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O tuga emigra

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - o “tuga emigra” é todo um conceito por si só. Não é apenas o português que “emigra ou sai da sua região ou do seu país para se estabelecer noutro”. Nada disso

Nunca compreendi expressões, ditas por amigos emigrados, como “os tugas” ou “o emigra”. Sempre as considerei abreviaturas com conotação depreciativa, a roçar o foleiro. Mas, não estando mergulhada no mundo da emigração, nunca opinei sobre o assunto. Agora que aqui estou, mergulhada a largos metros de profundida, sinto-me em posição de poder debruçar-me sobre o assunto, que de depreciativo nada tem.

Comecemos pelo início. No caso do emigrante português, estes conceitos não podem estar separados porque a sua junção é absolutamente extraordinária. O dicionário de língua portuguesa define “emigra” como sinónimo de “emigrante”. Até aqui, podemos aceitar. Agora, o “tuga emigra” é todo um conceito por si só. Não é apenas o português que “emigra ou sai da sua região ou do seu país para se estabelecer noutro”. Nada disso.

O “tuga emigra” é todo um mundo dentro da emigração. É aquele que incorpora os hábitos dos emigras, os traços da mistura das culturas, dos hábitos e tradições. Vamos retirar as aspas, e abraçar o conceito. O tuga emigra é um emigrante cheio de orgulho quando fala de Portugal, mas também o é quando fala da terra que o acolheu. O tuga emigra fala mal de Portugal, mas ai de alguém que lhe diga que Portugal não é o melhor país do mundo. O tuga emigra fala mal da nova terra, do novo país, mas cale-se quem nunca lá viveu, porque não sabe nada, nem tem direito a opinar.

O tuga emigra, com todo o gosto, já confunde o português com inglês, ou com a língua local. Esquece conceitos e dá por si a tentar traduzir palavras que já só lembra em inglês. Nessa salgalhada não lhe estranhem, por isso, quando em Portugal manda para o ar uma ou outra palavra em inglês a meio de uma frase, ou no pedido numa pastelaria. Na verdade, não é exibicionismo ou “mania que fala inglês”, é quase uma deficiência adquirida por defeito.

Mas o tuga emigra é mais. O tuga emigra partilha orgulhosamente uma fotografia no seu instagram sempre que encontra Super Bock à venda! Faz até uma festa. Assim como com qualquer outro produto alimentar. Nas visitas a Portugal, o tuga emigra perde HORAS no Modelo, Continente, Pingo Doce e derivados, fascinado e saudosista com a variedade de produtos. Vocês já viram bem aquele corredor interminável de iogurtes? E os tipos de pão? É que o tuga emigra sabe que não há pão como o nosso!

E cuidado se, do lado de cá, o tuga emigra encontra um chinês com a camisola do tão nosso CR7 ou da selecção nacional. Quase que nos pára o coração. É orgulho, olhos a brincar e sorrisos rasgados. E se no meio da Indonésia nos dizem “Kitiano Uonaldo”, dá direito a selfie com o miúdo que conhecia o nosso puto maravilha.

O tuga emigra vai mais longe e ignora o fuso horário e mete o despertador para as 4 da manhã para ver o Benfica! Se é a final, então um bar qualquer da terra sabe que terá de passar o jogo porque a malta tem de festejar.

Nos lanches, os tremoços não faltam. E quando faltam, o emigra traz de Portugal, ao lado do azeite do pai e o bacalhau que a mãe separou. Há sempre espaço para uns docinhos e outros tantos petiscos. É que até pode haver tudo aquilo na terra que lhe dá o ganha-pão, mas nenhum sabor lhe sabe tão a casa.

O tuga emigra partilha longas tardes de lanches e almoços tardios, adora uma boa esplanadinha, e há falta de melhor, o banquinho da rua chega-lhe. E se este ano não partilhaste fotografia do boletim de voto antecipado, é porque não és tuga emigra digno de carregar ao peito esse nome. Aliás, o tuga emigra escreve sobre o orgulho de ser tuga emigra, if you know what I mean!

E, agora, longe de definições e generalizações que nada mais servem para nos divertir, o emigrante português têm me ensinado que a sua capacidade de trabalho está acima da média, que consegue fazer casa em qualquer lugar do mundo, mesmo quando lhe fecham as portas, mesmo assim, ele vai à volta. Que na mesa não falta espaço para mais um, e outro e quantos forem precisos. Que a sua grandiosidade está nos braços abertos. E que o orgulho pelo seu país só o torna mais digno no respeito pelas suas raízes.

Pai prepara o azeite, mãe, compra-me aquele lençol com o teu cheiro, este Natal vou a casa!

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.