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Helena Vila Verde

Helena Vila Verde

SÃO PAULO, BRASIL

“Brasil, meu Brasil, brasileiro...”

Nós lá fora

Helena Vila Verde

Inhotim foi sem dúvida um dos lugares mais interessantes e diferentes que já conheci. Nós passámos um dia em Inhotim, conhecemos quase tudo, aproveitámos todos os trechos que se podiam fazer no carrinho de golfe e chegámos esgotados ao final do dia

Neste texto, quero fazer uma (pequena) homenagem a Mariana e Brumadinho que viveram tragédias sem palavras, com o rompimento das barragens. Tive oportunidade de visitar Mariana e Inhotim, que fica em Brumadinho e vou falar um pouco destas cidades e deste interior do Brasil que faz parte da história de Portugal.

Viver em São Paulo tem a grande vantagem de se poder viajar para quase todos os lugares do Brasil e do mundo. Quando viemos viver para o Brasil tínhamos uma lista de lugares que queríamos visitar. Alguns deles já visitamos, outros estão ainda na lista, outros foram sendo acrescentados e outros já visitamos mais do que uma vez. Como gostamos muito de história, tínhamos na nossa lista de lugares a visitar a cidade histórica de Ouro Preto.

Ouro Preto, Brumadinho e Mariana, ficam em Belo Horizonte, tal como, Tiradentes, Congonhas e outras pequenas cidades que fazem parte de um roteiro chamado “Caminho do Ouro”. Acho que em Portugal todos nós ouvimos falar de Ouro Preto, por ser talvez a cidade mais conhecida pela exploração do ouro, que foi levado do Brasil para Portugal, antes da independência do Brasil.

Quando decidimos fazer o circuito do Caminho do Ouro, que no nosso caso apenas deu para conhecer Ouro Preto, Tiradentes e Mariana, fomos aconselhados por algumas pessoas que já tinham visitado, a ir conhecer um lugar que nos diziam ser mágico: Inhotim, em Brumadinho. Brumadinho fica a pouco mais de uma hora do aeroporto de Pampulha em Belo Horizonte. Chegando lá, todas as indicações vão dar a Inhotim, a menina dos olhos de Brumadinho.

Inhotim é o maior museu de arte a céu aberto do mundo, com mais de 500 obras de 97 artistas de 30 nacionalidades, espalhadas pelos pavilhões e pelo grande espaço verde em volta deles. É um local, onde se percorrem longas distâncias a pé, sendo possível fazer alguns pequenos trechos num carrinho de golfe. As exposições são visuais, sonoras, sensoriais, contemplativas, participativas, enfim... Inhotim é muito mais que um museu, é um grande jardim e é uma experiência realmente mágica. Além de todo o verde, que é impossível não nos impressionar, os vários pavilhões e algumas das experiências que nos são proporcionadas, tornam aquele lugar inesquecível, de uma beleza e de uma riqueza incomparáveis. Se tivesse que fazer uma comparação, seria com o Museu Serralves do Porto, mas Inhotim é 20, 30, 100 vezes maior.

Inesquecível também foi a aranha que vi! A maior aranha da minha vida, ainda me arrepio de pensar, não era venenosa, mas não foi bonito...

Inhotim foi sem dúvida um dos lugares mais interessantes e diferentes que já conheci. Nós passámos um dia em Inhotim, conhecemos quase tudo, aproveitámos todos os trechos que se podiam fazer no carrinho de golfe e chegámos esgotados ao final do dia. De ano para ano, Inhotim está cada vez maior, e para ver com calma talvez hoje sejam melhores dois dias.

Depois de conhecer Inhotim, fomos até Ouro Preto, que há muitos anos atrás tinha o nome de Vila Rica, que realmente é de ficar encantado. As ruas a subir e descer, as calçadas de paralelepípedos em granito tão típicas de Portugal, as Igrejas, os antigos palácios, que hoje são museus e mais Igrejas, o casario, os telhados das casas, o teatro, a história do ouro e das primeiras tentativas de conseguir a independência de Portugal (ficando conhecido como a Inconfidência Mineira). É impossível não se impressionar com Ouro Preto! E, claro que estando em Ouro Preto, ficam duas curiosidades: as visitas às minas de Ouro e as muitas ourivesarias/joalharias que por lá há, que juntam o ouro/prata às pedras preciosas, muitas delas da região de Minas Gerais. Por um acaso do destino acabamos por visitar duas minas de ouro: uma mais artesanal ou menos industrial – a do Chico Rei – não recomendada para quem tenha claustrofobia, porque tem que se andar dobrado por uns caminhos estreitos e uma mina profissional ou mais industrial – a da Passagem – que tem umas galerias gigantes, vários caminhos onde se perder e onde até se pode fazer mergulho nas galerias submersas, porque parte da mina está submersa. A mina da Passagem está situada entre Ouro Preto e Mariana, mas o que nos levou a Mariana foi um concerto de musica clássica que ia acontecer na Catedral Basílica da Sé, que tem um órgão de tubos dos mais antigos do país (1701) em funcionamento.

