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O mundo tremeu no Haiti há nove anos

Nós lá fora

Mariana Palavra

A 12 de Janeiro de 2010, um terramoto de 7.0 na escala de Ritcher abalou o Haiti, destruindo sobretudo a capital, Porto Príncipe. Estima-se que cerca de 300,000 pessoas tenham morrido. 102 trabalhavam para as Nações Unidas. Eu Sobrevivi. O texto que se segue foi escrito nessa altura.

Foi como um soco no estômago, daqueles que doem a valer quando os abdominais estão completamente distraídos. Numa altura de crise na redacção da rádio da ONU no Haiti, não esperava que ele, Parnel Beauvoir, o elemento mais velho da minha equipa, anunciasse à frente de todos os outros jornalistas que iria de férias, quando, eu já lhe tinha dito que não poderia fazê-lo nessa altura.

Poderia ser apenas um pormenor administrativo, uma questão laboral, uma infeliz planificação. Mas não naquelas circunstâncias. E não com o Parnel. Ele, o mais velho dos cinco da equipa, antigo director de uma escola em Les Cayes, cidade do sul do Haiti e que saía todas as sextas mais cedo, à uma da tarde, para regressar à cidade natal (eu fechava o olho ao cumprimento do horário de trabalho e piscava-lhe o outro, desejando-lhe bom fim-de-semana). Como podia não o deixar sair mais cedo para uma viagem de carro de quatro horas pela frente? Em Les Cayes, tinha a mulher, três filhos (o quarto morreu em Agosto passado, poucas horas depois de nascer), um sobrinho órfão, e umas outras três crianças que, no Haiti, são conhecidas por 'restavek' (rester avec, ficar com). A domesticidade infantil afecta mais de 200 mil crianças no país. Escravatura moderna também lhe chamam. Não para o Parnel. Sempre jurou a pés juntos que na sua casa, todas as crianças, as suas e as dos outros, tinham as mesmas tarefas e todos iam a escola. Não tenho a menor dúvida.

Voltando ao soco, como foi possível não respeitar o que lhe tinha dito? E à frente de todos os outros? Ele, a quem eu recorria para advertir os restantes quatro membros da equipa (quando eu sozinha nem sempre dava conta do recado), o mais respeitado por todos e que nunca se zangava, a não ser quando o seu carregador do telemóvel desaparecia (mas que ele insistia em deixá-lo na redacção, quando sabia tratar-se de um objecto apetecível no seio de uma equipa pouco organizada e muito esquecida). Ele, que me tinha esperado à entrada de Les Cayes, na primeira vez que conduzi para fora da capital e que me recebeu a mim e aos restantes passageiros com bebidas e que, às escondidas, pagou a um haitiano para tomar conta do meu carro e dar-lhe uma ensaboadela. Ele que se lamentava sempre que eu me ausentava para fora do país (bem, não sei se era por minha causa, ou por saber que a minha substituta liderava com chicote).

A questão das ditas férias foi resolvida com uma reunião extraordinária de equipa. Pela primeira vez, coloquei o fato de supervisora, juntei os cinco e anunciei que, a partir desse dia, estavam extintas as minhas regras-com-excesso-de-flexibilidade. Entravam em vigor as regras oficiais da rádio ONU. Parnel, mais uma vez, falou por todos, e por si. Com a calma e a sabedoria de sempre. Aquele que parecia um ponto de ruptura com a equipa, não foi mais do que um dia nublado. Parnel acabou por decidir não ir de férias, eu acabei por recuperar as regras-com-excesso-de-flexibilidade. Na sexta-feira seguinte, como era nossa tradição, Parnel saiu mais cedo para Les Cayes e eu pisquei-lhe o olho.

Mas tudo isto foi passado. Foi em Dezembro [de 2009], lá por alturas do Natal. Parnel Beauvoir, o meu jornalista (e hoje deixo de lado qualquer modéstia, abusando do pronome possessivo), morreu no dia 12 de Janeiro [de 2010]. Estava a cortar o cabelo na barbearia de sempre, durante o horário de trabalho, quando o terramoto abanou o Haiti. Se ao menos eu não tivesse o hábito de o deixar sair mais cedo da redacção...

Ah! O carregador não se perdeu nas ruínas da sede da ONU, que também ruiu com o terramoto, naquele que é um dos maiores desastres naturais do século XXI. A Naomie, elemento feminino da equipa, apercebeu-se esta semana que tinha um carregador na carteira. Lá estava o autocolante resistente à guerra, com o nome: BEAUVOIR (Parnel). O Parnel bem sabia a equipa que tinha. Rimos. O mundo pode cair, mas há coisas que nunca mudam. Ainda bem.

Nove anos depois, ainda há coisas que nunca mudam. Como se tivesse sido hoje.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

Beira, MOÇAMBIQUE - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário. Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar, por Angola e vive agora em Moçambique.