,8% do número de divórcios em 2011, embora se mantenha a equação "um divórcio por cada dois casamentos".

Nem a crise nem as estatísticas afligem o casal apaixonado. "Não é por nos magoarmos uma vez que temos de resistir, até porque as cicatrizes são vitórias", sintetiza Marília, abraçada ao noivo, no sofá. Eles já têm casa, mas insistem em casar.