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Há mar e mar

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João Pita Costa

LJUBLJANA, ESLOVÉNIA - Esse mar, trazemo-lo dentro de nós, cada um de nós, portugueses, independentemente do sítio onde nascemos. E quando nos vêm dizer que o Adriático é mar, fica tudo estragado. Não tem ondas, não é mar. Quase não tem marés e muitas vezes nem cheira a mar. Bom, de facto não é o oceano a que estamos habituados mas, sim, é mar. E é sobre isto que vos venho hoje falar.

Assistir ao nascer do sol num barco, atracado por entre as ilhas Kornati no Adriático é sem dúvida uma experiência fantástica, inesperada e inesquecível, que acorda o marinheiro que há em nós.
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Assistir ao nascer do sol num barco, atracado por entre as ilhas Kornati no Adriático é sem dúvida uma experiência fantástica, inesperada e inesquecível, que acorda o marinheiro que há em nós.

A presença de golfinhos no Adriático é comum, e um bom indicador da qualidade da água. A organização sem fins lucrativos Blue World oferece oportunidades de voluntariado para ajudar a esta nobre causa e permite até a adoção de um destes doces animais
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A presença de golfinhos no Adriático é comum, e um bom indicador da qualidade da água. A organização sem fins lucrativos Blue World oferece oportunidades de voluntariado para ajudar a esta nobre causa e permite até a adoção de um destes doces animais

O mergulho recreativo, no que foi alcunhado por Jacques Cousteau como o mar com as águas mais transparentes da Europa, é cheio de surpresas onde até já se descobriu em 2018 um barco romano com dois mil anos na costa da ilha Pag
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O mergulho recreativo, no que foi alcunhado por Jacques Cousteau como o mar com as águas mais transparentes da Europa, é cheio de surpresas onde até já se descobriu em 2018 um barco romano com dois mil anos na costa da ilha Pag

Navegar de barco à vela é um desporto comum no mar Adriático, praticado com regularidade anual por muitos eslovenos. Não é difícil encontrar quem tenha a certificação necessária para guiar uma embarcação destas e saber o suficiente para alguns dias bem passados com amigos no mar
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Navegar de barco à vela é um desporto comum no mar Adriático, praticado com regularidade anual por muitos eslovenos. Não é difícil encontrar quem tenha a certificação necessária para guiar uma embarcação destas e saber o suficiente para alguns dias bem passados com amigos no mar

Por vezes o tempo também faz as suas partidas e, embora mais suaves que no Atlântico, as tempestades no mar são sempre de meter respeito. Nestas ocasiões muito depende de que vento traz a tempestade. Se estiver no mar é melhor descer as velas e não se aproximar da costa para não arriscar que o barco seja empurrado contra as rochas.
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Por vezes o tempo também faz as suas partidas e, embora mais suaves que no Atlântico, as tempestades no mar são sempre de meter respeito. Nestas ocasiões muito depende de que vento traz a tempestade. Se estiver no mar é melhor descer as velas e não se aproximar da costa para não arriscar que o barco seja empurrado contra as rochas.

Todos os anos a empresa onde trabalho – XLAB – organiza uma regata parcialmente financiada para os seus colaboradores. Nestas viagens costumam ir duas embarcações de boa gente com um espírito de equipa excecional, prontos a trabalhar e aprender a manejar o barco. É um desporto nacional muito apreciado pelos Eslovenos e pelos seus vizinhos Croatas e Italianos com quem partilhamos o Adriático. Aliás, com a ISL Online a bordo ninguém precisa de ficar a trabalhar no escritório.
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Todos os anos a empresa onde trabalho – XLAB – organiza uma regata parcialmente financiada para os seus colaboradores. Nestas viagens costumam ir duas embarcações de boa gente com um espírito de equipa excecional, prontos a trabalhar e aprender a manejar o barco. É um desporto nacional muito apreciado pelos Eslovenos e pelos seus vizinhos Croatas e Italianos com quem partilhamos o Adriático. Aliás, com a ISL Online a bordo ninguém precisa de ficar a trabalhar no escritório.

Uma parte do turismo das ilhas croatas, especialmente das mais pequenas e pouco acessíveis, vem das tripulações internacionais de marinheiros de fim de semana que se juntam ao fim do dia no restaurante-bar em frente à marina para trocar histórias de aventuras passadas
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Uma parte do turismo das ilhas croatas, especialmente das mais pequenas e pouco acessíveis, vem das tripulações internacionais de marinheiros de fim de semana que se juntam ao fim do dia no restaurante-bar em frente à marina para trocar histórias de aventuras passadas

 O meu batismo de vela foi já há vários anos com uma tripulação portuguesa (à exceção do professor) e bons amigos num fim de semana para não mais esquecer. A nossa bandeira pôde ser hasteada, sim, desde que abaixo da bandeira Croata
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O meu batismo de vela foi já há vários anos com uma tripulação portuguesa (à exceção do professor) e bons amigos num fim de semana para não mais esquecer. A nossa bandeira pôde ser hasteada, sim, desde que abaixo da bandeira Croata

