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Que fazer a gajos como eu?

Nós lá fora

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA - Acordo todos os dias feliz de estar vivo e funcional, constrangedoramente maravilhado com o mundo que me rodeia. Estou na idade em que estou melhor do que devia, sabendo mais do que devia, fazendo menos do que podia. E estou rodeado de gajos como eu. E agora?

Com a caixa de correio cheia de anúncios a transplantes capilares e lindas morenas russas disponíveis para casar, cheguei à idade em que se pode dividir o grupo de amigos em subgrupos de “gajos do whisky” (gordos e acabados), “gajos da cerveja” (gordos e semi-acabados), “gajos da coca-cola” (gordos e acelerados) e “gajos da água e do café” (magros, acelerados). Gosto muito de whisky, cerveja, não bebo coca-cola mas abuso claramente da água e do café. Casar com uma mulher doze anos mais nova obrigou-me a olhar para a senescência de forma proativa, não vá ela trocar-me por dois de 28. O cabelo é branco, mas ainda cá está. Tenho uma vida divertida, faço o que gosto e todos os dias acordo um bocadinho surpreendido por, tal como o cabelo, ainda cá estar. Lembro-me de aos 25 – por causa da minha propensão para a aventura – pensar que não passaria dos 30. E afinal...

Mas vejo que agora somos muitos, e somos cada vez mais. Gente, homens e mulheres, que por razões variadas estão a chegar aos 60 usados mas impecáveis. E não há sítio para nos arrumar. A população mundial está a crescer nuns sítios, mas a decrescer noutros; tal como em Portugal, aqui na Noruega cada vez há menos bébés e cada vez há mais velhadas em bom estado. Por isso assoma-me a pergunta, que me parece crescentemente estrutural com a população dos países ditos desenvolvidos a envelhecer a olhos vistos: que fazer a gajos como eu?

Intelectualmente, pertenço à geração que já viu muitas gerações de estranheza: a guerra fria, a guerra colonial, a televisão com os homens aos saltos na lua, o fim do status-quo, a descoberta da realidade da ditadura, o drama humano da descolonização, a queda do muro, a autofagia do capitalismo anos ’80, os medos mediáticos do fim de século, a televisão com aviões a entrar pelas Twin Towers adentro. Descobri que a economia é uma ideia transvestida de ciência (o que, estranhamente, veio a pôr em causa a ciência em vez de questionar a economia) e que tal como todas as ideias pode ser profundamente corrompida. Vivi várias modalidades de ultraje conceptual, mas foi preciso o advento do Facebook para perceber que o ultraje – um sentimento vetusto mas que costumava servir lindamente para corrigir trajectórias de comportamento social – era afinal o desporto mundial favorito de múltiplas gerações, mas na vertente espectador. Lentamente, numa idade antes caracterizada por um encostar ao ralenti ao lado mais conservador da vida, apercebi-me de que coisas que pensava resolvidas, como a misoginia ou o racismo, tinham voltado à superfície pela mão de sociopatas com aspirações a governar o mundo. Nunca pensei – depois de viver o dadaísmo absurdo (que em mim acordou um amor incondicional pela tranquilidade da paz social, mesmo que em troca de cargas fiscais debilitantes) do pós-25 de Abril – que chegado a velho pensasse, de forma cada vez mais colorida e insistente, que “a única solução é a revolução”.

O termo “encruzilhada” – um ponto onde múltiplos caminhos se cruzam para depois divergir – ocorre-me com frequência quando penso nas coisas que irão definir a qualidade de vida dos meus filhos e dos filhos deles. De momento, tal como nas estórias do Robin dos bosques, as encruzilhada parecem definir mais os pontos onde os viajantes se cruzam para ser assaltados.

Frequentemente oiço música, a única panaceia concomitante na história da humanidade. Tal como no restante, os anos mostram-me sinais de complexidade a tender para a complicação: o intervencionismo tonto dos cancioneiros pós-revolucionários deu lugar a um lirismo da impotência – um dos hinos mais belos que conheço, o “Que Parva Que Sou” dos Deolinda (https://www.youtube.com/watch?v=kGS7vAliIjI) , é também talvez o mais triste. Quando o ouvi pela primeira vez apeteceu-me escondê-lo dos meus filhos, na vergonha de lhes passar para as mãos um mundo assim. E, contudo, já lá vão oito anos.

Institucionalmente, não existo. As instituições de hoje estão-se nas tintas para os velhadas. Acordaram tardiamente para proporcionar paninhos quentes aos que vêm aí - que estudam-estudam-estudam, acabam o curso e saltam para outros países, para exercer profissões venais, frequentemente sem qualquer relação com a sua carreira académica. Os velhadas ativos, num mundo em que um jovem pode muito bem percorrer décadas pós-estudo sem um emprego decente, são simultaneamente um emplastro e um degrau, e o resultado redunda em ostracismo institucional. Estarmos profissionalmente em alta para lá dos cinquentas, sonega aos jovens a felicidade mais básica, que é a de ter meios de subsistência para criar uma família. Perdi de conta quantos jovens já vi passar dos vintes para os trintas e para os quarentas sem que conseguissem estabilidade financeira suficiente para ter filhos. E, contudo, os meus pares etários não param de criticar o influxo de emigrantes sem os quais não conseguiremos tapar o perigoso buraco social do crescimento demográfico negativo. Com que cara é que fico quando sinto que o lugar que consegui à custa de trabalho e afinação está a pôr em causa o futuro dos meus filhos?

Às vezes, quando oiço a minha geração a falar da vida, o meu cérebro entra numa ladaínha de “wtf” sequenciais e ininterruptos. Parece que sabemos bem de onde viemos, temos alguma percepção de onde estamos, mas não temos a mais ínfima noção de para onde vamos. O senso-comum e a análise factual objetiva são cada vez mais raros e embalamo-nos numa lengalenga de auto-comiseração com que justificamos não fazer nada para alterar o estado das coisas. Esgotamo-nos num ultraje vazio de conteúdo, espaventado no Facebook.

Acordo todos os dias feliz de estar vivo e funcional, constrangedoramente maravilhado com o mundo que me rodeia. Estou na idade em que estou melhor do que devia, sabendo mais do que devia, fazendo menos do que podia. E estou rodeado de gajos como eu. E agora?

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Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.