Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Mobilidade internacional: a aventura de mudar de casa mudando de país

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

Dar baixa da água, luz, gás, telefone, internet, o que for que tivermos contratado. Gastar os pontos que temos do clube de fidelidade do supermercado. Cancelar o seguro de saúde? Fechar ou não fechar a conta bancária? Arranjar uma alma caridosa que fique com uma procuração para resolver algum cabo solto se for preciso. Tudo no último mês, senão nas últimas semanas

Sempre me disseram que três meses era o tempo adequado para preparar uma mudança internacional.

Desde, pelo menos, 2011, que sonho em fazer uma espécie de sabática cada vez que me encontro entre países ou entre trabalhos. Um a três meses, nada de muito ambicioso, mas a realidade, passados oito anos e três países, resumiu-se a um fim de semana em Bilbao, sete dias na Amazónia em que três pessoas acabaram com o Gin do bar no eco-lodge ao fim de dois dias, tudo em nome da profilaxia da malária (épico!) e, por último, uma semana em Punta del Este com os miúdos. E não foi bom? Foi! Mas o plano inicial é sempre tãaao mais ambicioso. A sabática terá de esperar...

Há um momento especifico no tempo que põe toda esta máquina em movimento. Que te enviem finalmente a carta-oferta assinada ou algo mais prosaico, como o prazo de pré-aviso a dar ao senhorio. A partir daqui é uma corrida contra o tempo tal qual Jack Bauer da mobilidade internacional.

Nos primeiros dois meses assina-se a carta oferta, dependendo se é uma transferência ou uma mudança de trabalho, há aquela reunião com os RH para comunicar que nos vamos embora e dar o pré-aviso. Avisar também a empregada doméstica e rezar para que ela não procure logo trabalho e se vá embora antes. Usar toda a nossa lista de contactos para encontrar um novo trabalho para a empregada porque não queremos que se vá já embora, mas também não queremos que fique mal depois de nós nos irmos embora... Se houver vistos de trabalho para tratar é o momento de andar a pedir apostilhas e traduções oficiais dos títulos académicos (a sério; o meu diploma da universidade parece uma caderneta de cromos!), contactar com a empresa de mudanças e fazer as visitas de inventário para calcularem os metros cúbicos e o custo da mudança. Mesmo que se decida vender o que se tem para não levar na mudança, há coisas que não se podem vender até ao último momento como uma cama ou um frigorífico. É nesse momento que te dás conta de que o passaporte de um dos miúdos está quase a expirar. Bolas, e eu que sou tão organizada com estas coisas das papeladas e agora tenho mais esta para resolver antes de ir embora! Vai-se muitas vezes ao Consulado nestes últimos meses. É nesse momento que te dás conta de que não geres a despensa da forma mais eficiente.

Passámos os últimos dois meses no Chile a comer sopa de lentilhas, é o que vos digo. E isto depois da experiência no Brasil e de ter jurado que não voltaria a chegar ao final com bolsas de supermercado suficientes para alimentar uma família durante um mês. Também já recebi muitas “bolsas família” e até roupa para os miúdos de amigos que se foram embora antes de nós. Diz que é uma espécie de cadeia da amizade dos fundos de despensa entre expatriados. É nesse momento também, em que andamos nas limpezas de armários e pequenas vendas para “adiantar trabalho”, que o meu filho mais velho me pergunta se nós também vamos vender os brinquedos e me cai a ficha de que para eles a mudança de país não é a aventura bonita que lhes (nos) tentámos vender e que não se iam ter que preocupar com nada (afinal os adultos é que têm preocupações e problemas para resolver). Tal como nós, eles sentem uma mistura de medo, expectativa, ansiedade e excitação. Somos grandes fãs da Conni (personagem da literatura infantil alemã) cá em casa e como os alemães parecem ter um livro de instruções para tudo, a nossa liebe Conni também se muda de casa e, se bem que não de país, pelo menos de bairro, de escola e faz ainda amigos novos. Posso dizer que esse livrinho nos foi de grande ajuda, principalmente nos dois dias da mudança propriamente dita, em que tínhamos a casa literalmente cheia de caixas e meio que acampámos em casa na última noite. Tal como a Conni!