Infelizmente é mais e mais frequente, também no Adriático, encontrar plásticos no mar que prejudicam a vida marinha e ameaçam a existência destes paraísos ainda por descobrir. A obra artística da figura, um peixe totalmente feito com plásticos encontrados no mar, lembra-nos disso e recebeu este ano os visitantes do Dia Marítimo Europeu em Lisboa (do qual fiz parte, uma história para outro dia)
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Infelizmente é mais e mais frequente, também no Adriático, encontrar plásticos no mar que prejudicam a vida marinha e ameaçam a existência destes paraísos ainda por descobrir. A obra artística da figura, um peixe totalmente feito com plásticos encontrados no mar, lembra-nos disso e recebeu este ano os visitantes do Dia Marítimo Europeu em Lisboa (do qual fiz parte, uma história para outro dia)

Um lugar comum às temáticas de saudades dos Portugueses espalhados pelo mundo é o mar. Sim, somos um país de aventureiros do mar, que é o nosso segundo vizinho para além da Espanha. Talvez por isso com ela partilhe muita da nossa História, entre glórias e tragédias que nos fazem quem somos hoje. E esse mar, trazemo-lo dentro de nós, cada um de nós, Portugueses, independentemente do sítio onde nascemos. E quando nos vêm dizer que o Adriático é mar, fica tudo estragado. Não tem ondas, não é mar. Quase não tem marés e muitas vezes nem cheira a mar. Bom, de facto não é o oceano a que estamos habituados mas, sim, é mar. E é sobre isto que vos venho hoje falar.

À medida que o tempo passa vai-se aceitando que o Adriático é mar, e até o chamamos mar. As praias não têm areia, talvez pela falta das ondas fortes que desfaçam as rochas. Os peixes são mais pequenos que os nossos - por exemplo a sardinha que nem chega a gorda, nem pinga no pão (a tragédia da primeira edição da Festa dos Santos Populares que realizamos em Ljubljana). Isto talvez devido à alta temperatura da água e pouca necessidade de gordura quando comparada a sua subsistência aqui com a do nosso oceano. Há até peixes que ficam a faltar à chamada, como por exemplo o comum peixe espada. Este mar é o mais transparente da Europa, já dizia o Jacques Cousteau. As condições para mergulho são excelentes e até é possível ver um barco romano afundado na costa da ilha croata Pag. E é comum ver golfinhos, um bom indicador da qualidade da água.

E como o Adriático se parece com um grande lago, a experiência de praia na Eslovénia e Croácia (que é o equivalente ao Algarve para os Eslovenos) é muito diferente da nossa. Pode-se nadar até lá longe sem problemas, e poucas vezes se vê bandeiras ou nadadores-salvadores. Faz-se muito desporto aquático (à exceção do surf, claro) e quase toda a gente já velejou ou o faz com frequência anual. Não é tanto um desporto de elite por cá. Há uma grande diversidade de marinas na costa croata e nas ilhas, e há bastante gente com o seu próprio barco. Nem sempre é comprado novo. Aliás, conhecem-se vários casos de barcos construídos em casa, na garagem, em que depois de pronto não cabia na porta, obrigando a demolir uma das paredes para aceder ao barco.

A experiência de velejar toca-nos o lado das descobertas, talvez. Especialmente quando se está no barco para trabalhar um pouco e usufruir deste contacto incrível com a natureza. As ilhas croatas da Dalmácia são por vezes como um rendilhado em que o barco se desloca ao sabor do vento. Diria que uma boa parte do turismo das ilhas, especialmente das mais pequenas, conta com os adeptos deste desporto. É uma parte de ser Esloveno (quase comparado com subir o Triglav), velejar o Adriático, acordar entre pequenas ilhas desertas da Kornati, e partilhar com outros um espírito desportivo e confraternizador. Talvez por isso seja palco de vários team building, onde as empresas ajudam a construir o espírito de equipa dos seus funcionários no mar. Na minha empresa - XLAB - há todos os anos uma saída com duas embarcações por quatro ou cinco dias. Todos trabalham, ninguém está lá só para ver os navios. E todos os que aderem estão muito confortáveis com o facto de fazer parte da tripulação.

E neste novo mundo interligado de forma remota, há até quem traga o trabalho a bordo para não ter que faltar a esta oportunidade. Ajuda o facto de desenvolvermos cá uma das melhores tecnologias de desktop remoto - ISL Online (representado em Portugal pela Imparpower) - que permite ter o seu posto de trabalho em qualquer lado do mundo de forma eficiente. Há já muito tempo que é líder de mercado, por exemplo, no Japão. A Eslovénia tem destas surpresas, apesar de ser pequenina, mas com melhores do mundo espalhados por várias modalidades (como o jogador Oblak já foi exemplo). Outro futuro campeão a destacar é Sentinel Marine, do meu colega Marko Pihler, que traz para o mundo das embarcações de recreio o conceito de barco inteligente (à imagem da casa inteligente) que utiliza os dados colhidos pelos sensores dos barcos ligados para melhorar a experiência de navegação. Fica o convite.

João Pita Costa

João Pita Costa

LJUBLJANA, ESLOVÉNIA - Doutorado em Matemática e editor da revista bilingue luso-eslovena Sardinha (www.sardinha.tv). Vive na capital eslovena desde 2007 e há vários anos que organiza eventos para promoção da língua e cultura Portuguesa. Chegou a Ljubljana há 10 anos para estudar e explorar os surpreendentes pontos de encontro entre as duas culturas. Trabalha em tecnologia, mas já esteve à frente da galeria de arte Tukadmunga, de um popular duo de música eletrónica, e ao mesmo tempo é marido e pai de um luso-esloveno que representa uma nova identidade na nossa Diáspora.