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A bipolaridade de Macau

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - Por aqui as pessoas falam alto. Não consigo explicar porquê, mas berram quando estão felizes e quando estão infelizes. Berram por tudo e por nada. Utilizam o mesmo volume quando falam com alguém que está a dois metros de si, como a 20 ou 200

Claudia Garradas

Vocês não me conhecem, não me conhecem as manias e os hábitos, mas quem me conhece sabe uma coisa: ando sempre de phones nos ouvidos. Com ou sem música, o maldito aparelho de som está ali preso às orelhas. No trabalho, na rua, a conduzir (sou responsável, só coloco um e normalmente estão desligados), nas compras, em qualquer afazer do quotidiano e até no centro de saúde. Ando sempre de phones e não é porque seja uma apaixonada por música. Gosto, é certo. Mas muitas vezes os aparelhos assumem apenas a função de tampões dos ouvidos. Para abafar o barulho lá de fora.

Macau é barulhenta. E nós humanos, só conseguimos perceber a importância do silêncio quando dele estamos privados. Dou por mim a colocar a minha mãe a questionar-se sobre a minha saúde mental, tal é a contemplação que faço ao silêncio quando vou a Portugal. Porque se há coisa que adoro é o seu silêncio. Mesmo na rua, mesmo no trânsito, mesmo nos hipermercados, supermercados e mercadinhos. Mesmo nos restaurantes, na praça do peixe em Aveiro ou no Terreiro do Paço em Lisboa. Há silêncio por todo o lado. Em Macau, tento procurar sítios sem pessoas. Bem, pelo menos com poucas pessoas. Locais isolados, de preferência junto à água. Mas, admito, há dias em que uma sala à prova de som seria um presente dos céus.

Quando me mudei para a casa onde vivo atualmente, na altura partilhada por três amigas, tive o privilégio de ser a primeira a poder dormir lá. Eram 23h30, abri as portas da varanda e emocionei-me com o silêncio. Lá fora, alguém passeava o cão e mais à frente um casal despedia-se com um longo abraço. Não sei quanto tempo estive ali. Foi muito. Deu tempo para o meu corpo relaxar, para o meu cérebro ter um pouco de descanso. Um ou outro carro passava, mas tudo parecia ser pequeno perante a presença daquela paz. No dia seguinte, uma sexta-feira, ainda com dificuldade em acreditar que arranjara uma casa longe do barulho, voltei à varanda e ouvi o cantar matinal de alguns pássaros.

Teria sido um feliz presságio se a minha contemplação não tivesse sido interrompida pelo barulho de um berbequim a destruir uma parede que me parecia ser dentro da minha casa. Confiem em mim quando vos digo que vivo há três anos naquele prédio e há três anos que ele está em obras. Se não é o apartamento da frente é o de baixo, se não é o de baixo é o lado esquerdo, ou o do direito. É no sexto andar, no décimo oitavo, no vigésimo. Não interessa. Há obras. Obras que segundo a lei local podem acontecer todos os dias a partir das nove da manhã, excepto domingos e feriados.

Não adianta. Temos de aceitar, Macau é barulhenta. Por aqui há barulho por todo o lado, a toda a hora. São os carros, as milhares de pessoas nas ruas, são as buzinadelas, os motores dos ares condicionados que nunca são desligados, são as carrinhas de caixa aberta com os motores a funcionar enquanto são carregadas de peixe no porto interior. Os desumidificadores nas nossas casas. São mais pessoas. São as rodas das malas de viagem a galgar o Leal Senado. São as motas. As milhares de motas que circulam em ziguezague, contornando carros e mais carros e outras motas. E são os berros.

(Generalização) Por aqui as pessoas falam alto. Não consigo explicar porquê, mas berram quando estão felizes e quando estão infelizes. Berram por tudo e por nada. Utilizam o mesmo volume quando falam com alguém que está a dois metros de si, como a 20 ou 200. O elevador parece um encontro da turma de 1985 tal é a euforia. Nas lojas, nas fronteiras, nos restaurantes, na rua e até nos pequenos jardins do território onde é suposto haver silêncio. Ou é a música, ou é a alegria das selfies ou o piquenique que mais parece um banquete. Do que tenho observado os grupos de turistas são os mestres desta proeza. Não chega as bandeirolas com coelhos pendurados, fitas coloridas e afins, não, é preciso fazerem-se notar pelo som.

Eu sou uma pessoa positiva. Sempre fui. Mas admito que, embora me divirta nesta azáfama diária, às vezes é difícil aguentar a exaustão de tanto barulho. Felizmente vão existindo alternativas. Acordar mais cedo é uma delas. Dou por mim, bem cedo, a olhar o mesmo grupo de sempre a praticar tai chi na praça da minha zona de residência, enquanto bebo o meu café. Evito horas de maior confusão e não vou a centros comerciais ao fim de semana. Temos vários supermercados abertos 24 horas e ir às compras às duas da manhã é aquilo que tenho descoberto ser uma actividade libertadora. Visitar as ruínas de São Paulo perto da meia-noite é o mais sensato. Macau não dorme. Nunca. E o que nos vai safando é Coloane, um género de almofada de conforto. Tem verde, água e algum silêncio.

Talvez esta seja uma das grandes lições de Macau. Se por um lado se apresenta dona de si mesma, barulhenta, louca e cheia de luzes, por outro, obriga-nos a crescer, a fazer-nos à estrada e a encontrar recursos para o que queremos. Diz-nos que não há cenários perfeitos, mas que somos animais adaptáveis, cheios de ideias e em evolução. Permite-nos viver uma vida paralela, aquelas vidas que nunca entraram num casino, que conseguem contornar os grupos de turistas e usufruir da calma da praia do manduco às 3 da manhã.

Macau é isto…do caraças de tão bipolar que é, de tão loucos que nos faz parecer.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.