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De barriga cheia que nem pandas

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - Em Macau come-se muito bem. Dizer muito bem é não conseguir explicar como se come em Macau

Existem dois tipos de pessoa no mundo: a que “come para viver” e a que “vive para comer”. Durante anos tive como adversária a comida. Numa luta entre ganhar e perder peso. A razão sempre foi simples: amo a minha concorrente. Adoro tudo sobre comida, menos cozinhar. Deixo isso para os profissionais.

Adoro a conjugação de sabores, as cores, os cheiros, as combinações perfeitas, os processos desde o plantar até àquele momento grandioso da apresentação do prato. Mas adoro-a, principalmente, por dois aspectos que considero importantíssimos. Primeiro: a gastronomia traz consigo a história, os valores e cultura de um povo. Ninguém compreenderá um povo se não lhe provar a gastronomia, se não lhe sentir o sabor, as especiarias, os temperos. Segundo: a comida une pessoas. É ali, naquele momento de partilha que nos entregamos. Quando preparamos um jantar, quando nos sentamos em torno de uma mesa, quando damos a conhecer um pouco de nós ao outro e vice-versa.

Em Macau come-se muito bem. Dizer muito bem é não conseguir explicar como se come em Macau. Em termos práticos, 98% dos emigrantes engordam quando cá chegam. Eu própria aumentei uns felizes 9 quilos desde que aqui cheguei. Isso mesmo. N-O-V-E QUILOS!

Acreditem quando vos digo que é impossível resistir a uma pratada de beef noodles ou a um gorduroso minchi. Já para não falar dos camarões fritos, um chau min (chow mein), uns ovos mexidos com camarão e toda a variedade asiática que por aqui existe. Esqueçam a torrada com leite ao pequeno-almoço. Aqui comemos Dim Sum às 9 da manhã. Uns redondinhos dumplings de carne, camarão ou vegetais, a acompanhar um porco fatiado doce (char siu) que nos faz acreditar em Deus. E os brócolos? Se eu soubesse que os brócolos podiam ter este sabor…. Sim, também temos ovos centenários – vulgarmente conhecidos como “ovos podres” – que embora pareçam que nos vão matar, são profundamente saborosos.

Mas antes que me lancem já aquele olhar desconfiado ou aquela piada (meia básica), uma nota importante. Em Macau é proibido comer cão. Não confundir as coisas. Aqui não comemos cão. E se há alguém que come, então está a agir contra a própria legislação local.

Ditam-me as viagens que tenho feito pela Ásia, que as refeições são momentos muito importantes. É assim que se convive neste lado do mundo, a partilhar comida, a brindar com a cerveja na mão. Tão assim, que na minha recente visita à capital da Coreia do Sul, Seoul, descobri que em muitos bares o pedido de comida é obrigatório. “Onde quer que vás não peças só bebidas, tens de pedir comida também”, disse-me a minha anfitriã. Não fiquei admirada quando nos encontrámos às 17 horas para o primeiro jantar e às 3 da manhã já contávamos com três jantares na barriga.

Recordo as noites quentes do Vietname. A comida de rua, os bancos vermelhos e pequenos, mas demasiado altos para as baixas mesas. O picante, os vapores vindos das cozinhas, as pessoas felizes e alguém, lá ao fundo, a dançar. E as ruas atoladas de minúsculos restaurantes pelo Japão? Ou aquele ramen às 11 da manhã, tão quente que aquece a alma de qualquer um? A Ásia é assim, um conjunto de sabores perfeitos.

Macau junta um pouquinho de todos e oferece aos que por cá habitam uma viagem gastronómica sem sairmos da península. Temos japonês em qualquer esquina, tailandeses perfeitos, churrascos coreanos que gritam convívio e partilha e um mapa dos sabores da China. Comida do norte com o seu picante intenso, ou um saboroso pato à Pequim.

Esta terra não esquece a sua história. E se quisermos mergulhar no que fomos, lambemos os dedos com o Minchi, uma embrulhada de batatas cortadas as cubos com carne de vaca, porco ou as duas. Uma mão de molho de soja com azeite a temperar e, no fim, um ovo estrelado por cima. Diz o Governo de Macau que “Minchi” era o prato favorito dos “meninos macaenses” e que terá chegado a Macau através de Hong Kong e “por influência anglo-indiana”. Já os portugueses deixaram por cá o Bacalhau Dourado ou Macaísta que, dita a mesma fonte, é um “excelente exemplo da fusão entre a cozinha portuguesa e asiática”. O bacalhau, tão português, viaja entre o leite de coco e o açafrão. Com a medida certa do piripíri não há quem lhe resista.

Abri-vos o apetite? Há mais. Muitos mais pratos, iguarias e sabores imperdíveis nesta terra. Tantos, que nem uma mão cheia de anos vão chegar para os provar.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.