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Com a boca cheia de dentes-de-leão

Nós lá fora

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA - Sinto com frequência que ultrapassei o prazo de validade na memória dos amigos que deixei em casa. Emigrar é uma espécie de ensaio para a morte; é muito divertido, quando volto a Portugal sinto sempre que sou uma espécie de fantasma que perambula inesperado pela vida das pessoas que costumavam fazer parte do meu quotidiano

Estão 3 graus, chove. As crianças jogam futebol na rua e as flores que delineiam os espaços públicos da nossa rua esforçam-se desesperadamente por atrair abelhas que não aparecem. A chuva cai no limpa pára-brisas em gotas esparramadas, de um esbranquiçado exclusivo desta temperatura liminar, um estado físico a oscilar entre o líquido e o semi-sólido. O mar está aconchegado no fjord, em silêncio. Que saudades sinto do Atlântico real. As abelhas não aparecem.

Esta é a semana das idiossincrasias. Na manhã de segunda, encontrei uma pequena bíblia que alguém rasgou, página a página, e espalhou pelo chão da nossa rua. Na tarde de terça estive a filmar num enorme vale, aluviões velhos enquadrados pelo drama geológico de glaciares recentes; durante todo o dia, até perder de vista, o ar esteve repleto de dente-de-leão a esvoaçar por todos os lados, sob o desígnio de um vento ameno que se divertia a imitar uma tempestade de neve, mas em quente. Na quarta, profundamente confuso pela hora a que o sol se põe nesta altura do ano, dei por mim a remar pelo fjord fora muito para lá das onze da noite. Na quinta – bem, na quinta não aconteceu nada, o que por si já é idiossincrático. Na sexta o meu amigo André deu-me para a mão a provar uma cerveja com sabor a pepino.

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Li com interesse epidérmico uma das crónicas de uma das co-conspiradoras desta rubrica de nós cá fora, “nós lá fora”. Queixava-se - com razão e do outro lado do mundo - de que nós, os emigrantes de longa data, estávamos a desaparecer da memória dos que aí (em Portugal) ficaram. Sinto com frequência que ultrapassei o prazo de validade na memória dos amigos que deixei em casa. Emigrar é uma espécie de ensaio para a morte; é muito divertido, quando volto a Portugal sinto sempre que sou uma espécie de fantasma que perambula inesperado pela vida das pessoas que costumavam fazer parte do meu quotidiano. As pessoas que vou encontrando fazem invariavelmente uma cara de quem se sente um bocadinho assombrado quando me vê, como se a minha aparição inesperada questionasse as leis da física. Imagino que mais cedo ou mais tarde comecem a gritar de susto quando me virem. Vai ser demais.

Vou a Portugal. Tenho imensas saudades do meu país, do seu cheiro vertiginosamente orgânico, do sol que esturrica tudo, do barulho da nossa língua, do aplauso espontâneo com que o mar reage quando se apercebe de que chegou à praia. De Lisboa à noite, do rio de madrugada, das coisas boas que se derretem na boca. Dos olhos a piscar sobre sorrisos abertos, dos “que ganda merda”, dos “que ganda pinta”, dos “bora aí”.

Eu posso ter ultrapassado o prazo de validade, Portugal é à prova de tempo.

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Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.