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Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA - Assalta-me uma sensação de brandura que cobre tudo com uma camada fininha e cinzenta de tédio. Para compensar, busco no paladar a excitação que o quotidiano me nega. Descobri os jalapeños, cada vez mais “hot”. Nesta terra que tem menos sabores que dissabores, é pelo paladar que acordo o resto de mim

Em Portugal, quando está muito calor, no Verão, a areia da praia restolha sob os pés. Também canta assim a neve debaixo das botas de Inverno que uso nesta Primavera norueguesa. Aborreço-me. Sinto que à excepção dos eventos meteorológicos que nos vão proporcionando algumas alegrias, pouco acontece. Assalta-me uma sensação de brandura que cobre tudo com uma camada fininha e cinzenta de tédio. Para compensar, busco no paladar a excitação que o quotidiano me nega. Descobri os jalapeños, cada vez mais “hot”. Nesta terra que tem menos sabores que dissabores, é pelo paladar que acordo o resto de mim. O paladar é parente próximo do olfacto, o mais primordial e simples de todos os sentidos.

O GPS do carro de vez em quando diz parvoíces quando acorda. Tem o estranho hábito de sugerir que me meta à estrada, até Portugal. Lembro-me vagamente de o ter programado numa das minhas viagens pela Europa e acho que nunca mais lhe mexi. Fica como ponto oficial de desfocagem – quando oiço a extemporânea sugestão o meu dia melhora ou piora, conforme para onde esteja calhado. No canto superior direito informa que são quatro mil setecentos e noventa quilómetros até à porta de casa. Quatro mil setecentos e oitenta e nove, quatro mil setecentos e oitenta e oito, quatro mil setecentos e oitenta e sete... Estou encalhado.

O cinzento escuro do mar está riscado por estrias brancas de um vento forte que, em terra, corre com exclamações e impropérios entre as árvores que se queixam gemendo, ainda nuas e profundamente chateadas com esta agressão aos pequenos botões verdes que uma meia semana de temperatura amena acordou nas pontas dos seus ramos. Por mim, anima-me esta meteorologia animada, nunca se sabe bem o que vai acontecer, todos os dias a promessa de uma tempestade.

Nada substitui a água na sede ou o pão na fome; quando se abusa do silêncio, nada substitui a música, porque a música resolve o emaranhado caótico da solidão e cria uma escada que, em subindo, dá para ver o mar.

Lálálá. Plof.

“Reboot” - um dos melhores frutos linguísticos da era digital - é sinónimo de recomeço, reinício e, como inclui “boot” (que é bota em inglês) tem o valor acrescentado de fazer lembrar “pontapé-no-cú”, que faz lembrar “deixa-te de merdas e anda”. Faço um “reboot” e, deixando-me de merdas, ando. É assim a vida dum emigra. Bute.

Por aqui vive-se entre notícias alarmantes de intrusão russa no quotidiano norueguês. Desta feita foram apanhados (os russos) a brincar com o nosso sinal de GPS e, durante alguns dias, até o Google Maps falhou. As pessoas por aqui, que odeiam falar com estranhos, viram-se obrigadas a pedir direcções à moda antiga, ou seja, a abrir a janela e pedir “pode-me dizer qual é o melhor caminho para...?”. Uma revolução tecno-social, com efeitos profundos na psicologia colectiva. A nova Guerra Fria está bem e recomenda-se. É isto.

(mais em: https://www.instagram.com/vascopinhol/)

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.