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A Cidade Perdida

Nós lá fora

Casimiro Cavaco Dias

JAMAICA, CARAIBAS - No meio do silêncio, Port Royal é um lugar demasiado melancólico. Uma miscelânea de casas pintadas de roxo e rosa brilhante, que se vão abrindo lentamente para o jantar. Mas no fundo do mar, a mais famosa cidade dos Piratas das Caraíbas torna-se um tesouro único e excitante. Dois terços da cidade estão sepultados no fundo do mar das Caraíbas, cobertos ao longo dos anos por camadas de coral. O efeito… uma fatia da civilização instantaneamente congelada. Perdido no fundo do mar, um relógio de bolso com os ponteiros congelados exatamente no instante da submersão da cidade. Eram 11:43 da manhã de 7 de Junho de 1692

1 Abril 2019

A meia hora de carro, conseguimos fugir do bulício de Kingston para a famosa vila de Port Royal. Hoje, uma pequena vila de pescadores em desalinho e sonolência. Uma miscelânea de casas pintadas de roxo e rosa brilhante, que se vão abrindo lentamente para o jantar.

Aqui, há os pequenos barcos para a Ilha deserta de Cay, ideal para fugir de tudo. E há ainda as ostras com o saber forte do mar. Na pequena barraca de ostras do McKie, temos as melhores das Caraíbas. McKie ficou famoso pelo seu “ponche de ostras” com rum, vinho, mel, limão, cerveja Dragão e açúcar mascavado.

A Vila adormece numa ponta de areia, que serve de proteção natural ao porto de Kingston, quase que totalmente fechado do mar das Caraíbas. É um dos maiores portos naturais do mundo. Da sua posição estratégica para controlar o acesso à cidade e ao seu porto, nasceu a história de Port Royal como a mais importante base dos piratas das Caraíbas.

Ao longo do nosso passeio pelo Forte, o capitão reformado da guarda costeira, evoca cenas de caos criado por famosos piratas. Caminhamos pelo Forte, completamente em silêncio. O antigo capitão suspira e relembra a ascensão e queda de Port Royal.

Ao chegarmos a Port Royal embarcamos numa história intrigante e turbulenta. Em 1692, havia aqui mais de duzentas lojas e armazéns construídos em torno do Forte. Situado entre as Caraíbas e o Golfo do México, Port Royal estava no centro de uma extensa rede de comércio global. Tornou-se rapidamente a cidade mais rica cidade do Novo Mundo.

Tabernas, bares e bordéis enchiam-se de piratas, marinheiros e soldados. Os Piratas de Port Royal gastavam mais numa noite do que os trabalhadores das plantações ganhavam num ano. Os Piratas vestiam seda e jóias, bebiam em taças de prata, enquanto jogavam com pesadas moedas de ouro.

Vinho da Madeira e conhaque eram abundantes. Mas o “Rum Mata-Diabo” era a bebida de marca da cidade. Muitos acreditam este tipo Rum, demasiado forte, era responsável pelo caos na cidade. Não é de admirar que Port Royal se tornou conhecida como "a cidade mais perversa do mundo".

O Famoso Pirata Henry Morgan tornou-se o Governador da cidade. Sem sucesso, tentou resolver o caos da cidade e acabar com a pirataria na região. Construída num curto espaço de tempo, faltava-lhe as hierarquias familiares e as estruturas sociais tradicionais que definiam outras cidades.

Na manhã de 7 de Junho de 1692, a ilha tremeu. Port Royal construído sobre areia, prédios inteiros, estradas e pessoas foram sugados pelo chão. O chão tornou-se areia movediça, abriu e engoliu a cidade. Geiseres irromperam da terra entre o desmoronar dos prédios. Enquanto as pessoas corriam em pânico para o Forte, um maremoto atravessou as docas e as muralhas da cidade. No final, dois terços da cidade desapareceram debaixo de água.

A notícia da destruição de “cidade mais perversa do Mundo” foi descrita como ira divina. As histórias de uma cidade tão cheia de iniquidade e maldade sugada pela terra e lavada pelo mar lembra uma passagem do Velho Testamento. A pilhagem e violência que se seguiram, faziam prova da necessidade de tal intervenção divina.

Não querendo desistir do seu porto natural, os sobreviventes decidiram reconstruir a cidade. No entanto, dez anos depois, a cidade foi engolida pelas chamas. O fogo espalhou-se rapidamente através de grandes quantidades de pólvora guardados nos diversos armazéns. À meia-noite toda a cidade estava reduzida a cinzas.

Determinados a permanecer, a cidade foi reconstruída pela terceira vez. Mas os desastres continuaram. Primeiro, um grande furacão em 1744. Seguido por outro grande incêndio que destruiu quase toda a cidade em 1815. Finalmente, um grande terramoto em 1907 destruiu o que restava.

Até hoje, Port Royal foi atingido por mais de quarenta furacões, nove terramotos e dois incêndios. Golpeada por desastres naturais, Port Royal simboliza a vontade humana em interação com o meio ambiente que inflige mudanças irreversíveis e constantes.

O que McKie e o capitão reformado de Port Royal nos contam são o testemunho da tenacidade e coragem da gente que continua a viver aqui até hoje.

No meio do silêncio, Port Royal é um lugar demasiado melancólico. Mas no fundo do mar, a mais famosa cidade dos Piratas das Caraíbas torna-se um tesouro único e excitante.

Com apenas trinta anos de existência, Port Royal literalmente afundou no mar em questão de minutos, permanecendo perfeitamente intacta tal como nesse fatídico dia. O efeito… uma fatia da civilização foi instantaneamente congelada.

No fundo do mar, um relógio de bolso com os ponteiros congelados exatamente no instante da submersão da cidade. Eram 11:43 da manhã de 7 de Junho de 1692.

Casimiro Cavaco Dias

Casimiro Cavaco Dias

BARBADOS, CARAÍBAS - Nasceu em Faro. Cedo, movido pela realização da saúde enquanto direito humano, viveu em Lisboa, Copenhaga, Washington DC, Luanda e nas Caraíbas. Especialista das Nações Unidas, apoia os Países em todo o Mundo a transformar sistemas e serviços de saúde mais inovadores, resilientes e sustentáveis. Entre a destruição dos furacões nas Caraíbas, os surtos de ébola e febre amarela na África, a crise dos refugiados na Europa ou a crise financeira dos Estados Unidos, a paixão e a criatividade das pessoas torna possível transformar e criar o futuro da saúde para todos. Autor do livro “O Valor da Inovação: Criar o futuro do Sistema de Saúde” e Prémio António Arnaut.