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A mala do emigrante

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - A mala do emigrante é um reflexo da sua história de vida. Mais do que manteiga, o que o meu colega trazia daquelas visitas era uma recordação de infância relacionada com o sabor dos crepes. Mais ou menos como os portugueses que levam Nestum.

Há muitos, muitos anos, vivia eu ainda em Madrid, recordo uma conversa à hora de almoço com um colega francês que nos contava que 70% da mala dele quando regressava de visitar a casa dos pais na Bretanha era comida, mais concretamente manteiga. Concluía ele que ainda bem que já não havia “fronteiras” na União Europeia, porque seria constrangedor ter de explicar ao funcionário da alfândega a razão para trazer tamanha quantidade de manteiga na mala.

Persiste no nosso imaginário coletivo uma ideia um tanto kitsch do emigrante português, mas garanto-vos que nas nossas malas levamos muitas outras coisas para além de produtos regionais e saudades da terrinha. Nem somos os únicos com estas manias. Uma americana no Chile confessou-nos que trazia sempre pasta de dentes dos Estados Unidos. Não imaginam a felicidade que uma simples pasta dentífrica pode causar. Por vezes levamos connosco coisas bastante prosaicas. A motivação para o que transportamos na mala para os quatro cantos do mundo pode ser de ordem económica ou sentimental, muitas vezes é ditada pela frequência com que visitamos o nosso país de origem, pelo tempo que já vivemos fora, ou até pelas características do país em que estamos a viver atualmente. A mala do emigrante é um reflexo da sua história de vida. Mais do que manteiga, o que o meu colega trazia daquelas visitas era uma recordação de infância relacionada com o sabor dos crepes. Mais ou menos como os portugueses que levam Nestum.

Confesso que da época de Madrid não me recordo de levar na minha mala muito mais do que alheiras, vinho para fazer apostolado de que havia vida além do Rioja e do Alvariño e alguns CDs de música portuguesa. Às vezes trazia bolsas com a couve do caldo verde. Madrid está ao lado. Cinco anos depois daquela conversa, estava eu a encher metade da minha mala com um edredão de verão para levar para São Paulo. A minha família perplexa: “Tu vais carregada com um edredão para o Brasil? No Brasil não faz calor?” O mito do Brasil como país tropical! Em São Paulo, faz frio em Julho. Faz mais frio em casa do que na rua, porque o isolamento das casas é mau. A verdade é que eu sabia exatamente onde comprar o edredão em Madrid e não fazia ainda ideia de onde o comprar em São Paulo. Mas já sabia que se quisesse comprar uma marca idêntica, produto “imporrrrtado”, seguramente me iria sair muito mais caro. O triplo de caro. O aspeto económico determinou muito do conteúdo das minhas malas nessa época. Chocolates suíços, porque eu como chocolate como quem fuma, tampões O.B. (too much information?!). Noutra ocasião, 1 kg de castanhas para fazer um magusto. Tinha amigos que traziam vinho, polvo (que em São Paulo era quase ao preço de caviar) e até quem levasse o Fairy para lavar a louça. Muitas cápsulas para a máquina do café. Trazíamos também roupa e artigos de perfumaria. Esperava ir de férias a Portugal para comprar em modo de açambarcamento, como quem vai para a guerra. Uma amiga brincava que quem nos visse na loja sem saber que estávamos a comprar para um ano inteiro, até à próxima visita a Portugal, pensaria seguramente que éramos uns novos ricos. Podíamos até parecer ricos no Portugal da troika, mas enchíamos a mala de regresso para poupar dinheiro como todos.

No Chile, são muito estritos com a questão da contaminação alimentar e o controlo das pragas agrícolas. Tem que vir tudo pasteurizado, embalado a vácuo e declarado no papelinho que nos entregam ainda a bordo. Os franceses queixam-se dos queijos, os espanhóis choram os enchidos apreendidos na alfândega. Eu deixei de trazer as alheiras. Praticamente só passam o queijo da ilha de São Jorge e o bacalhau, tudo devidamente embrulhado em papel de alumínio para não passar o cheiro. Vai a mala cheia de tijolos de alumínio como naquelas apreensões de narcotraficantes que vemos nas noticias.

O Portugal do boom turístico a preços de Santiago já não me parece tão barato como o Portugal da troika a preços de São Paulo. Agora a mala faz-se mais por motivos ditados pela escassez/oportunidade. O Chile fica tão longe que privilegiamos levar coisas que “não há lá”. Como bonecos da Playmobil que nem sempre se encontram no Chile. Faço sempre questão de trazer sapatos para os miúdos. Sim, também há sapatos para crianças no Chile, mas eu tenho aquela debilidade pela sandália inglesa, ainda melhor se for da sapataria Lisbonense na Baixa, com o mesmo modelo desde que eu era criança (provavelmente até os funcionários da loja são os mesmos de quando eu era criança!). E depois há aquela vez em que decidi levar uma mangueira de aspirador. A família perplexa outra vez: “Mas não há aspiradores no Chile?”. Haver há, não há é Nilfisk e, entre deitar fora um ótimo aspirador que já tinha sobrevivido a duas mudanças e dois países diferentes (quase um membro da família, portanto), ou trazer a mangueira na mala e um filtro novo que o coitado também já merecia... lá tiveram que saltar fora dois “tijolos” daqueles de alumínio e algum presente para os miúdos. Às vezes é preciso ser brutal.

Há, finalmente, a mala mais sentimental, toalhas bordadas, porcelana portuguesa, já ouvi de tudo e quase tudo muito pouco prático de transportar. Para quem vive do outro lado do mundo, trazer um mapa de Portugal daqueles grandes, como os que estavam pendurados nas salas de aula da escola primária, pode parecer um bem de primeira necessidade. Muito prático, a mala de mão, a mochila das fraldas, o carro de bebé, o miúdo e o canudo do mapa, ai e tal não vá isto amachucar-se pelo caminho... Normalmente contento-me com uma moldura de prata, que depois tento esconder dentro da manta de Manteigas, que por sua vez ocupa logo um terço da mala. Na verdade, já trouxe duas. Mantas e molduras. Uma para cada filho. Muitos livros infantis em português. Caramba, se vocês soubessem o que pesam os livros na mala! Se calhar era mais fácil trazer as porcelanas...

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 7 meses aproximadamente...

Nas notícias por aqui: A crise política e humanitária na Venezuela.

Sabia que por cá Apesar de Fevereiro ser o pico do Verão no hemisfério Sul, na região dos altiplanos do norte do Chile (Calama/Antofagasta), ocorre entre Dezembro e Fevereiro um fenómeno meteorológico caraterizado por fortes tempestades de chuva e granizo denominado “Inverno Boliviano”.

Um número surpreendente: 30 mil hectares afetados no sul do Chile pelos incêndios florestais deste ano.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.