Procurar escola para os miúdos desde o outro lado do mundo é um filme e poderia escrever uma crónica inteira sobre a experiência. Dir-vos-ei apenas que as redes sociais se têm revelado de grande ajuda para famílias emigrantes como a nossa. Permitiu-nos chegar a amigos de amigos, falar com professores e perfeitos desconhecidos que amavelmente nos orientaram relativamente às opções de escolas disponíveis tendo em conta que íamos chegar no final do ano letivo no hemisfério norte, com a escola da rede a que pertencia a escola do nosso filho no Chile a dar-nos sopa para uma transferência e com os prazos das candidaturas para as escolas públicas a fechar.

A dica dos três meses é acertada, mas na prática, se tivéssemos que fazer uma carta Gantt disto, a maioria das tarefas e dos hitos concentram-se no último mês. Entregar a casa, fazer a vistoria com o senhorio, mandar pintar a casa (nalguns países é responsabilidade do inquilino e só depois é que se aceita a entrega das chaves). Dar baixa da água, luz, gás, telefone, internet, o que for que tivermos contratado. Gastar os pontos que temos do clube de fidelidade do supermercado. Cancelar o seguro de saúde? Fechar ou não fechar a conta bancária? Arranjar uma alma caridosa que fique com uma procuração para resolver algum cabo solto se for preciso. Tudo no último mês, senão nas últimas semanas. No final já não sabemos é onde encaixar a despedida com os colegas do trabalho, a dos amigos e a despedidas dos putos na escola...

No caso do Chile, como o sistema de segurança social é privado, é-nos permitido, mediante o cumprimento de alguns requisitos, retirar os fundos do plano de pensões chileno quando nos vamos embora do país. Também é possível levantar as contribuições para o fundo de desemprego. O melhor conselho que me deram quando se trata de países que estão ou muito longe (check!) ou que têm outras moedas vulneráveis a oscilações cambiais (check!) é: o dinheiro vai sempre contigo.

Como disse, para “rapar o tacho”, é preciso cumprir determinados requisitos e reunir uns quantos documentos. Não é difícil, mas é chato. No meu caso, o mais absurdo foi o meu fundo de pensões exigir que o meu diploma da universidade fosse traduzido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros chileno, o mesmo diploma que já estava traduzido e que o mesmo Ministério dos Negócios Estrangeiros já tinha aceite para me conceder o visto de trabalho to start with e posteriormente para me renovar o visto e o transformar em residência definitiva. Faça-se a nova tradução! Mais cinco dias com taxa de urgência que temos que contabilizar na nossa carta Gantt. E depois o fundo de pensões entregou o dinheiro, mas não por transferência bancária não senhor, por vale vista, uma espécie de cheque ao portador que tenho que ir levantar no banco X para depois ir depositar no meu banco Y, mais uma manha a desquadrar o timing disto tudo e o meu relógio à Jack Bauer a andar para trás. A estas alturas já não estou a pensar com claridade, entra-me a nostalgia e de repente parece-me tão importante levantar o fundo de desemprego como ir ao centrão comprar uns trajes típicos de recordação para os miúdos.

Nunca nos despedimos como convém dos lugares por onde vivemos. Como nós precisamos e como esses lugares mereciam. A verdade é que os últimos meses são passados numa voragem de trâmites administrativos e burocráticos. Até as despedidas acabam por ser um pouco a correr.

Três meses para sair e três meses para entrar. Se para fazer a mudança internacional são três meses, garanto-vos que para nos instalarmos no destino são outros tantos e talvez os meses mais duros, mas disso vamos falar para a próxima.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 1mês aproximadamente...

Nas notícias por aqui: Espanha vai de novo a eleições.

Sabia que por cá…. É praticamente impossível encontrar bolachas cracker tipo inglesas no supermercado. Só se encontra a versão salgada para aperitivos.

Um número surpreendente: O livro de memórias de Cayetano Martínez de Irujo, quinto filho da Duquesa de Alba, já vai pela terceira edição com 30.000 de exemplares vendidos.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.