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Nós lá fora

António Raúl Reis

LUXEMBURGO - Eu estava lá. E nunca esquecerei esse momento, que fica na galeria das grandes recordações futebolísticas tal como aquela noite de julho de 2016 em Paris

Dei comigo nos primeiros meses do ano a fazer o balanço de 2018. Não sendo um hábito meu, estranhei. Por isso tentei ignorar várias vezes esta vontade de escrever sobre o ano passado que, ainda por cima, já parece extremamente longínquo.

Foi um ano em que viajei bastante: descobri sítios que me surpreenderam, encontrei pessoas inesperadas e revi a minha visão de muitas coisas do mundo.

Entre as recordações mais marcantes está a passagem pela Rússia durante o campeonato do mundo de futebol.

A principal surpresa foi a descoberta de Sochi. Inesquecível porque o “animal” Cristiano Ronaldo decidiu que a Espanha não nos passaria por cima e marcou – uma, outra, e outra vez – quem gosta de futebol, assinando um feito histórico e um livre direto que os investigadores de todo o mundo ainda estão a estudar.

Eu estava lá. E nunca esquecerei esse momento, que fica na galeria das grandes recordações futebolísticas tal como aquela noite de julho de 2016 em Paris.

Mas ficou-me tatuada na alma uma cidade de nome Sochi. Antes de aterrar na costa do mar Negro já tinha ideias feitas sobre o Dubai russo. Prédios altos, pontes faraónicas e muito artifício para inglês ver.

Nenhum destes estereótipos é mentira, mas Sochi é muito mais do que isso. A maior autarquia da Rússia em termos de superfície é invadida por turistas durante todo o ano mas, para um estrangeiro como eu, mantém um espírito extremamente típico já que a enorme maioria dos visitantes são russos ou vizinhos da Geórgia.

Confirmei esta realidade em duas visitas que efetuei depois do Mundial graças ao magnânimo Putin. O presidente russo decidiu que quem tivesse ido à bola em junho e julho podia regressar à Rússia durante todo o ano de 2018 sem necessitar de visto. Aproveitei a ocasião.

Sochi e a sua região são claramente uma sala de visitas de que os russos se orgulham e cuja tradição vem de longe. A “nomenklatura” soviética já prezava este pedaço de costa do mar Negro onde uma das maiores atrações turísticas continua a ser a “dacha” de Estaline, conhecida como a casa verde, pois era pintada dessa cor para se confundir com a paisagem.

Hoje Sochi tem uma frente de mar de dezenas de quilómetros, que se espraia quase até à fronteira com a Geórgia, cheia de edifícios (muitos de gosto duvidoso) destinados a acolher turistas. Da pensão razoável ao luxuoso hotel de 4 e 5 estrelas, a cidade propõe preços mais baratos do que no Algarve.

Na marina de Sochi, ou na zona do estádio de Adler, circulam carros de luxo, sobretudo SUV negros de marcas alemãs com vidros escuros atrás e à frente. Os abastados oligarcas de toda a Rússia gostam de mostrar a cor do seu dinheiro em Sochi mas sobretudo aproveitar o sol, o mar, os desportos de inverno, e a restauração e a hotelaria que só encontram equivalente em Moscovo ou São Petersburgo.

Se está à procura de um sítio diferente para passar umas férias originais, e com todo o conforto, esta cidade é uma excelente escolha. A sensação de novidade será total para um português, com a vantagem de não abandonar a zona de conforto ocidental com condições e infraestruturas como aquelas que esperaríamos, por exemplo, em Portugal.

Contudo, a minha paixão por Sochi padece de elementos de incerteza. Custa estar num país em que o sentido de serviço ao cliente ainda deixa a desejar e numa cidade onde falar russo é quase obrigatório para “sobreviver”.

E depois temos o regime que não se sente, mas mói. Na televisão, os debates políticos são mais frequentes do que os concursos de busca de talentos. Claramente encenadas, estas emissões contam sempre com um defensor do Ocidente, ou da Ucrânia, ou de qualquer outro dos inimigos declarados do país. Esta pessoa é metodicamente destruída por argumentos (e pelos gritos) dos outros participantes, ficando assim a verdade e a ortodoxia protegidas e explicadas.

E depois temos a figura omnipresente de Vladimir Putin. Manda a tradição que o presidente se dirija à nação na noite de ano novo mesmo antes das 24 horas do dia 31 de dezembro. O discurso é curto mas tem uma interessante característica: só quando o presidente diz que é ano novo se lançam os primeiros foguetes.

Fica regularmente a impressão de que os tempos soviéticos passaram, mas não mudaram muita coisa, pelo menos na forma como se faz política ou como as instituições funcionam. Curiosamente, o capitalismo na Rússia é feroz e selvagem. Não encontro comparação possível no continente europeu: ali o dinheiro é quem mais ordena e tem quase sempre razão.

António Raúl Reis

António Raúl Reis

LUXEMBURGO Há mais de 25 anos lá fora, António Raúl Reis trabalha para a União Europeia mas apaixonou-se pelo jornalismo aos 16 anos numa rádio pirata e acabou por fundar o primeiro jornal em linha das comunidades portuguesas, o Bom Dia. Já viveu em Espanha e na Bélgica e agora assentou arraiais no país com maior percentagem de portugueses no mundo. Apaixonado por cinema acha que não há melhores férias do que 10 dias por ano no festival de Cannes ou as vindimas nas vinhas de Felgueiras onde nasceu.