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E a regra é…

Nós lá fora

Bruno Sousa

"Aqui é mais importante a regra em si, do que o motivo para o qual ela existe". Bruno Sousa, em Darmstadt, na Alemanha, relata um episódio que quase terminou com uma colisão de bicicletas e o pôs a pensar na obsessão coletiva e "inflexível" com as regras "implícitas ou explícitas"

Vem esta crónica a propósito de um evento quase insignificante e negligível, que me aconteceu esta manhã, não fosse pelo facto de me ter posto a pensar nesta crónica. Aqui na Alemanha há 3 regras que é importante ter sempre presente:

1 – Seguir sempre a regra

2 – Não conhecer a regra não é desculpa para não a seguir

3 – Em caso de dúvida ver regra número 1.

Vinha eu de bicicleta, pelo passeio do lado esquerdo da estrada, chego ao largo do nosso bairro (que funciona como uma rotunda para o trânsito) e salto para a estrada e sigo em sentido inverso ao que seria esperado, para evitar ter que fazer 3 quartos da rotunda. Ora isto não é estritamente correcto, mas para as bicicletas, e dado que é dentro do bairro, é ainda aceitável (pelo menos muitos o fazem).

O problema é que vinha um senhor, mais velho que eu, na sua bicicleta nesse sentido no meio da via. Eu vinha encostado ao meu lado esquerdo e se o senhor tem seguido normalmente em frente (talvez com uma ligeira correção para a sua direita) tínhamos passado os dois sem qualquer problema e com imenso espaço. Mas ao ver-me, a reação dele foi virar para a sua direita, para que eu o passasse do seu lado certo. E com isto acaba paralisado à minha frente, quase colidimos (porque eu não estava à espera) e fica com uns olhos esbugalhados a olhar para mim. A sua reação não foi a instintiva de resolver rapidamente a situação e passar, a sua reação foi instintiva de obedecer à regra.

É claro que estritamente falando, a razão está do lado dele, e eu devia era calar-me, mas não me estou a queixar disso, estou só a levantar o ponto de que aqui é mais importante a regra em si, do que o motivo para o qual ela existe. A regra neste caso existe para evitar que colidamos uns com os outros, mas seguir a regra cegamente em todas as situações leva também a colisões, porque a regra não pode prever todas as circunstâncias em que vai ser aplicada. E é o discernimento e julgamento individual que permite decidir a aplicabilidade da regra a cada situação – alguns chamariam a isso ser Chico Esperto – mas não se trata aqui em ter alguma vantagem especial, mas simplesmente em decidir se faz sentido aplicar a regra, dadas as circunstâncias.

O extremo oposto é o Nepal onde estive de férias há quase 20 anos. Aí a regra era:

1 – Não há regra, boa sorte!

Andar de bicicleta em Kathmandu foi possivelmente uma das experiências mais radicais e perigosas da minha vida. As regras são decididas ao segundo em cada situação. Todos andavam em qualquer direção e businavam permanentemene para anunciar a sua presença numa cacofonia indistinguível. Era o caos absoluto, cada um por si e fé no Buda, e o trânsito andava sempre atulhado, também impossível.

Voltando ao senhor mais velho, já cá estou há anos suficientes para saber exactamente o que diziam aqueles olhos esbugalhados:

- Seu criminoso! Como se atreve a estar aí nesse sítio? Ainda por cima a obrigar-me a ter que parar e por o meu pézinho no chão? Você imagina o quanto isto me custa? E quanto tempo é que vai demorar até você se virar para o lado certo e sair da minha frente? Não lhe explicaram a regra? Se não explicaram, os meus olhos esbugalhados estão a soletrá-la neste momento, mexa-se!

E este ficou-se apenas pelo olhar mortífero, no outro dia, no meio de uma chuva torrencial, um motorista de autocarro, parou, abriu a porta e mandou-me para sítios muito feios porque aparentemente quase o abalroei com a minha bicicletinha. O leitor deve estar a ver aqui um padrão e a pensar que eu é que sou um péssimo ciclista. Há isso também. Mas há também uma guerra nas estradas da Alemanha entre automobilistas e ciclistas que já tem deixado algumas vítimas mortais, a maioria do lado dos ciclistas.

As regras dão predictibilidade na maior parte dos casos (excepto quando não dão). Os alemães, como os engenheiros, são grandes fãs de regras (é por isso que muitos alemães são engenheiros e são dos mais pedantes que se conhece). Têm também um dos códigos penais mais extensos do mundo (se não o mais extenso). Para tudo há uma regra, explícita ou implícita. E são muito inflexíveis. Nalguns casos, ao quebrares uma regra podes ter a “vítima” a perseguir-te para te vir explicar o que fizeste mal (ou, em situações domésticas, deixa-te um bilhete pendurado na porta de casa). Em especial os automobilistas são adeptos da ultrapassagem acompanhada de sinalética manual apropriada para te explicar que és um idiota quebra-regras que devia ser expulso da estrada.

A minha esposa, que é alemã, acha que é esta aderência cega às regras e inflexibilidade que permitiu que o país sucumbisse ao controlo do Nacional Socialismo nos anos 30-40 e colaborasse efectivamente com um sistema imoral. E continua, a meu ver, a ser uma das características que torna perigosa a emergência de governos que incluam partidos da extrema direita (neste caso AfD). A maioria dos alemães tem o coração e os valores humanistas no sítio certo, mas a vontade enraizada de cumprir as regras ditadas, é que poderia fazer as coisas descarrilarem. Estou atualmente em processo de adquirir a cidadania alemã para poder votar e para garantir que tenho a mesma nacionalidade que o resto da minha família. Mais vale prevenir... Enquanto isso lá vou quebrando umas regrasitas aqui e ali para os manter em alerta...

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.