Como achámos que era uma coisa fora do comum, lá fomos nós para o concerto e depois conhecemos um pouco mais de Mariana, que é uma pequena cidade tranquila com duas ou três praças históricas que cresceu à volta das várias Igrejas que por ali se encontram. Um outro passeio que não tivemos tempo de fazer, mas que também dizem apresentar paisagens bem bonitas é o trajeto num comboio típico da época (chamado Maria Fumaça) entre Ouro Preto e Mariana.

Ouro Preto tem também o Teatro mais antigo da América Latina (a casa de Opera de Vila Rica) ainda em funcionamento, que é um charme e que está realmente muito bem conservado, valendo a pena a visita.

Em Ouro Preto, também visitámos o Museu da Inconfidência, onde se retrata um pouco da época áurea da extração e exploração do ouro, do período da escravatura, do domínio da coroa portuguesa e da primeira tentativa que se fez de tornar o Brasil independente. A inconfidência mineira (1789), como referi foi um dos primeiros movimentos que surgiu para conseguir a independência do Brasil. Na altura, vários eram os motivos de revolta contra a metrópole, entre eles a alta percentagem que tinham que pagar de impostos, a proibição de funcionamento de fábricas, o que impedia o desenvolvimento do Brasil e os abusos cometidos pelos soldados portugueses. Um grupo de pensadores, poetas e da elite mineira começaram a conspirar para conseguir a independência do Brasil. A sentença está exposta no Museu: uns foram condenados à morte e outros ao degredo. O único que realmente viu a sua sentença de morte ser executada foi Tiradentes (alcunha que lhe era dada por se dentista, como claramente indica), porque era o que tinha a posição social mais baixa e embora se tivesse livrado de uma morte cruel, como referia a sentença. Como foi o único a realmente ser enforcado, tornou-se o símbolo dessa revolução e mártir de uma independência pré-anunciada que acabou por acontecer cerca de 30 anos depois. Hoje no dia 21 de Abril, celebra-se o dia de Tiradentes, como assim ficou conhecido o herói nacional Joaquim José da Silva Xavier, e é feriado nacional no Brasil.

Já tínhamos nos nossos planos visitar Tiradentes, porque tínhamos ouvido maravilhas sobre a paisagem do trajeto pela Estrada Real entre Ouro preto e Tiradentes e, depois de sabermos quem era Tiradentes, ainda ficamos com mais vontade de conhecer a cidade que foi assim batizada em sua honra (antes era São José del Rei). Escusado será dizer que as paisagens da Estrada Real são deslumbrantes, de olhar e não se cansar, serras verdes, vales, uma extensão a perder de vista. A Estrada Real foi a primeira estrada aberta oficialmente pela Coroa Portuguesa para ligar o litoral (Paraty) à região produtora de ouro no interior de Minas Gerais – Ouro Preto ou Vila Rica. E o incrível é que esta estrada se encontra preservada até hoje, embora pequenos trechos não sejam totalmente originais, porque os originais já não dariam para circular. Tiradentes é uma cidade pequena, muito charmosa e muito romântica, com ruas menos ingremes do que Ouro Preto, mas uma calçada, casarios, Igrejas bem semelhantes, embora ache que Tiradentes tenha um pouco mais de cor. Na praça principal, tem no topo uma Igreja, onde é impossível não ficar impressionado com uma imponente parede da Serra São José. Vários restaurantes, lojas de mobiliário, decoração, artesanato e doces são uma perdição. Ao final do dia as luzes conseguem dar-lhe um charme e romantismo sem igual.

As pessoas em Minas Gerais são de uma simpatia sem igual, a comida em Minas Gerais é de uma riqueza de sabor também difícil de igualar: o melhor pão de queijo é mineiro, o feijão tropeiro, leitão à pururuca, frango ao molho pardo, frango com quiabo, a goiabada, os vários queijos de minas, o doce de leite e de abobora, entre muitas outras coisas deliciosas. Entre as cidades históricas património da humanidade e as comidas maravilhosas servidas por pessoas de uma simplicidade e simpatia sem igual, é impossível não se apaixonar por Minas Gerais e é impossível não amar o Brasil!

Dias sem ir a Portugal: 25

Nas noticias por aqui fala-se da tragédia do rebentamento da barragem em Brumadinho.

Um número surpreendente: 121 mortos confirmados, 226 pessoas continuam desaparecidas.

Sabias que no século XVII o percurso da estrada real de Paraty a Ouro Preto (710 km) levava 60 dias para ser feito a cavalo.

Helena Vila Verde

Helena Vila Verde

SÃO PAULO, BRASIL

Nascida no Porto, é uma mulher do norte que rumou com o marido, na altura namorado, para o Brasil em 2011 à procura de novas experiências, culturas e oportunidades. Adora viajar, comer e sente muita falta do mar. Estudou direito na Faculdade de Direito da Universidade do Porto e trabalhou como advogada e consultora de tributação internacional até 2015. Depois de uma pequena pausa após o nascimento de sua filha, decidiu repensar a sua vida profissional e acabou fazendo uma mudança radical de vida e viver mais uma aventura: ser atriz. Hoje está a dar os seus primeiros passos como atriz e é também corretora numa Boutique Imobiliária.